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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Curtas 16 - O sol não tem culpa.

Queria acender uma fogueira no seu peito pra que as suas palavras não arrepiassem minhas costas, mas mal consigo manter acesa a minha própria chama. Não sei se mantenho do jeito certo, como fazer ser natural, com ser de verdade? E se meu fogo apagar e eu afundar outra vez na água gelada? Tenho tanto medo disso. 

Naquela noite em que eu estava no chão sentindo o cheiro daquela vida toda que eu tinha, e que ainda passa às vezes, eu pedi sua ajuda e você deixou minhas mãos dormentes. De medo. Porque seu papo de solidão é tão aterrador pra mim. 

Eu tenho problemas com o sol porque ele me lembra a sua casa e a sua cidade. Mas não tem tanto a ver com você. Porque eu fico gripada encostada na parede quente do seu quarto. Porque a sua vida, e a vida aqui, é cheia desse sol obrigatório, sol violento, dolorido, perigoso e de despedida. O sol da tarde me lembra a solidão. 

Mas o sol não tem culpa. 

Quando você me elogia eu me sinto fraca, tutelada. Parece que você se esforça pra ver o que tem de bom em mim porque se acha muito melhor. Parece que você acha que eu preciso ser consolada pela minha vida fraca, ou que eu preciso de reconhecimento. Porque o seu reconhecimento nunca parece de verdade? Porque eu não consigo acreditar na sua admiração? 

Mesmo tendo pouco de você ainda é melhor que não ter nada, e o meu normal nunca foi suficiente, mas você não percebia então eu achava que era. E o seu esforço sempre parecia em vão, eu sempre pedi mais, e a gente se machucava junto. Eu realmente acreditei que você sentia algo parecido comigo mas era muito pior.

Quando eu falo com você eu nunca sei o que esperar e isso vai me machucando devagarinho mas não parece arranhar a superfície de mim porque eu me acostumei. Diferente de tudo que a gente tinha e se arranhava tão fácil. 

Você se esforça muito pra fazer as pazes comigo e com o seu passado. E eu tenho tentado fazer as pazes com o sol e com o meu presente. Ele parecia mais ameno na minha memória. Ele parecia melhor quando eu sentia o cheiro da minha casa e não da sua. Das minhas. Das suas. As suas casas são tão sozinhas pra mim... 

O seu melhor talvez não encaixe em mim. Essa frase na verdade é sua. 

Dependendo de como eu viro o olho eu sinto uma e outra coisa, mas já decidi que vou ficar bem comigo pelo menos enquanto eu posso, pelo menos enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer e sei onde achar um sentimento ou outro que eu preciso. E vou tentar contigo tendo um monte das coisas que a gente queria ter, e deixando de ter outro monte, algumas que a gente nem sabia e nem sabe ainda. 

Tem uma música que você gosta e eu não, que diz que "você é como o sol, ilumina meu dia mas queima a minha pele". E se eu fui isso pra você, porque você continuou? E eu disse que meu texto ia terminar feliz mas não consigo deixar de ficar triste pensando outra vez na solidão que acho que tu sente, e que parece contagiosa, só de falar dela eu sinto um pouquinho. Queria ser mais, queria poder consertar nós dois e não posso nem comigo. 

Mas vai lá, vou terminar bem. Vou terminar dizendo que pelo menos agora as coisas não são como minha cabeça viciada quer projetar, como um caos. Elas simplesmente são como são, e eu não compreendo tão bem. Mas a gente ainda consegue ter o melhor um do outro. Ou... quase isso. Terminar dizendo que me consola a sua presença. 

07/12/22 às 20h00

domingo, 27 de novembro de 2022

Uma noite assistindo a camerata de cordas da universidade da cidade.

    Ontem vi uma árvore com folhas nas cores amarela e verde, só dois tons, e os espaços escuros. Pensei "Essa árvore não pode ser comum", apesar de que fosse, não era. Porque na frente dela, em plano mais baixo (em relação a árvore) e em plano mais alto (em relação ao público), estava montado um palco com uma camerata. 

    Eles executavam músicas que tocariam qualquer um por ser o que são, por suas idas e vindas, pela emoção que produziam. Mas tocavam mais ainda aquele público, presente por gostar dos filmes para os quais as músicas foram compostas, filmes que em sua narrativa e visual já conseguriam encantar.

    Entretanto, estes são filmes produzidos por um homem que soube fazer o papel de um grande artista: Exprimir sentimentos que existem em todos nós, mesmo que nem sempre lembremo-nos deles ou sequer atentemo-nos, mas, este homem foi capaz de colocar nestes filmes, de forma nunca antes vista (por mim) tais emoções e climas (aqui colocados no meu entender do que é um clima).

    O fato de uma musicalidade deliciosa estar associada a um trabalho audiovisual tocante já seria o suficiente para que, ao serem transportadas estas músicas para o real, no tocar de um violino, e vários outros instrumentos, e ao trazerem, no reger do maestro, do imaginário para o presente um pouco do mundo aqui descrito; aquela árvore se transfigurasse numa coisa especial. Porque basta uma simples luz amarela apontada para ela, para que uma árvore nessas condições sofra a transmutação mágica do encontro do real com o fantástico. Da suspensão do tempo. 

    Mais que isso para mim. Esses filmes me foram apresentados numa época especialmente delicada. Um deles me fazia dormir todas as noites quando nada mais conseguia. Outro, me inspirava a tentar tirar esses sentimentos da tela para fora. As narrativas que eles criaram dentro de mim se misturaram de tal forma com o que é especial que eu não pude conter um leve arrepio nos lados da nuca e algumas lágrimas que escorreram enquanto eu ouvia, naquela praça, no meio de uma cidade que tanto me fez mal, um pouco do que também me cura. 

    Naquele palco eu vi meu passado, vi o que se esconde em mim fora do tempo e me faz bem, vi o que busco e o que temo. Vi uma tentativa tímida e corajosa de unir tecnologia e música. Vi que não é preciso muito para fazer o incrível, mas que é preciso estar atento para se jogar nele. Quis estar presente. Tirei os óculos para enxergar o real. Fechei os olhos para ouvir o real e imperfeito mas que me servia tão bem. Por tão pouco quase deixei tudo aquilo escapar. Pensei: O quanto a gente subestima a cultura... 

    Quando, ainda este ano, vi uma frase do célebre Sociedade dos Poetas Mortos, não a achei tão real como agora depois da experiência de ontem: “Medicina, direito, administração, engenharia são atividades nobres. Mas poesia, a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais vale a pena viver”

    Vi mais naquele palco. Os ciclos, ou melhor, a linhas que conectam fatos e lugares. Vi o futuro de um dos meus amigos e também uma reflexão de como o Maurício de Souza vive numa realidade tão distante da minha, que só ontem entendi porque ele desenha roupas masculinas de um jeito tão específico. 

    Houve um momento em que veio para a frente do palco uma menina. Todo o tempo a mãe dela estava, com uma elegância cinematográfica, guiando e apresentando a sequência de músicas da camerata. Ela (a mãe) usava uma blusa preta de manguinha, elegante e delicada, com um tecido suave e brilhoso. Uma calça preta opaca, com a mesma elegância da blusa (não poderia aqui descrever detalhes de corte e costura, por isso uso esses adjetivos repetidos e deixo para que a imaginação do leitor preencha as lacunas), e um salto preto reluzente. Tudo em seu aspecto me lembrava roupa de loja, o que me traz uma sensação ruim com suas problemáticas, mas inserida em tal contexto me trazia outro clima. Uma elegância de apartamento (outra vez, use a imaginação para entender, porque eu escreveria um texto inteiro associando o que a roupa daquela mulher me causou). E havia em cena, agora, a sua filha com um vestido rosa liso e uma meia calça discretíssima. Não lembro dos sapatos. 

    A menina, de treze anos, estava cantando uma música linda que eu não conhecia. Ela tinha os ombros um pouco curvados, a respiração um tanto descontrolada e um sorriso de aparelho muito característico da idade. O seu nervosismo era na medida conveniente. E eu encarei aquelas duas em cena, mãe e filha, como uma representação do passado e do futuro. O que uma mulher é, e o que pode se tornar. A leveza no rosto da filha era despretensiosa, e no rosto da mãe havia uma leveza amadurecida. Uma graciosidade que mostrava confiança e experiência. "Acho que a mãe dela escolheu esse vestido", e pensei sobre como ela estava entrando num mundo que não era dela, e onde talvez escolhesse ficar. O mundo é violento. Mas a gente faz o possível para encantar e se deixar saudável. Pensei na mulher mais velha "Como ela chegou ali? O que ela passou pra ser como é?" ela não parecia sofrida. 

    E ao final dos aplausos, como um aceno de cabeça do universo às minhas observações silenciosas, a menina fez menção de descer pela frente do palco, ao que sua mãe disse, com um tom muito fofo mas ainda elegante: "Não, não, não, por trás" e terminou com um "Tudo bem", bem conformado quando a menina desceu pela frente do palco assim mesmo. 

    Saí meio chateada por ter que voltar para a minha vida normal depois de um momento tão bom. Embora a vida seja cheia de momentos ímpares que aparecem de repente. Pensei outra vez em como subestimo o potencial de tais oportunidades, em como as deixo passar. Esse pensamento foi reforçado quando, passando por uma loja de quadrinhos mais tarde na mesma noite, me deparei com várias referências que eu gosto, ou gostaria de conhecer, e lembrei de como me empolgo com esse mundo do qual me afastei. A cultura pop (e a popular), a arte, os animes, os quadrinhos, revistinhas e artistas da internet com suas tirinhas, artistas da cidade com seus climas de bairro do limoeiro ou de mesa de bar, violência e putaria numa coletânea que eu poderia gostar... Se tem um rumo pra seguir é esse. O rumo que eu sei que funciona, de se deixar ser tocada, de nichar, de cavar mais fundo no que eu arranhei e gostei. Permitir que a identidade do presente seja a nostalgia boa do futuro. 

    E tem as companhias. A amizade deve ser justamente apreciar os acréscimos que cada personalidade faz num momento ímpar. Ver meus amigos chorando ao ouvir o tema de Túmulo dos Vagalumes e poder marcar de assistir muito em breve. Desejar a presença de alguém que eu queria que pudesse se emocionar junto com a gente. Voltar pra casa discutindo sobre acesso a cultura e sobre razões pra existir. Rir e se sentir segura. Tudo isso, só uma parte interessante do todo que foi essa noite de ontem. A vida é muito cheia, e no vazio (ou na oportunidade, no espaço) as coisas que enchem acham lugar pra escapar e se mostrar. Cabe a nós tentar ver.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

A academia me fez concordar com o Guimarães Rosa.

 "Vivemos esperando o dia em que seremos melhores" dizia Jota Quest. E com minha recente entrada na academia e algumas poucas experiências apresentando cenas pra um grupo no teatro, descobri que pra essas coisas pelo menos -- não cabe a mim dizer se pra todas -- a gente nunca se sente pronto. Não tem texto bem decorado e figurino que te faça saber, porque não tem como saber até acabar, que vai dar tudo certo. E a gente fica nessa ansiedade achando não que algo vai dar errado, nem sempre, às vezes só nervoso de aparecer pra tanta gente e apresentar algo que sempre pode ser melhor. E a gente não se sente pronto. Porque dava pra ter passado mais uns dias passando texto, dava pra ter ajustado a iluminação, talvez simplificar mais os diálogos ou ter pensado num objeto de cena além de uma placa com o nome do cenário. 

Mas aí quando você entra em cena, e vai acontecer, a ação é realizada e acaba. Passa tudo rápido e a gente descobre que tava pronto sim. Talvez não tanto quanto queríamos, mas o suficiente. Então porque que antes de pisar no palco não parecia?

Na outra situação, em que me encontro agora, a da academia, ocorre que eu me arrumo e fico esperando aquele momento em que vou me sentir pronta. Penso no esforço que vou ter que fazer, no braço morrendo, na perna ardendo, e sei que agora não tô no clima pra isso, bem deitada na cama. Mas daí com uma transformação digna de Steveson de repente estou me alongando e de repente estou na cadeira puxando peso. Não há transição da minha vontade antes disso, eu só estou pronta quando eu estou lá. E é esse o ponto. O estar pronto às vezes é só ter saúde. E uma legging. 

Eu esperei algumas semanas pelo momento certo de trancar a faculdade.

Eu esperei por alguns meses o momento ideal pra fazer academia.

Esperei por muitos meses o momento em que começaria a ficar feliz de novo.

Todos esses momentos foram afetados pelo tempo, se tornaram mais urgentes, mais presentes, mais incômodos. O tempo ajuda e muito a curar, ajuda a resolver as coisas e às vezes a deixar elas mais compreensíveis. As coisas mudam, a gente muda, e tudo vai se encaixando. 

Mas nesses três exemplos as coisas só aconteceram quando eu escutei a urgência do tempo. Quando eu fui e fiz mesmo sem me sentir tão pronta assim. E nem me aprofundo aqui nas inúmeras coisas que eu entreguei pro tempo e ele passou correndo antes que eu me virasse pra olhar. Roubou de mim. Levou embora. 

Me disseram recentemente "eu só me arrependo do que eu não fiz". Não é que eu me identifique totalmente com essa afirmação, mas eu sei que é muito mais fácil eu me arrepender por não fazer algo do que me arrepender de ter tentado. Porque a experiência pessoal é valiosa demais. 

Eu gosto da segurança, gosto de me sentir confortável e uso aqui as palavras da minha professora que me acalmaram como uma mão certeira que para o balanço da rede: 

"Eu passei muito tempo buscando o lugar onde me sinto confortável. E agora que eu achei não vou sair dele. Eu não vou ser preguiçosa, mas não vou abandonar meu conforto". 

Mas o conforto está também em lugares inusitadíssimos. Como uma academia toda colorida tocando música duvidosa, ou uma sala preta cheia de gente mais ou menos conhecida falando coisa que dá sono. 

A vida tem muito disso, segundo Chorão "às vezes faço o que quero, e às vezes faço o que tenho que fazer", a maioria das lutas é pelo equilíbrio. Largar o conforto aqui pra descobrir o conforto mais na frente. E o mais doido são as flutuações desses parâmetros. E o quanto a gente se acostuma. E vai ficando. Cria raiz, e cria gosto pela coisa. 

Não quero viver a vida somente esperando o dia em que seremos melhores. Eu já sou o suficiente pra começar um monte de coisa que eu botei na mão do tempo. 

E quando me dou conta disso parto pra outra, a de organizar, priorizar, objetivar, decidir o que e como eu vou passar o tempo que eu tenho. E nessa negociação nem sempre parecem ter escolhas certas ou erradas. Dentre um monte de possibilidades distintas, meio rascunhadas, mas sabendo que uma delas vai acontecer e depois vai acabar, acaba que todas as escolhas são a certa. E eu posso escolher... Agora e ainda. 

Dentro de certas vontades, limites, possibilidades, enfim, dentro da zona de ação que eu tenho, com o pouco que posso tentar prever. Eu tenho que parar de esperar o momento em que vou estar vivendo. E parar de esperar uma autorização metafísica pra ser feliz ou simplesmente estar tranquila. Já sentiu que passa a vida toda esperando algo, ou muitos algos, que nunca vêm? Que na verdade passa a vida esperando... Ela mesma? 

E termino esse texto que se disfarça de leve mas esconde uns tantos pesos, com um poema bonito do Guimarães Rosa porque eu li uma frase e achei bem bom pra terminar, e aí li o texto inteiro e fiquei achando melhor ainda.

"O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente
aprendendo a ser capaz
de ficar alegre a mais,
no meio da alegria,
e inda mais alegre
ainda no meio da tristeza!
A vida inventa!
A gente principia as coisas,
no não saber por que,
e desde aí perde o poder de continuação
porque a vida é mutirão de todos,
por todos remexida e temperada.
O mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior.
Viver é muito perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas

sábado, 22 de janeiro de 2022

Curtas 11 - Na topique.

O para brisa desliza no toque da bateria de perfeita simetria, do engenheiros. A sincronia é tão impressionante que me inspira a escrever esse texto. Quando a chuva começou a cair, a câmera deu um close na minha cara sem expressão e cortou novamente pros pingos grossos e repentinos enquanto a narração enfatizava o fato, antes mostrado, de eu ter separado mudas de roupa contadas pra esse fim de semana. E nenhuma peça era muito maior que dois palmos de comprimento. Eu sei que sou pequena, mas asseguro que isso não basta pra me cobrir. Muito menos aplaca o frio constante em minha vida. 

De uma das cadeiras do corredor olho pra frente. A música diz: seguir viagem. Com o olhar fixo consigo absorver os vultos laterais de coqueiros que se destacam da caatinga verde por causa da água que deu esses dias. As janelinhas tem cortinas, acho apropriado. Pra emoldurar esse espetáculo que é minha terrinha e esse céu bonito da manhã, que mesmo chuvoso ainda consegue ser azul.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Devaneio na janela de um dia cheio.

Conversas, encontros e movimentos. Música. Enchem meus olhos, desafetam meu coração pra novamente afetar. Me esperançam, me alegram, enchem minha mente de rimas e de sentidos. As garças no lodo e a segurança, engenheiros no fone, a bandeira do brasil tremula no céu estático e calmo. A polícia corre, luzes de sirene, faróis de carro, o concreto se levanta e corre pra trás. Toca queen: "having a good time..."


A tarde cai tranquila e eu me desloco através dela, acompanho o vôo dos passarinhos, minha mente ultrapassa a todos nós. Um papai noel moderno e solitário caminha. A estrela me persegue, quero saber o nome da sua constelação. Ou será um planeta? 


Don't stop me now, cause I'm having a good time, I don't want to stop at all. Lalalalala....


O mototaxista conversa com a boca e com as mãos, a natureza me lembra uns três climas diferentes e bons, um cachorro olha o nada, dois ciclistas carregam suas bicicletas, eles não se vêem. Um coqueiro faz vigília pra todo o resto lá atrás, uma mãe ajeita o cabelo da filha, a filha anda e ajeita o short. Uma moto parada sozinha. Casinhas e um casal. Passam pessoas, passa a luz amarela tranquila. As pessoas conversam enquanto a luz tranquila da tarde desliza.  Passo num bairro em que ja morei, acho que acabo de passar minha antiga rua, dessa vez estou na janela certa pra ver, mas sempre é rápido demais pra que eu tenha certeza.


Confirmei no mapa, era a rua certa. Vejo coqueiros, lembro daquele coqueiro, lembro da minha infância, é impossível não voltar pra ela nesses momentos, escuto uma música tão boa e tropical, a decadência da cidade me incomoda, as luzes me fascinam. O movimento do trânsito parece natal. A polícia ainda corre lá embaixo. 


Lembro de cheiros que já não posso sentir, ouço idosos falando das mães, do que elas diziam. Lembro de novo da minha infância, e choro porque é bonito, confortável e parece que sempre houve e sempre vai haver. E nunca houve de fato, porque se mistura com outras luzes que passam sempre na minha memória. 








segunda-feira, 3 de maio de 2021

Memórias do Vale do Curtume.

Como falei no post anterior a escola, a segunda escola em que estudei, por volta dos quatro e seis anos, merecia um espaço para si. Desde aquela época meus pais me deixavam escolher a escola em que queria estudar. Tinha o Vale do Curtume e a do Tio Patinhas. Não sei se era porque não me interessava por mickey ou se o brinquedo de rodar na entrada me conquistou, mas fiquei com a primeira opção. Tenho memórias valiosas daquela época. 
A escola era composta de dois prédios. Um deles era onde eu estudava, o infantil. Lá aprendi a escrever meu nome usando uma ficha de papel marrom onde ele estava escrito. Era o maior nome da sala e o único, até onde sei, que precisava de abreviação. A minha sala era uma das primeiras da escola. Ali vi no dia do meu aniversário uma colega escrevendo na minha agenda, perguntei o que era e ela desconversou, depois vi várias assinaturas me desejando feliz aniversário. Acredito que tenha essa agenda até hoje, embora não saiba dizer onde. Naquela sala, diz minha mãe, embora eu não me lembre, eu apontava os lápis de todos os colegas. Eu tinha uma professora maravilhosa que parecia mulher de filme com um cabelo pra cima. Essa professora me deixou ser a chapeuzinho vermelho no dia da apresentação, e o lobo mau era o filho dela, usei meu vestido vermelho com capuz. 
Depois da minha sala haviam outras, uma delas usávamos para ver filme. Depois tinha a cantina, lá eu ouvi a palavra "catinga" pela primeira vez e não fazia ideia do que era. Pertinho da cantina tinha a piscina e banheiros. Ali eu vi a menina menor que a gente que era brava e mordia todo mundo (eu ainda não sabia mas viria a me tornar alguém violenta alguns anos depois). Na beira da piscina vi uma lombriga, ou uma minhoca, uma vez. Mas pra mim era lombriga, toda esbranquiçada no chão molhado. 
Ainda na piscina, numa aula extraclasse em que fomos pra tomar banho (eu sempre me senti estranha com esse ar de piscina, nunca me acostumo) eu não entendia porque a professora dizia que eu era mimosa. Pra mim ser mimada era algo ruim, então lembro como fiquei confusa. 
Entre as salas e a cantina tinha a escada azul para o primeiro andar. Lembro bem dessa escada por dois motivos. É que o primeiro andar era onde ficavam as salas a partir da alfabetização, e no dia que entrei pra esse ano vi alguns meninos (acredito que o carinha que era meio bully) dizendo que eu não deveria subir as escadas e me lembro de alguém dizendo que minha série agora era lá. Uma dessas infladas de ego. 
Mas o segundo motivo é que eu queria subir essas escadas a muito tempo por causa do menino que eu gostava. Ele estava sempre uma série a frente de mim, era superdotado e a gente se dava bastante bem. Não lembro bem dele, mas lembro de quando subi ao primeiro andar, e uns meninos da alfabetização encurralaram nós dois no espacinho onde colocavam os produtos de limpeza. O líder do grupinho (o menino bully) era também sujeito de filme, enorme com os ombros largos, branco do cabelo liso e mal encarado. Disseram pra gente se beijar e eu jamais poderia esquecer do meu primeiro beijo. A forma como o sol entrava, talvez por cobogós, e iluminava aquele espacinho azul e apertado, e a forma como demos um primeiro beijo marmotoso, pode até ser esquecível com detalhes mas é inesquecível como ideia. 
Quando eu pude subir pro primeiro andar ele tinha sumido. Pulou uma série e estava estudando no prédio em frente, para o fundamental. Nunca mais o vi, exceto ano passado quando o encontrei no facebook. Não o reconheci, mal o reconheci pela foto antiga do jornal. Acho que algumas coisas ficam melhores como ideia. 
Aliás, lendo o jornal eu percebi que ele me deixou porque achava a série muito fácil, então eu comecei minha vida amorosa de um jeito bem engraçado, porque o primeiro cara que eu era afim me largou sem pensar duas vezes.
Ainda hoje estava me perguntando: Será que as pessoas pensam igual a mim? Será que elas se lembram as interações e as conversas que tivemos quando crianças? Parece que tudo se perde tão rápido... E olhe que eu esqueço coisa pra caramba. 
Pois bem, esse cara não era o único de quem eu gostava, embora fosse o único com quem eu tinha um lance. Tinha um menininho (até onde é ético eu dizer os nomes das pessoas aqui?) que eu achava bem bonito, e era do meu ano. Eu gostava tanto dele que queria o mesmo tênis da hotwheels que ele. Meus pais não compraram. Acho que quando tomei vacina e fiquei de cama vários dias por causa dos efeitos colaterais -- não podia mexer sequer um dedo porque o corpo inteiro doía --  ele foi um dos que também ficou. 
No pátio da escola, o pátio externo, era onde havia o mini parquinho. Eu tinha colegas bem patricinhas e elas se davam bem com uma menina de rabo de cavalo que andava com um menino baixinho. Todo mundo era meio legal e meio nojento, mas esses dois últimos eram mais nojentos mesmo. Lembro do menino baixinho se exibindo enquanto girava bem rápido o brinquedo onde estávamos, não sei como se chama, mas deve ser algo tipo, gira-gira ou roda-roda, hehe. Andar com essas meninas, como eu viria a descobrir, com a maioria das meninas de escola particular, é complicado. Um dia elas eram minhas amigas e no outro não, e eu não entendia. Foi com elas que aprendi a falar "hellôo" e "bunda". 
No pátio também haviam alguns eventos, no dia do circo eu fui a equilibrista e andei em cima de um cabo de vassoura na frente de toda a escola. 
Eu estava descobrindo o mundo, e na entrada conheci uma mulher chamada "Lia". Foi a primeira pessoa com nome tão pequeno que conheci. E até hoje sigo no instagram uma das responsáveis pela escola porque o sobrenome dela era "Marinho", que nem azul-marinho. 
Os nomes das minhas próprias colegas eram diferentes, tinha uma "Larydsa", e uma professora chamada "Tcheska", sem falar no "Cíntia", que me lembrava cinto.
Às vezes íamos a escola em frente, o mesmo colégio mas o bloco do ensino fundamental, e utilizávamos o ginásio. Quantas memórias... No dia do aniversário da escola eu não queria ir para o prédio (a única lembrança que tenho de ter entrado lá) e as professoras me fizeram ir prometendo que teria sacolinha, mas eu sabia que não teria e não teve, mas não deixei de cobrar por isso. No ginásio ensaiávamos as apresentações, até hoje toca na minha cabeça um grupo de vozes falando "xaxado, xaxado...", e me vem a imagem do lugar. (Acho que acabei de achar o vídeo dessa música). Lembro vagamente de marcações no chão para um dos ensaios, e também do dia em que entramos pela porta lateral que dava no quintal de uma casa, cheio de árvores como uma floresta. Foi num dos eventos nesse ginásio que vi o dito cujo menininho que eu gostava pela última vez. Vi ele de relance e depois não o achei mais. Sempre que ia lá via o prédio da escola ao lado.
Ainda no ginásio foi onde apresentei a chapeuzinho que já mencionei, mas também apresentamos a música do trenzinho da xuxa. Não lembro bem da apresentação em si mas sim de ir com minha mãe até a costureira para fazer minha roupinha de maquinista. Acho que ainda tenho a boina vermelha. 
Mas as melhores noites eram as de são joão, porque meu aniversário é em junho. Uma das vezes estavam fazendo a roda e a professora gritou "e viva santo antônio!" E todos disseram "VIVA!", ela falou "viva são joão", e todos "VIVA!" e ela arrematou com um "e viva madalena!!" A maioria ali provavelmente não entendeu o terceiro viva, mas eu sim, e adorei. Também lembro do meu pai reclamando com minha mãe sobre usarem porcos em um dos joguinhos. E lembro de mim, na arquibancada no colo da mãe, com muito sono e vendo uma estrela lá longe no céu brilhando e mudando de cor. Eu fiquei com medo por isso fechei os olhos.
Num desses eventos havia um cara bem estiloso, provavelmente músico, que usava roupa e esmalte preto. Meus amigos e eu tivemos medo dele, mas eu, corajosa desde sempre, fui até lá pra conhecê-lo e minha mãe até tirou uma foto. Acho legal porque na época as fotos eram com máquina e filme, e aquela é a única do dia que tem uma mancha amarelada, problema na foto ou na revelação, mas que preserva através dos anos a aura diferentona que o cara tinha pra gente. 
O mundo aos meus olhos de quatro anos não parecia incompreensível. Pelo contrário, embora não entendesse tudo eu sentia e via as coisas, tomava decisões e tinha pensamentos lógicos. Eu era consciente. É engraçado como vemos crianças e pensamos que elas simplesmente não se lembrarão dessa fase no futuro, ou que são meio bobinhas. Mas embora a gente expanda a compreensão com o passar do tempo, e também a expressão, criança vive, descobre e funciona. Eu lembro como tinha convicção de ser tal qual tenho hoje. Eu era eu, e vivia de acordo com o que eu queria. O que quero dizer com isso é que eu não vejo a Madalena de quatro anos como uma pessoa portadora de opiniões bobas, eu valido tudo que sentia naquela época, e mesmo com o discernimento de hoje, não acho que eu fosse de forma alguma uma pessoa ruim, logo, se pudesse voltar aquela época, provavelmente teria vivido de forma semelhante, embora provavelmente inúmeras situações que eu não lembro, não compreendia ou sequer percebia hoje eu entenderia. 
Não tenho certeza se a lembrança que tenho de um mimeógrafo é dessa escola ou da creche anterior a ela, mas acredito que seja dessa, lembro do cheiro forte da tinta e da professora girando a manivela para copiar as atividades numa tinta azul/roxa escura.
O mais engraçado é que muitas das memórias que aqui narrei vem a mim em terceira pessoa. Mas uma que vem em primeira pessoa sou eu sentada no banco da topique, na porta da escola, escutando mc léozinho. 
"Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar. E vem comigo dançar. Dançar, dançar, dançar."
Eu meio que me via na letra.
Gosto dessa música porque me lembra essa época, as anteriores e posteriores. Me lembra minha casa e minha vizinhança de forma atemporal. Inclusive estou ouvindo ela agora.
"Se ela dança eu danço, se ela dança eu danço. Falei com o dj!"
Não lembro muito da topique. Lembro que o motorista era negro e eu achava que ele era o pai do menino que eu gostava (só que o menino é meio que branco?) E também lembro do fatídico dia em que estávamos passando numa parte elevada da pista que dava vista para a locadora em frente a pracinha. Meu olho bateu na seção de filmes de terror e eu tive um dos meus primeiros medos realmente grandes. Passei a ter medo de lá. Era uma distância grande demais pra eu ter de fato identificado algo, inclusive posteriormente fui com minha mãe na tal seção e vi as capas dos filmes, nenhuma me meteu medo como o que eu vi de longe. Mistérios da vida. 
Outras músicas que tocavam, talvez no rádio da topique, talvez na rua, eram Festa no Apê, do Latino, que eu não entendia nada (e demorei a entender a letra e o significado do tal bundalelê, inclusive eu ouvia "tem siri até amanhecer"), Tremendo Vacilão, da Perlla, e Cachorrinho, da Kelly Key. 
Por hoje é isso.