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domingo, 15 de agosto de 2021

Curtas 8 - Visita

Hoje, ao ver o avanço da imunização, notei que estava sendo visitada. Ela entrou pela pesada porta que as outras tinham deixado aberta (porque eu tenho muita dificuldade de abrir sozinha). Os seus pés de passos leves mal me deixaram notar sua presença. Quando dei por mim, já tinha ido. Mas deixou suas pegadas na poeira. Quase não reconheci seu perfil ao sair pelas sombras. Contemplei o céu noturno enquanto tentava me lembrar de onde a conhecia, me veio seu nome: esperança. 

09/08/21

terça-feira, 10 de agosto de 2021

"Tudo o que eu lembro é o que perdi."

Conheci um menino que era versado na arte de ser ele mesmo. Me encantava o charme nos seus modos práticos, na delicadeza e peculiaridade das suas demonstrações de afeto, na sua risada impetuosa; e me assustava seu pensar objetivo, suas conclusões, concessões, entregas e descasos. 

Mas esse menino não tinha falas. De tanto aprender a agir se esqueceu de como falar. Não me entenda mal, ele sabia se comunicar, sabia manter diálogos. Mas em tantos momentos, decisivos ou irrisórios, lhe faltavam palavras. Ou a coragem para enunciá-las. Então ele dizia "Queria ter uma frase de deus da guerra". Mas essas não vinham e nem bastavam. 

O menino precisava aprender a colocar o coração pra fora pela boca, mas seu coração estava confinado na rigidez de sua caixa torácica. Às vezes encontrava brechas e escorria pelos braços até os punhos. Noutras era esquecido, o menino achava que estava ausente. Talvez tivesse feito as malas e ido veranear em uma praia distante. 

E que palavras bonitas ou juízos pode emitir um menino sem coração? 

A peça que processava suas emoções estava obsoleta, fora trocada pela peça das razões, que não dava trela a um poema e seus rodeios nem a uma menina e suas implicações. Por isso, de tanto querer estar melhor, estar bem, estar aqui, acolá e mais além, o menino foi estando, e deixou de ser.