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sábado, 27 de janeiro de 2024

Daqui a dez anos eu espero estar mais confortável.

Dentre as falas clássicas do meu pai está "Como será que a gente vai estar daqui a dez anos?". A resposta em geral sugere um futuro de esperança em meio ao caos político/social/econômico/tecnológico. Às vezes busca explorar marcos da vida dos familiares. 
Hoje, sentada de frente ao computador olhando fotos antigas, pensei: nessa época eu não me imaginava de frente pra um computador. Mas, daqui a dez anos, neste dia e neste horário, (quarta-feira, 25 de janeiro de 2034, próximo às uma da tarde) provavelmente eu estarei sentada de frente pra uma tela.
Pode ser a tela de um celular transparente e flexível, de um computador que rode The Sims 4 no ultra, do meu ambiente de trabalho ou estudo... Mas em algum momento deste dia em dez anos eu estarei de frente a uma tela, como estou hoje e já estive tantas vezes no passado. 
E ainda lembrarei dos programas de digitação que travavam em 2006, lembrarei dos textos que escrevi no blog em outras fases, lembrarei do wordart e dos arquivos do rpg no word digital. Lembrarei das montagens de foto no powerpoint, das contas no excel que até hoje não domino, dos trabalhos escolares no publisher. Lembrarei dos confortos e sustos nos emails, das correntes, dos spams, das retrospectivas. Lembrarei dos jogos, dos emuladores, dos pen drives, dvds e disquetes.
Daqui a dez anos, mexendo na minha tela, usarei o que aprendo hoje, e a memória do conhecimento adquirido puxará a história, puxará o momento em que aprendi, e reverberará vislumbres da minha vida. Saberei mais, e precisarei do que tenho sabido. E ainda vou ser uma menina com medo de me expor demais na internet, de perder meus arquivos, de baixar vírus. 
 
Daqui a dez anos, quanto tempo eu terei passado da minha vida como nas fotos que estava vendo? Sorrindo com a família na varanda de casa, meu irmão banhando no quintal, meus pais sentados embaixo do coqueiro. Eu cheia de mugango e toda posista. É bom relembrar pelas fotos. O bom para saber que fui feliz, o ruim pra saber que sou mais feliz hoje. Mais insegura também.
Eu tenho tirado menos fotos. Isso é bom porque eu me exponho menos, porque eu passo mais tempo aproveitando minhas companhias que posando pra fotos. 
Eu tenho tirado menos fotos. Isso é ruim porque eu tenho menos registros da minha beleza e das minhas mudanças, menos conteúdo pra postar, e menos lembranças. Minha memória não basta. E meu celular tem uma câmera ruim.
Principalmente, quantos momentos para fotos eu tenho tido? Quando viajei para São Paulo em 2021 quase todo lugar e look mereciam uma foto. Mas aqui na minha cidadezinha não merecem? Eu me visto pra quem? E pra onde eu vou? Eu não tenho aproveitado a minha cidade, e mesmo no meu quarto existe material pra lembrar, por estética e por memória. E eu não tenho produzido conteúdo disso. 
No fim, eu terei gastado tanto tempo em telas, que daqui a dez anos terei mais prints que fotos minhas, pois já não vivo tanto lá fora. É esse futuro que quero?
Não. Eu quero um futuro em que eu tenho fotos espontâneas e fotos montadas de momentos importantes pra mim. Eu quero uma rotina gostosa e mágica. E quando estiver vivendo, talvez ela seja menos mágica. A praia, a duna, o mato, a estrada de terra, os passarinhos cruzando veredas, as minhas amizades e nossos momentos. A minha intimidade, o medo, e as minhas liberdades. Não dá pra fotografar tudo, mas dá pra escrever. 
 
Eu necessito viver. Necessito fazer do meu tempo de tela algo valoroso, necessito viver mais longe delas, explorar o que resta do mundo, como diz O Rappa: o que sobrou do céu.
As pessoas se lembram do que chamam de magia da infância. Eu quero resgatar isso pra mim. Quão mágico pode ser meu dia a dia mesmo consciente? A arte parece essencial para o caminho. Um choque anafilático pra entreter, pra acordar, ambos. A música, a exposição interativa, o filme, o livro, o teatro, o poema. Me dão motivos para chegar ao fim do dia e me revigoram. Mas não quero viver só de arte porque ela é outra tela. Outro portal pra longe da vida. 
A vida só é vida de verdade quando é ordinária? Eu estou vivendo menos quando trabalho pensamentos de narrativa sobre os fatos do meu passado? Eu estou vivendo menos quando penso sobre o que fazer e filtros se sobrepõe no meu pensamento me fazendo sentir diferente por eles e não pelo que vou fazer? Eu estou vivendo menos quando me perco em pensamentos? Eu estou simplesmente ficando louca?
 
Me parece que todos os acontecimentos da vida são interpretados por narrativas modelo na minha cabeça. Existem momentos em que eu me sinto segura como nas histórias que eu lia na infância. O mundo parece um grande bairro do limoeiro que eu posso atravessar carregando meu lençol no meio da madrugada, até chegar na casa da Mônica. Ou então, como num sonho, ou nos filmes do Miyazaki, o mar parece cheio de magia, mistério e luz, como natal. Tudo se mistura. As impressões se misturam e se tornam sentimentos. 
Existe um outro conjunto de sentimentos, negativos, que se forma com frequência na minha mente. Amplamente visitado nos textos anteriores, é baseado em narrativas obscuras e experiências de solidão, e na cidade,,, profundamente representado pela cidade. 
E às vezes parece que a narrativa da cidade, a narrativa ruim, decadente e solitária, é a realidade. Acho que muita gente acredita nisso. Tal hora é isso mesmo. Mas não todas as horas... Existe realidade nisso, e embora me pareça ser a totalidade da realidade de alguns moradores da cidade, não é a minha. É só mais uma lente-narrativa-sentimento. Se sentir parte dessas narrativas afeta todo o resto.
Encaixo passado e futuro em narrativas várias, para além destas duas. O presente onde se encontra? Não pertenço a nenhuma linha narrativa sólida, nem a lugar algum, completamente. E quando vivo é tudo diferente, vivo e narro, narro e vivo. Narro diferente, esqueço a realidade. Esqueço que enquanto disparava pelas ruas de uma cidade litorânea, sozinha ou acompanhada, como protagonista de uma aventura; eu passava tanto tempo com medo, nessa mesma cidade que mesmo com toda a poesia não era capaz de me proteger da minha mente. Eu chorava de medo, chorava de coração partido. A vida nunca foi perfeita como parece hoje. Mas, quantos momentos de contemplação e lucidez que sei que existiram foram confinados no tempo passado?
Eu costumava olhar momentos assim e pensar que no futuro eu lembraria deles. Esqueci todos. Guardo-os para mim agora. Para mim de hoje. Na conta no dia do juízo deve servir pra alguma coisa. E antes disso, nos hábitos a gente manifesta o que a memória esconde.

Fim do ano passado vi algo sobre a passagem do tempo. Que ao dizer que eu ainda devo ter uns sessenta anos de vida, isso parece muito. Mas ao dizer que só me restam sessenta verões, isso bate de uma forma diferente. Pensei: e se me restam apenas sessenta viradas de ano?
Só mais sessenta festas de aniversário, se eu fizer todas. Só mais catorze copas do mundo. Quantas chuvas de meteoro? Eu nunca consegui assistir a nenhuma. Quantos eventos com meus avós? Com meus pais? E com meus irmãos? ("a gente só tem essa vida" foi o que ela me disse).
Já devo ter escrito, não sei se está publicado, sobre o tempo que ainda tenho com as pessoas. A tendência é viver menos com a família e mais sozinha ou com outros ciclos. Quantas horas eu ainda tenho de convivência com meus pais? E em quantas eu estarei no mesmo cômodo que eles, e consciente ao invés de ligada no automático ou perdida dentro da minha mente? 
Na juventude a velhice alheia nos alerta pra finitude da vida, antes da nossa. Eu não me preocupava tanto com o passar dos anos na faculdade ou em comparecer a todas as chances que tinha de ver meus amigos. Mas quanto mais eu penso, mais o tempo urge. 
Houve esse pensamento, que meu tio quem falou, a respeito dos anos que ainda temos com as pessoas. O outro, sobre quantos anos ainda temos, se olhamos em marcos. E há um terceiro, aquela famosa frase "um dia você se despediu dos seus amigos com quem brincava pela última vez, e nenhum de vocês se deu conta disso"; ou a versão moderna, o print de uma conversa de dois amigos se despedindo por um chat qualquer, e marcando de jogar no dia seguinte, tirado anos depois.
Existe uma pessoa que, especialmente, me assusta muito a ideia de ter as últimas palavras ou os últimos momentos. Ela me falou sobre a agonia de sentir que tem pouco tempo comigo. Tempo de vida. Na ocasião respondi que não podemos condicionar nossos eus futuro aos anseios presentes, especialmente quando eles podem ser resolvidos no presente. É o que diz Rita Lee: que espaço meu passado deixa pra quem eu sou hoje? Não sou escrava dele. 
 
Nada nunca parece suficiente, completo. Tudo é agridoce e tudo é confuso. As pessoas nunca parecem próximas o suficiente. De modo geral, acho que não gosto de ninguém realmente. Não sou capaz de sentir saudades, não sou muito leal nem cuidadosa. E cada dia mais me descubro pior. Menos empática, maios egoísta, mais maldosa, mais indiferente. Eu nunca sinto que meu afeto é suficiente ou verdadeiro, parece quase um papel interpretado (às vezes é necessário ser). Apesar de que eu queria ter mais a oferecer pras pessoas importantes pra mim. Eu queria sentir mais, e queria ser espontaneamente mais doce, mais carinhosa, mais emocionada, mais empática, mais devotada, mais responsável. 
Mas é isso que eu tenho e já é bom o suficiente. Não vou perder tempo podendo ter pelo menos um tanto de felicidade... E podendo fazer muita gente feliz, parafraseando a Rita outra vez. É isso que eu tenho e eu posso aproveitar antes que acabe. A sorte absurda que eu tive com as pessoas que me cercam e que são... Tão mal aproveitadas. O meu lugar, as minhas pessoas, as minhas oportunidades. Tudo que me cerca me parece excepcional. E eu sou tipo o buraco negro no centro do universo kkkkkkkkkkkkkkk.
 
Passei numa rua que eu frequentava e tem uma placa escrita 2022. Já devo ter falado dela, não sei... Em 2021 eu achava que a placa indicava uma cápsula do tempo que seria aberta (porque é uma placa estilizada). Mas não, era só o número do imóvel. Passei lá esse ano, já faziam três anos... até mais. Muita coisa mudou nesse período, e outras muito importantes ficaram quase iguais. Eu sinto que levo minha vida meio limbosa. Esses últimos anos foram intercalando limbos, dores, contemplações e momentos bons compartilhados. Mas sozinha, eu vivi muito um limbo. Um limbo que nem hoje, tentando começar algo.
Três, quatro, cinco anos passaram feito água. A pandemia ajudou a quebrar as noções, mas pensar me permite optar por desacelerar. Eu quero que esse ano dure muito. Nossa, eu quero que 2024 seja quase inacabável (que nem esse texto, que estou montando a duas horas), eu quero que seja lento, não extenuante, mas intenso e calmo. Eu quero estar acordada enquanto vivo meu ano. Não de frente pra uma tela enquanto as horas passam pela janela. Mas hoje já é quase o fim de janeiro, e ele tem passado rápido demais. Não passe por favor, se demore. 
 
Outro pensamento daqueles comuns que mencionei: que de tanto torcer pra atividade, pro dia, pra semana acabar. A gente torce pra vida acabar. E falando isso de forma pessoal, eu quero lidar melhor com os meus desconfortos, pra poder solucionar uns, e simplesmente aprender a lidar com outros. Ficar mais forte. 
É preciso reconhecer e aceitar para não ser limbosa. Reconhecer a rotina, a morada, as relações. Sinto tudo isso como passagem, sou Humpty Dumpty em cima do muro pronta para cair, mas não caio em lugar nenhum, estou passando. Não pertencer o suficiente me agonia, me insegura me incerteza me vazia me assusta me deixa mal. E tenho medo de pertencer, porque pertencer prenuncia a dor da perda. Reconhecer o que tenho e aceitar para entender. E entender para poder mudar, ou nem. Eis uma forma interessante de reconhecer: pensar, como descreverei esse momento daqui a dez anos?
Entretanto, reconhecer é entregar as pontas. Necessário, mas dói sair do que poderia ser e sentir de novo o baque de ser ordinária. Tem um engasgo em aceitar as coisas como são, porque elas estão me incomodando de alguma maneira. Nunca é suficiente.
Usando a quinta e última menção a uma ideia comum no instagram: tem aquela história do cara que se mudou pra morar com a amiga por alguns meses e reformou o quarto pra ficar a cara dele. (ler com voz cansada pra fazer um charme) É sobre isso sabe? Tudo é passagem e nem por isso deixa de ser real ou importante. O período de passagem não é vida também? E é enorme. Eu vivo na passagem, eu pinto em cima do muro, eu pertenço aos dois lados.

Estava dizendo ao meu irmão mais cedo que o desconforto com certa situação é pessoal. Meu pai, eu e ele, encontramos na mesma situação dificuldades diferentes. Penso que somos criativos pra isso. Os desconfortos da vida começam na dúvida e se estendem até cada pequeno poro e ponto no corpo. Quando quero ser uma força da natureza e conseguir algo, na décima segunda badalada, em ar de ir, eu consigo. E o que vier é bom, até falhar. Porque eu tentei e, afinal, nem tinha tempo. 
Mas pensar em fazer com calma, decidir, tentar e correr o risco de falhar sem desculpa alguma, é desconfortável pra mim. E como tem sido nos últimos anos, isso eu descobri sobre mim essa semana. Fazer terapia é tipo uma raspadinha premiada da própria vida.
Organizando um álbum outro dia, decidi que quero voltar a ter álbuns de fotos, me ocorre que eles podem ser virtuais também, mas quero fotos físicas, guardadas, como eram antes. Pra mim, pra mostrar, pra decidir e eternizar momentos que julgo importantes. Pra ter foto e memória é preciso ter vida. E agora eu preciso ir pra ter uma janelinha por onde olhar daqui a dez anos. Talvez eu coloque alguns prints também. 
 
 _______ 
nota: nesse tipo de texto, eu costumo juntar diversas ideias que tem me ocorrido. a medida em que elas são resgatadas eu as anoto embaixo do texto para organizar e puxar seus fios no parágrafo certo. eis o print de uma dessas anotações, porque achei engraçado o modo como organizo minhas pautas:
 
 
 de 25 a 27 de janeiro de 2024.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Curtas 18 - Hoje eu vou dormir com seu suor.

Você não toma banho antes de dormir quando está cansado e deixou certamente um pouquinho do suor e da sujeira do seu short espalhados no meu lençol, embora eu tenha evitado te cobrir.

Então hoje eu vou dormir com seu suor no meu lençol e também na minha camisola rosa. 

Se você não viesse me ver, seria só a camisola que combina com a touca e mais uma noite.

Mas você veio e isso não dói nem marca.

Mas veio e por essa noite, a camisola é a que esteve espremida entre os nossos abraços.

Quando fechei os olhos mais cedo, de cansaço, sem saber como lidar com desligar a sua presença da minha vida, eu lembrei de ontem e de como eu tentei decorar a sensação da sua presença física pra lembrar hoje.

Eu me imaginei deitada na minha rede, lembrando da gente junto de um jeito quase abstrato. Como acontecia em diversas noites.

E estando lá eu quis gravar a objetividade do seu braço adormecido sobre o meu estômago.

E a objetividade do meu pé procurando o seu com um lençol no meio. 

E a objetividade de sentir um calor e uma presença quaisquer por diversos e minúsculos fenômenos que a física deve ter documentado em leis anos atrás. 

E durante todo o tempo em que estivemos juntos, notei a subjetividade da sua presença e a força que ela exerce sobre a minha realidade. Acho que sobre essa parte ciência nenhuma tem domínio. 

Como sua presença muda a cor do meu chão. Como a vida desliza e não trunca, diferente de quando me vejo só, aqui, sem você.

As pessoas, quando estou contigo, são figurantes. E quando estou só são possibilidades e apreensões.

Quando estou contigo as coisas fluem de um momento a outro, momentos contigo, pequenas felicidades, pequenos prazeres e aventuras.

Quando estou só meu dia parece uma sucessão de atividades que precisarei repetir em algum tempo. Dia após dia. 

Contigo passar o dia deitada faz sentido. Dormir ao seu lado e acordar te chamando faz sentido. Ver qualquer coisa ao seu lado e jogar uma conversa, e trocar um carinho, parecem simplesmente o motivo para o qual eu existo.

E sozinha eu não encontro motivos.

Quando estou só, nada do que eu tento parece fazer sentido e me levar a lugar algum. Ou assim me parece quando estou contigo. A minha felicidade tem lugar pra se manifestar, que é na sua presença.

Então tentei dormir essa tarde pra fechar o ciclo de te ver. Pra quando acordar ser outra que não te viu. E quando fechei o olho eu lembrei de como tento ficar confortável ao seu lado. Eu lembrei do seu braço no meu estômago, e caindo de sono eu vi seu rosto próximo do meu. 

E depois dormi.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

A literatura gótica ressoa em mim porque escreve além das linhas.

Quando me aflijo com a vida e seu inescrutável feixe de caminhos, me vem a mente um dos elementos mais bonitos de A Cor Púrpura, que é a sensação de sermos todos uma comunidade. Um pequeno vilarejo com pessoas e suas vidas ordinárias que, mesmo depois de tudo, podem se perdoar e viver em harmonia. 

"But I won't cry for yesterday, there's an ordinary world somehow I have to find"

Tenho visto meio cinza, presa dentro da minha própria cabeça. Queria saber como romper a película pra entrar em contato com o mundo. Sinto que estou inquieta, embora menos que antes, observando situações que posso relevar, remoendo questões cujas conclusões possíveis já foram alcançadas, esperando a vida acontecer e ser atingida pelo baque de um despertador ou o comentário de alguém para que algo em mim se manifeste. 

Em resumo, estou a mercê do afeto do mundo, e a balança pende pra esse lado de um modo perigoso, pois não tenho procurado afetá-lo. Estou a mercê de uma consciência rasa e incômoda, talvez covarde, talvez desocupada. Se fosse mística diria que alguma energia minha desalinhou. 

O único caminho possível para afundar em mim, ou para tocar o mundo, parece ser a ação que atravessa o desconforto como uma agulha que fura uma película gelatinosa.

O jogo da harmonia é delicado e muito difícil, seu véu nunca parece cobrir todos os aspectos da minha vida, e talvez seja bom para que eu tenha espaço para respirar fora disso. Mas quero puxar mais, desenrolar mais, estar embaixo desse calor com um coração cujas batidas não me incomodam e com uma sensação profunda de preenchimento. 

E quando algo de fora me impacta com força o suficiente para romper a película, mesmo que com um dano tão mínimo que mal se nota, sou puxada pela cabeça para respirar o primeiro fôlego profundo, instintivo e desesperado desse mundo que me cerca. 

A atenção que eu dou não tem sido suficiente, em alguns momentos, para colorir o que vejo. Percebo a atenção indo e voltando para o que existe aqui e para o que existe na tela ou na página, ou na minha cabeça. Percebo que a atenção desloca tudo com ela, tudo que eu sou. Mas, junto com minha coluna torcida, a consciência rasa ainda me cobra, me ameaça. O que ela quer de mim?

Procuro aceitá-la. Ofereço frases de acalento, ofereço a verdade mais pura e genérica que contemple tudo que ela possa temer. Ofereço o que posso, mas o que preciso, sei, é deixar que ela grite seus temores cíclicos e vãos enquanto cuido da minha vida, e permito que essa parte de mim deixe de ser hábito, e não ouça suas ameaças mas sim sua quietude. Quero que se aquiete essa consciência. Faço com que enfraqueça mais a cada dia e me deixe ser o que quero, e não me permitirei, citando Tudo em Todo Lugar, que nada me distraia dos momentos que desejei e não quero que acabem.

"Eu acho que Deus deve ficar fora de si se você passa pela cor púrpura em um campo qualquer e nem repara."

A culpa, o desconforto, o medo... Não posso deixar que nada disso rasteje pelo chão e agarre meu tornozelo. Não posso deixar que me impeçam de viver o que preciso, e o que posso, antes que tudo se acabe e a memória que se dissipe seja... Nada. 

Foi Belchior quem disse: nada é secreto, nada é misterioso. 

O jogo de luz e sombra, o jogo da harmonia, do equilíbrio, de deixar ser secreto e depois trazer à luz. De se encantar com a vida como um vampiro recém-criado, e de se acalmar evidenciando a naturalidade de tudo nas mãos de alguém ou nas próprias quando o terror da própria existência se opõe sobre nós e preenche todos os espaços. E essas delícias e horrores quem descreveu foi Lestat. 

A comunidade, o Jardim Selvagem, tudo que é possível de ser feito sem que se precise pensar tanto ou carregar tanto melindre. Questionar menos ao cosmos e mais a si mesmo, confiar que o que quer que aconteça, será suficiente, será mais que o bastante, que o que está por vir é sempre melhor do que o que já foi. Que a pessoa que me torno será sempre a cura da pessoa que estava sendo a pouco. 

E se tudo mudar ao meu redor... Eu mudo quem sou? Eu deixo de ser eu? Quero deixar de ser? Quais aspectos de mim eu quero que ainda sejam?

"And as I try to make my way to the ordinary world I will learn to survive"


segunda-feira, 27 de março de 2023

Entre peixe e folha na correnteza do tempo.

Estou entre um e outros modos de viver. Em cada aspecto da minha vida, se consolida lentamente um estado diferente, causado por resoluções, ações, rotina, influência do meio, memórias, e a forma como é sentir eu. Algo como o que eu chamei em outros textos de clima.

Depois de um período de aproximadamente dois anos, finalmente consigo existir em dias tranquilos a fio, repetitivos, gostosos e surpreendentes, simples e cotidianos, sem que isso seja um problema. 

Sirlanney postou um quadrinho certa vez sobre o mito do artista sofredor. Parece muito mais fácil produzir quando se sofre. Em fogo médio. Porque também o sofrimento demais extenua, faz a gente não querer saber do que se passa em canto nenhum, imagina querer condensar isso em texto. 

Só que o sofrimento de menos deixa a gente assim como que de bem com a vida. E nisso ninguém quer cutucar mazelas e coisinhas. E fica tão cheia de coisa pra fazer vendo a vida se desdobrar como um túnel de tecido transparente com luz azul e lilás, que a gente vai deixando de lado escrever. Parece que não tem sentimento se rasgando pra sair em texto. E se tiver... deixa eles quietinhos ou, escreve na agenda da terapia, escreve no diário. Nada muito geral e forte que possa virar um texto.

E aí como fica a arte do artista que se apoia na muleta do sentimento? Syr já dizia, e deixo o link no fim do texto, que o bom artista pesquisa e produz. Não precisa usar sangue como tinta pra ter alguma relevância. Me pergunto inclusive se eu comecei a achar que acreditava nesse mito depois de ver a tirinha (totalmente influenciável ela), já que na própria descrição do blog eu escrevo que "o combustível da minha potência criativa [...] é a leitura". Parece que a gente sabe as respostas e desaprende com o diabo do tempo que passa. 

E a observância de agora sempre foi meu modo de operar aqui no blog, mas também é ainda resquício da escrita por sentimento. Quero voltar a escrever aqui. Revisitar temas abandonados e discutir sobre eles. E quando se esgotarem os temas, ou antes disso, falar de outras coisas que vejo e que gosto de comentar. 

Para o blog e para além dele quero usar meus sonhos como base pra fantasia. Mas sempre achei isso um pouco... Roubo de ideias. Quem planta as ideias dos sonhos na nossa cabeça? E se for apenas aleatoriedade inconsciente, usar sonho como arte não seria o mesmo que usar uma IA?

Tenho desejo de produzir literatura também, apesar das minhas tentativas anteriores datadas e frustradas. Recentemente li um livro desses de distopia adolescente, que é um romance e drama pessoal com pano de fundo político, e fiquei pensando que eu sou perfeitamente capaz de escrever melhor do que a autora, mas isso é outro dos clichês de artista. Quem sabe eu até sou mesmo capaz, mas quem foi lá e fez não fui eu. Mas não abandonei a ideia. Quando falo com alguém em texto, às vezes saem umas combinações tão bonitas que guardo pro dia em que fizer meu romance. 

E quero produzir pra além de texto, meus quadros, minhas gravações, meus slides para o sarau com assuntos para diversas faixas de tema. Quero tocar e cantar e musicar uma letra ou outra que escrevi, ou ainda não. E nisso eu perco meu tempo. Sem fazer nada disso. 

Corro o risco de ser repetitiva aqui, mas a gente subestima demais o poder das coisas. A gente se contrói. E o que a gente gasta ou perde ou aproveita de tempo no cotidiano é parte importante do que nos forma sem que se perceba. Tudo que se faz ou que não se faz gera algo dentro de nós. Nos muda. Porque o tempo não para. O respiro que dou entre linhas, a música que eu penso. Essas coisas que não se controlam (e que bom?!!) acontecem a gente.

E quando eu acordo, levanto, e vejo uma planta. A planta muda no espaço de alguns segundos. Olhei e senti que era uma planta no estado de acordei, falei alguma coisa e levantei; resultado de quase dois anos acordando e percebendo qualquer coisa errada. E logo em seguida senti que era uma planta no estado de minha semana passada foi boa, e agora tenho isso, isso e aquilo pela frente pra fazer no dia de hoje; resultado do costume recente de olhar, pensar e fazer. É a mesma planta e quem muda sou eu. E o mundo inteiro muda. 

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Links para os quadrinhos de que falei, da Sirlanney:

"Eu e as Demônias" Parte 2 

"Eu e as Demônias" Parte 3 


quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Curtas 16 - O sol não tem culpa.

Queria acender uma fogueira no seu peito pra que as suas palavras não arrepiassem minhas costas, mas mal consigo manter acesa a minha própria chama. Não sei se mantenho do jeito certo, como fazer ser natural, com ser de verdade? E se meu fogo apagar e eu afundar outra vez na água gelada? Tenho tanto medo disso. 

Naquela noite em que eu estava no chão sentindo o cheiro daquela vida toda que eu tinha, e que ainda passa às vezes, eu pedi sua ajuda e você deixou minhas mãos dormentes. De medo. Porque seu papo de solidão é tão aterrador pra mim. 

Eu tenho problemas com o sol porque ele me lembra a sua casa e a sua cidade. Mas não tem tanto a ver com você. Porque eu fico gripada encostada na parede quente do seu quarto. Porque a sua vida, e a vida aqui, é cheia desse sol obrigatório, sol violento, dolorido, perigoso e de despedida. O sol da tarde me lembra a solidão. 

Mas o sol não tem culpa. 

Quando você me elogia eu me sinto fraca, tutelada. Parece que você se esforça pra ver o que tem de bom em mim porque se acha muito melhor. Parece que você acha que eu preciso ser consolada pela minha vida fraca, ou que eu preciso de reconhecimento. Porque o seu reconhecimento nunca parece de verdade? Porque eu não consigo acreditar na sua admiração? 

Mesmo tendo pouco de você ainda é melhor que não ter nada, e o meu normal nunca foi suficiente, mas você não percebia então eu achava que era. E o seu esforço sempre parecia em vão, eu sempre pedi mais, e a gente se machucava junto. Eu realmente acreditei que você sentia algo parecido comigo mas era muito pior.

Quando eu falo com você eu nunca sei o que esperar e isso vai me machucando devagarinho mas não parece arranhar a superfície de mim porque eu me acostumei. Diferente de tudo que a gente tinha e se arranhava tão fácil. 

Você se esforça muito pra fazer as pazes comigo e com o seu passado. E eu tenho tentado fazer as pazes com o sol e com o meu presente. Ele parecia mais ameno na minha memória. Ele parecia melhor quando eu sentia o cheiro da minha casa e não da sua. Das minhas. Das suas. As suas casas são tão sozinhas pra mim... 

O seu melhor talvez não encaixe em mim. Essa frase na verdade é sua. 

Dependendo de como eu viro o olho eu sinto uma e outra coisa, mas já decidi que vou ficar bem comigo pelo menos enquanto eu posso, pelo menos enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer e sei onde achar um sentimento ou outro que eu preciso. E vou tentar contigo tendo um monte das coisas que a gente queria ter, e deixando de ter outro monte, algumas que a gente nem sabia e nem sabe ainda. 

Tem uma música que você gosta e eu não, que diz que "você é como o sol, ilumina meu dia mas queima a minha pele". E se eu fui isso pra você, porque você continuou? E eu disse que meu texto ia terminar feliz mas não consigo deixar de ficar triste pensando outra vez na solidão que acho que tu sente, e que parece contagiosa, só de falar dela eu sinto um pouquinho. Queria ser mais, queria poder consertar nós dois e não posso nem comigo. 

Mas vai lá, vou terminar bem. Vou terminar dizendo que pelo menos agora as coisas não são como minha cabeça viciada quer projetar, como um caos. Elas simplesmente são como são, e eu não compreendo tão bem. Mas a gente ainda consegue ter o melhor um do outro. Ou... quase isso. Terminar dizendo que me consola a sua presença. 

07/12/22 às 20h00

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sensações I

Existe uma série de sensações que podem ser experimentadas durante a vida. Uma das sensações que eu gosto é a de dormir durante a tarde e acordar pela noite, ou no fim da tarde, com a casa toda arrumadinha, e as pessoas da casa vivendo a vida delas. É como desligar um pouco do mundo e voltar pra ele, sentindo, nessa volta, muito mais aconchego e acolhimento. Ao mesmo tempo sentir uma leve corrente de ar que indica a noite se aproximando após os últimos raios de sol partirem, e junto com essa corrente, um afastamento. Tudo parece novo e estranho, e gostoso. O sono pode deixar marquinhas na gente como um amassado do lençol e enquanto você vai caminhando pela casa vai se adaptando a essa nova realidade que você lembra que gosta de estar.

As sensações de ficar acordado durante a noite, por outro lado, não são tão prazerosas quanto poderiam. Bem, depende do lugar, depende da noite. Outra noite tentei mas não conseguia dormir. Não é a primeira vez que me acontece: dormir mas acordar no sonho no mesmo lugar onde você estava, sem nem reparar a passagem. E o sonho se desenrola preso, conturbado. O corpo não funciona como deveria, está travado, pesado. O medo de que algo vai acontecer (às vezes acontece) é constante. Essa é uma das sensações que podem vir da noite mal-dormida. A sensação seguida do acontecimento que é o sonho "lúcido" que na real você não identifica como sonho.  Pode demorar várias camadas de descobertas até conseguir acordar. Paralisia, realidade alterada. Quanto mais próximo da realidade o sonho, mais assustadoras as questões que ele desperta.
Alguns meses atrás contei aos meus amigos que vez ou outra me ocorre o pensamento de que na verdade eu já morri, e estou no inferno. Que num estalar de dedos o mundo a minha volta vai se derreter em assombrações e pesadelos sem fim. Não que eu leve essa ideia a sério, mas eu me pergunto que tipo de peças meu sonho poderia pregar na minha mente usando uma narrativa assim.
Dentro do sonho, apesar dos indícios de irrealidade, você está a mercê das forças que te cercam. Forças que me parecem instáveis demais pra controlar.

Poderia discorrer bem mais sobre meus sonhos, diferente do que possa parecer eles são em sua maioria bons e interessantes. Alguns eu nunca esqueci, guardo a mais de dez anos. Mas eles são assuntos pra outro post. Prosseguimos.

Algumas noites trazem sensações muito deliciosas, de aconchego, de descoberta e aventura. Virei algumas noites lendo livros, nem todas prazerosas, algumas por necessidade, mas lembro-me da deliciosa experiência que é escolher algo para ler antes de dormir e terminar a última página, aquela em que diz o material do papel e o local de impressão, com o céu que clareia e ameaça despontar com tentáculos dourados de luz solar. A sensação é de leve aflição, mas também felicidade. O sono perdeu lugar mas a noite não foi perdida.

Outras noites são tristes. Eu dificilmente vou dormir triste, e se vou, geralmente são esses assuntos do coração e da mente que exigem a nossa atenção e bebem das gotinhas salgadas que derramamos enquanto o sono observa de longe. Nessas noites ele demora a vir, agonia. Fico encostada na parede remoendo e criticando, crio diálogos inteiros, mil e uma situações. Mas nada disso resolve. As noites tristes, pelo menos até hoje, foram resultado da falta de coragem (de valentia mas também de ânimo) para resolver as coisas que não podem mais ser adiadas.

Algumas noites são quentinhas e fofas embaixo de um lençol, podem ser longas com um parceiro pra uma boa conversa, um filme, um grupo de amigas. Mas podem ser curtas e leves, onde você fecha os olhos e desliza para os recantos do pensamento que se torce e se embola. Se você desperta antes de dormir percebe os nozinhos que a mente estava amarrando pra te pôr enfeitiçado. O sono é uma coisa incrível, pode ser leve e profundo e curto e bom, ou tudo ao contrário. Pode te descansar, deve, em regra; e pode te fazer acordar abatido, destruído, socado na cara. Te põe quase imóvel durante umas oito horas ou mais e é misterioso. Todos os seres humanos dormem todos os dias e até hoje quem poderá dizer que compreende bem seu sono?

Mas esse deveria ser um post sobre sensações, e não sobre a noite e o sono. É que durante a noite, com o relaxamento do corpo e da vida cotidiana, com o mundo mergulhado nas trevas apesar das luzes dos postes, e apesar da luz das estrelas, parece que a gente sente mais tudo que tem pra sentir.