"Isn't it funny how day by day nothing changes, but when you look back everything is different?" C.S.
sábado, 27 de janeiro de 2024
Daqui a dez anos eu espero estar mais confortável.
terça-feira, 31 de outubro de 2023
Curtas 18 - Hoje eu vou dormir com seu suor.
Você não toma banho antes de dormir quando está cansado e deixou certamente um pouquinho do suor e da sujeira do seu short espalhados no meu lençol, embora eu tenha evitado te cobrir.
Então hoje eu vou dormir com seu suor no meu lençol e também na minha camisola rosa.
Se você não viesse me ver, seria só a camisola que combina com a touca e mais uma noite.
Mas você veio e isso não dói nem marca.
Mas veio e por essa noite, a camisola é a que esteve espremida entre os nossos abraços.
Quando fechei os olhos mais cedo, de cansaço, sem saber como lidar com desligar a sua presença da minha vida, eu lembrei de ontem e de como eu tentei decorar a sensação da sua presença física pra lembrar hoje.
Eu me imaginei deitada na minha rede, lembrando da gente junto de um jeito quase abstrato. Como acontecia em diversas noites.
E estando lá eu quis gravar a objetividade do seu braço adormecido sobre o meu estômago.
E a objetividade do meu pé procurando o seu com um lençol no meio.
E a objetividade de sentir um calor e uma presença quaisquer por diversos e minúsculos fenômenos que a física deve ter documentado em leis anos atrás.
E durante todo o tempo em que estivemos juntos, notei a subjetividade da sua presença e a força que ela exerce sobre a minha realidade. Acho que sobre essa parte ciência nenhuma tem domínio.
Como sua presença muda a cor do meu chão. Como a vida desliza e não trunca, diferente de quando me vejo só, aqui, sem você.
As pessoas, quando estou contigo, são figurantes. E quando estou só são possibilidades e apreensões.
Quando estou contigo as coisas fluem de um momento a outro, momentos contigo, pequenas felicidades, pequenos prazeres e aventuras.
Quando estou só meu dia parece uma sucessão de atividades que precisarei repetir em algum tempo. Dia após dia.
Contigo passar o dia deitada faz sentido. Dormir ao seu lado e acordar te chamando faz sentido. Ver qualquer coisa ao seu lado e jogar uma conversa, e trocar um carinho, parecem simplesmente o motivo para o qual eu existo.
E sozinha eu não encontro motivos.
Quando estou só, nada do que eu tento parece fazer sentido e me levar a lugar algum. Ou assim me parece quando estou contigo. A minha felicidade tem lugar pra se manifestar, que é na sua presença.
Então tentei dormir essa tarde pra fechar o ciclo de te ver. Pra quando acordar ser outra que não te viu. E quando fechei o olho eu lembrei de como tento ficar confortável ao seu lado. Eu lembrei do seu braço no meu estômago, e caindo de sono eu vi seu rosto próximo do meu.
E depois dormi.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
Curtas 16 - O sol não tem culpa.
Queria acender uma fogueira no seu peito pra que as suas palavras não arrepiassem minhas costas, mas mal consigo manter acesa a minha própria chama. Não sei se mantenho do jeito certo, como fazer ser natural, com ser de verdade? E se meu fogo apagar e eu afundar outra vez na água gelada? Tenho tanto medo disso.
Naquela noite em que eu estava no chão sentindo o cheiro daquela vida toda que eu tinha, e que ainda passa às vezes, eu pedi sua ajuda e você deixou minhas mãos dormentes. De medo. Porque seu papo de solidão é tão aterrador pra mim.
Eu tenho problemas com o sol porque ele me lembra a sua casa e a sua cidade. Mas não tem tanto a ver com você. Porque eu fico gripada encostada na parede quente do seu quarto. Porque a sua vida, e a vida aqui, é cheia desse sol obrigatório, sol violento, dolorido, perigoso e de despedida. O sol da tarde me lembra a solidão.
Mas o sol não tem culpa.
Quando você me elogia eu me sinto fraca, tutelada. Parece que você se esforça pra ver o que tem de bom em mim porque se acha muito melhor. Parece que você acha que eu preciso ser consolada pela minha vida fraca, ou que eu preciso de reconhecimento. Porque o seu reconhecimento nunca parece de verdade? Porque eu não consigo acreditar na sua admiração?
Mesmo tendo pouco de você ainda é melhor que não ter nada, e o meu normal nunca foi suficiente, mas você não percebia então eu achava que era. E o seu esforço sempre parecia em vão, eu sempre pedi mais, e a gente se machucava junto. Eu realmente acreditei que você sentia algo parecido comigo mas era muito pior.
Quando eu falo com você eu nunca sei o que esperar e isso vai me machucando devagarinho mas não parece arranhar a superfície de mim porque eu me acostumei. Diferente de tudo que a gente tinha e se arranhava tão fácil.
Você se esforça muito pra fazer as pazes comigo e com o seu passado. E eu tenho tentado fazer as pazes com o sol e com o meu presente. Ele parecia mais ameno na minha memória. Ele parecia melhor quando eu sentia o cheiro da minha casa e não da sua. Das minhas. Das suas. As suas casas são tão sozinhas pra mim...
O seu melhor talvez não encaixe em mim. Essa frase na verdade é sua.
Dependendo de como eu viro o olho eu sinto uma e outra coisa, mas já decidi que vou ficar bem comigo pelo menos enquanto eu posso, pelo menos enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer e sei onde achar um sentimento ou outro que eu preciso. E vou tentar contigo tendo um monte das coisas que a gente queria ter, e deixando de ter outro monte, algumas que a gente nem sabia e nem sabe ainda.
Tem uma música que você gosta e eu não, que diz que "você é como o sol, ilumina meu dia mas queima a minha pele". E se eu fui isso pra você, porque você continuou? E eu disse que meu texto ia terminar feliz mas não consigo deixar de ficar triste pensando outra vez na solidão que acho que tu sente, e que parece contagiosa, só de falar dela eu sinto um pouquinho. Queria ser mais, queria poder consertar nós dois e não posso nem comigo.
Mas vai lá, vou terminar bem. Vou terminar dizendo que pelo menos agora as coisas não são como minha cabeça viciada quer projetar, como um caos. Elas simplesmente são como são, e eu não compreendo tão bem. Mas a gente ainda consegue ter o melhor um do outro. Ou... quase isso. Terminar dizendo que me consola a sua presença.
07/12/22 às 20h00
domingo, 27 de novembro de 2022
Uma noite assistindo a camerata de cordas da universidade da cidade.
Ontem vi uma árvore com folhas nas cores amarela e verde, só dois tons, e os espaços escuros. Pensei "Essa árvore não pode ser comum", apesar de que fosse, não era. Porque na frente dela, em plano mais baixo (em relação a árvore) e em plano mais alto (em relação ao público), estava montado um palco com uma camerata.
Eles executavam músicas que tocariam qualquer um por ser o que são, por suas idas e vindas, pela emoção que produziam. Mas tocavam mais ainda aquele público, presente por gostar dos filmes para os quais as músicas foram compostas, filmes que em sua narrativa e visual já conseguriam encantar.
Entretanto, estes são filmes produzidos por um homem que soube fazer o papel de um grande artista: Exprimir sentimentos que existem em todos nós, mesmo que nem sempre lembremo-nos deles ou sequer atentemo-nos, mas, este homem foi capaz de colocar nestes filmes, de forma nunca antes vista (por mim) tais emoções e climas (aqui colocados no meu entender do que é um clima).
O fato de uma musicalidade deliciosa estar associada a um trabalho audiovisual tocante já seria o suficiente para que, ao serem transportadas estas músicas para o real, no tocar de um violino, e vários outros instrumentos, e ao trazerem, no reger do maestro, do imaginário para o presente um pouco do mundo aqui descrito; aquela árvore se transfigurasse numa coisa especial. Porque basta uma simples luz amarela apontada para ela, para que uma árvore nessas condições sofra a transmutação mágica do encontro do real com o fantástico. Da suspensão do tempo.
Mais que isso para mim. Esses filmes me foram apresentados numa época especialmente delicada. Um deles me fazia dormir todas as noites quando nada mais conseguia. Outro, me inspirava a tentar tirar esses sentimentos da tela para fora. As narrativas que eles criaram dentro de mim se misturaram de tal forma com o que é especial que eu não pude conter um leve arrepio nos lados da nuca e algumas lágrimas que escorreram enquanto eu ouvia, naquela praça, no meio de uma cidade que tanto me fez mal, um pouco do que também me cura.
Naquele palco eu vi meu passado, vi o que se esconde em mim fora do tempo e me faz bem, vi o que busco e o que temo. Vi uma tentativa tímida e corajosa de unir tecnologia e música. Vi que não é preciso muito para fazer o incrível, mas que é preciso estar atento para se jogar nele. Quis estar presente. Tirei os óculos para enxergar o real. Fechei os olhos para ouvir o real e imperfeito mas que me servia tão bem. Por tão pouco quase deixei tudo aquilo escapar. Pensei: O quanto a gente subestima a cultura...
Quando, ainda este ano, vi uma frase do célebre Sociedade dos Poetas Mortos, não a achei tão real como agora depois da experiência de ontem: “Medicina, direito, administração, engenharia são atividades nobres. Mas poesia, a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais vale a pena viver”
Vi mais naquele palco. Os ciclos, ou melhor, a linhas que conectam fatos e lugares. Vi o futuro de um dos meus amigos e também uma reflexão de como o Maurício de Souza vive numa realidade tão distante da minha, que só ontem entendi porque ele desenha roupas masculinas de um jeito tão específico.
Houve um momento em que veio para a frente do palco uma menina. Todo o tempo a mãe dela estava, com uma elegância cinematográfica, guiando e apresentando a sequência de músicas da camerata. Ela (a mãe) usava uma blusa preta de manguinha, elegante e delicada, com um tecido suave e brilhoso. Uma calça preta opaca, com a mesma elegância da blusa (não poderia aqui descrever detalhes de corte e costura, por isso uso esses adjetivos repetidos e deixo para que a imaginação do leitor preencha as lacunas), e um salto preto reluzente. Tudo em seu aspecto me lembrava roupa de loja, o que me traz uma sensação ruim com suas problemáticas, mas inserida em tal contexto me trazia outro clima. Uma elegância de apartamento (outra vez, use a imaginação para entender, porque eu escreveria um texto inteiro associando o que a roupa daquela mulher me causou). E havia em cena, agora, a sua filha com um vestido rosa liso e uma meia calça discretíssima. Não lembro dos sapatos.
A menina, de treze anos, estava cantando uma música linda que eu não conhecia. Ela tinha os ombros um pouco curvados, a respiração um tanto descontrolada e um sorriso de aparelho muito característico da idade. O seu nervosismo era na medida conveniente. E eu encarei aquelas duas em cena, mãe e filha, como uma representação do passado e do futuro. O que uma mulher é, e o que pode se tornar. A leveza no rosto da filha era despretensiosa, e no rosto da mãe havia uma leveza amadurecida. Uma graciosidade que mostrava confiança e experiência. "Acho que a mãe dela escolheu esse vestido", e pensei sobre como ela estava entrando num mundo que não era dela, e onde talvez escolhesse ficar. O mundo é violento. Mas a gente faz o possível para encantar e se deixar saudável. Pensei na mulher mais velha "Como ela chegou ali? O que ela passou pra ser como é?" ela não parecia sofrida.
E ao final dos aplausos, como um aceno de cabeça do universo às minhas observações silenciosas, a menina fez menção de descer pela frente do palco, ao que sua mãe disse, com um tom muito fofo mas ainda elegante: "Não, não, não, por trás" e terminou com um "Tudo bem", bem conformado quando a menina desceu pela frente do palco assim mesmo.
Saí meio chateada por ter que voltar para a minha vida normal depois de um momento tão bom. Embora a vida seja cheia de momentos ímpares que aparecem de repente. Pensei outra vez em como subestimo o potencial de tais oportunidades, em como as deixo passar. Esse pensamento foi reforçado quando, passando por uma loja de quadrinhos mais tarde na mesma noite, me deparei com várias referências que eu gosto, ou gostaria de conhecer, e lembrei de como me empolgo com esse mundo do qual me afastei. A cultura pop (e a popular), a arte, os animes, os quadrinhos, revistinhas e artistas da internet com suas tirinhas, artistas da cidade com seus climas de bairro do limoeiro ou de mesa de bar, violência e putaria numa coletânea que eu poderia gostar... Se tem um rumo pra seguir é esse. O rumo que eu sei que funciona, de se deixar ser tocada, de nichar, de cavar mais fundo no que eu arranhei e gostei. Permitir que a identidade do presente seja a nostalgia boa do futuro.
E tem as companhias. A amizade deve ser justamente apreciar os acréscimos que cada personalidade faz num momento ímpar. Ver meus amigos chorando ao ouvir o tema de Túmulo dos Vagalumes e poder marcar de assistir muito em breve. Desejar a presença de alguém que eu queria que pudesse se emocionar junto com a gente. Voltar pra casa discutindo sobre acesso a cultura e sobre razões pra existir. Rir e se sentir segura. Tudo isso, só uma parte interessante do todo que foi essa noite de ontem. A vida é muito cheia, e no vazio (ou na oportunidade, no espaço) as coisas que enchem acham lugar pra escapar e se mostrar. Cabe a nós tentar ver.
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
Curtas 14 - Reflexões cotidianas antes de dormir.
De repente a infância parece muito distante. E as memórias que me compõem se tornaram lembranças em terceira pessoa.
É por isso que a vida não pode ser descrita em palavras. Porque ela contém tudo aquilo que já foi, mas também o que virá.
Mal compreendemos o que se passou, já não acessamos conscientemente o quanto isso faz parte de nós. Não somos capazes de, num cálculo rápido, dizer quanto de cada registro se dissipou ou se alastrou pelo nosso ser.
E logo se vê: não somos capazes de compreender o que virá, porque ainda não veio.
Usamos as palavras para definir o devir, o inesperado, o cotidiano, a passagem do tempo. Mas cada coisa dessas combinada e sentida é arte pra além das palavras e dos búzios.
Acho que foi Solange Roza quem disse, mas posso estar enganada:
"A essência de ser, é fazer. Acontecer, no entanto, é a essência do encanto."
Coisas como a vida e a morte são grandiosas nas telas e nos textos, mas existem.
E por existirem não são menos grandiosas, mas de tal modo arrebatadoras e empoeiradas, que nos desafiam a descobrir seus propósitos numa madrugada de terça pra quarta feira, onde tudo parece como sempre esteve, e eu penso em significados ocultos.
Busco me reconectar com a realidade antes que seja tarde demais. Antes que esse quarto um dia vire lembrança, sombra, ou pior... Desejo daquilo tudo que não fiz. Da fantasia não vivida.
Se permanece fantasia me arrependo. Guardada na memória como um desejo vago.
E os desejos vagos, arrependimentos, me impelem a arriscar. A controlar um pouco mais o músculo que age.
Mas mal nenhum me faz quando confrontada com a realidade.
Na coleção de lembranças que um dia foram fantasias e depois foram realidades eu vejo o que tem de mais bonito em mim.
A coragem de falar com aquele cara misterioso com a unha pintada de preto, que todo mundo tinha medo.
A felicidade de passar na faculdade, e ligar pra mãe no meio da noite dizendo que não é questão de paciência porque eu passei. (Tem algo de um filme que gosto nisso.)
O prazer de ter fotos em que me sinto linda.
As primeiras vezes, e as segundas vezes que pareciam primeiras.
Memórias que eu guardo e resgato, mastigo e acarinho. Memórias de quando ser corajosa parecia mais natural, e viver parecia mais simples. Ou eu só não tinha pensado sobre isso ainda.
Poderia esticar a conversa, mas estava prestes a entrar num papo de impressões e sentidos que só existem na minha cabeça e nem eu entendo muito bem, e de qualquer forma já ficou muito tarde e eu acordo cedo amanhã.
Não sei porque me vem na mente agora a imagem de uma menina que eu não gosto.
Isso não é um tipo de indireta sobre mim mesma, é realmente uma pessoa que eu não gosto e agora estou vendo o rosto dela. Pelo menos é um rosto agradável.
Definitivamente passei da hora de dormir.
quarta-feira, 20 de julho de 2022
Insone, contemplo minha musa.
O vento que corre fora da janela e atinge meu rosto por entre as grades é tão frio quanto o do ventilador aqui dentro.
Contemplo a paisagem e meus pensamentos, por mais que se deparem com os mesmos temas confusos de antes, não me despertam sentimentos ansiosos. Tenho cautela pra não pegar pesado demais.
Passam pela minha mente, vagamente puxados por uma e outra recordação. As luzes lá no fundo parecem estrelas. Ou cruzes brilhantes de túmulos. Ou luzes de naves espaciais ou uma cidade bonita num jogo.
Tem algumas coisas que quero pensar, percebo que não vou concluir nada agora. Quantas vezes já fiquei nesse mesmo estado de contemplação em outras janelas que agora mal me vem na memória?
Mas tem uma coisa que não quero esquecer. É essa ideia. A de que me faz bem estar em vários lugares. Pode ser desconfortável não estar acostumada e ter que se adaptar. Mas essa diversidade e as possibilidades são a riqueza que quero. Não posso esquecer de que quero estar assim. Quero ter espaço, lugares pra ir, coisas pra ver, noites pra curtir e principalmente pessoas interessantes e confiáveis ao meu lado.
Outras coisas surgem. Porque escutar mais a certeza de alguém do que a minha? Lembro dela e ela é meu contraponto. Lembro dela que não tem culpa e talvez não tenha sentido quase nada, mal imaginando o que representa pra mim. Um pivô que involuntariamente acendeu temas tão quentes na minha vida. E eu vivo me esgueirando da chama. Mas eu precisava. E tenho medo. Devia agradecer a ela depois, só que sem que ela perceba. Ela provavelmente nunca vai saber o que significa pra mim.
Eu queria me segurar em algo. Queria ter uma certeza sequer que fosse plena e imutável, e que fosse boa e um acalanto. Mas o que eu tenho são dúvidas e certezas ruins. Não tem idade nem confiança nem preparo que me deixe pronta pra tudo. E eu não tô pronta pra um monte de coisa também. E pra algumas nunca estarei.
A cidade dorme e eu tenho insônia. Quero voltar a ler mas a minha narrativa me parece a mais interessante. Olhei as estrelas mais cedo e não consegui identificar constelação nenhuma. De onde vem as estrelas cadentes? Eu sabia que não precisava de uma pra saber meu pedido. Eu quero ser feliz com o que eu fizer do futuro. Provavelmente eu vou ser e isso deveria ser bom. Mas me incomodo que não vou ser feliz do jeito que eu tô agora. Com essa casa e essa vida que é uma visita/vista e não uma vida. E deus me livre que fosse essa a minha vida o tempo todo. Porque eu ia saturar até das coisas boas quem sabe?
É engraçado como as fases passam e eu me adapto aos cenários e descubro como estar bem neles. Nem sempre rápido como gostaria. Mas agora estou mais tranquila do que estive no último ano.
Ainda cheia de contradições. As escolhas parecem todas erradas. Parece tudo inseguro demais. Tudo parece que descamba no mesmo balde que é o fracasso. E no meio disso tudo um pensamento louco de me entregar ao fluxo da vida mais caricata que eu consigo pensar pra me agarrar a uma segurança que nem existe.
Aqui olhando pra minha musa quieta, monótona, segura pra mim. O cheiro dela está todo mudado. Eu olho pra ela e não sinto nada especial, mas é justamente o não sentir que eu buscava. Ele subentende segurança, tranquilidade, aceitação. Ela me isola do resto do mundo, essa musa.
Se aquelas folhas balançarem um pouco mais devagar eu não vou conseguir ver. E vai parecer que eu parei no tempo.
As coisas aqui as vezes me lembram a cidade de quando eu tinha seis anos de idade. Que ironia porque elas tem o mesmo nome. Hoje, por um breve momento, me lembrou de um jeito ruim. Mas eu não tenho mais seis anos. Infelizmente tanto pras coisas boas quanto pras ruins a gente constrói significados desde pequena. Eu tento destruir os sentidos ruins às vezes. Dissecar e entender. Mas aí os bons ficam parecendo frágeis também. Sentidos... Nem sempre dá pra controlar como as coisas chegam. Nem sempre dá pra controlar como se reage a elas. Eu agradeço a calma. Agradeço sempre que noto.
quinta-feira, 28 de abril de 2022
Blogs, climas e uma conversa que ficou pelo mei do caminho.
Descobri hoje que um dos blogs que via na adolescência, e eram tão poucos que eu sempre considerei um site e não um blog, acabou há dois anos e eu não estava sabendo. Pesquisando sobre ele entrei um pouco em contato com o climinha de blog dos anos 2010, lembrei do blog da minha prima que pra mim é uma eterna relíquia do clima de jovem cool alternativo que me causava tanta admiração na época, e que me causa um certo conforto hoje. Uma mistura de imagens de sonhos e lembranças da pré-adolescência, comerciais de tv, cores de parede, jogos... Compõem esse clima que me refugia, que me alivia em momentos de angústia e que eu desejo mas não corro atrás realmente.
Sempre que faço uma casa no the sims 2 eu tento recriar esse clima, esse cantinho utópico que fiz na minha cabeça. Uma das imagens que sempre me vem é a seguinte: Tem um grupo de jovens num espaço, como a frente de um prédio público de tijolos aparentes, a calçada é de tijolinhos, é noite. A luz amarela do poste ilumina e uma árvore enorme faz jogo de sombra. Toca charlie brown jr. e tudo é perfeito. Todas as emoções da cena "real" são ignoradas, as emoções dos personagens não interessam tanto quanto a segurança que esse cenário me passa.
Na época em que eu me sentia muito perdida e assustada e não conseguia dormir, eu ouvia as aberturas de naruto e lembrava da minha cidade e esse clima me refugiava. Hoje quando sou perseguida por um monte de sentimentos estranhos e ruins que não sabia ser capaz de sentir, eu ainda recorro a ele vez ou outra. E mesmo quando estou bem, é uma nostalgia gostosa.
A noite fica bonita nos olhos da minha imaginação. Livros, praças, janelas, céus, árvores e postes de luzes amarelas. Puxam outros climas bons. Puxam o céu preto com estrelas e a rua enorme de areia. Puxam os vasos pendurados no corredor e a voz de uma mulher, que poderia ser minha avó, cantando enquanto acordo vendo as luzes das telhas. Puxam as minhas noites ouvindo abertura de malhação. Puxam o cheiro de salsicha frita e de frango cozido. Puxam rolos de linha e imagens de jesus. E puxam outros climas fictícios (e não seriam todos? inventados, mudados pelo tempo, reinterpretados, romantizados?).
E o cotidiano me puxa. O cheiro da fritura, o gosto do frango, o cheiro de um perfume ou cortes e cortes de pensamentos e climas rápidos, que me deixam muito mal. O texto não era sobre isso. Isso era pra outro texto que eu estava pensando em como escrever. Um texto que começava com algo do tipo "às vezes parece que eu parei de escrever pro blog pra escrever na agenda da terapia".
E lá pelo meio do texto eu escreveria algo como o incômodo e a tristeza que me deu outro dia quando lembrei que eu nunca quis ser uma daquelas pessoas com a boca repuxada pra baixo de tristeza. E o quanto foi ruim perceber que não sou mais a pessoa feliz que era antes, ou não tenho sido nos últimos meses, ou anos... Não quero perder a futura marquinha do meu sorriso antigo. E pensar nisso me deixou ainda pior.
O clima é uma junção de pensamentos, de crenças, de emoções que foram vividas e de expectativas e de conformidades. Tudo isso embolado, jogado, causa uma sensação. Tenho tentado desembolar os climas ruins da minha cabeça, entender pra desfazer. Como desfazer os ruins e não os bons? Como lidar com coisas ruins?
Minha sogra acha que o ano está passando rápido. Eu também acho e ao mesmo tempo tive semanas que duraram meses. E os últimos dois meses poderiam facilmente ter sido seis. Teve uma semana em que a semana anterior me parecia uma outra vida. Teve uma terça em que a segunda anterior me parecia uma outra vida. Teve uma segunda em que o beijo que eu dei as quatro da manhã parecia nunca ter existido às cinco da tarde.
Tem dias que são mais fáceis que outros. Tem manhãs que são melhores que as tardes. Tem tardes que são menos ruins que noites. Tem noites que são melhores que as manhãs do dia seguinte.
No começo do ano as coisas e lugares que me deixavam ansiosa agora me dão conforto. E lugares que me davam conforto me deixam ansiosa. Concluí que dadas as mudanças de contexto, as curas e as pioras, mesmo com essas diferenças tem uma coisa que tem que se ajeitada dentro de mim. Parece que o músculo de sentir andou quebrado e eu não consegui consertar ainda. Talvez sempre estivesse e eu não percebia.
Tanto faz, eu faço terapia justamente pra não precisar ficar expondo publicamente todo o tormento da minha cabeça. Então vamos voltar ao tema do blog, mas antes de encerrar o assunto, eu queria dizer que no começo da pandemia eu ainda me achava a pessoa mais feliz, sã e livre de problemas que eu conhecia, e achava até injusto. Pois bem, a conta chega.
Então, voltando ao lance dos blogs. Agora acabou o clima e acabou o assunto. Depois apareço e falo mais sobre. Nem tem tanto pra falar. No auge dos blogs (ao meu ver) eu tava jogando club penguin.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
Devaneio na janela de um dia cheio.
Conversas, encontros e movimentos. Música. Enchem meus olhos, desafetam meu coração pra novamente afetar. Me esperançam, me alegram, enchem minha mente de rimas e de sentidos. As garças no lodo e a segurança, engenheiros no fone, a bandeira do brasil tremula no céu estático e calmo. A polícia corre, luzes de sirene, faróis de carro, o concreto se levanta e corre pra trás. Toca queen: "having a good time..."
A tarde cai tranquila e eu me desloco através dela, acompanho o vôo dos passarinhos, minha mente ultrapassa a todos nós. Um papai noel moderno e solitário caminha. A estrela me persegue, quero saber o nome da sua constelação. Ou será um planeta?
Don't stop me now, cause I'm having a good time, I don't want to stop at all. Lalalalala....
O mototaxista conversa com a boca e com as mãos, a natureza me lembra uns três climas diferentes e bons, um cachorro olha o nada, dois ciclistas carregam suas bicicletas, eles não se vêem. Um coqueiro faz vigília pra todo o resto lá atrás, uma mãe ajeita o cabelo da filha, a filha anda e ajeita o short. Uma moto parada sozinha. Casinhas e um casal. Passam pessoas, passa a luz amarela tranquila. As pessoas conversam enquanto a luz tranquila da tarde desliza. Passo num bairro em que ja morei, acho que acabo de passar minha antiga rua, dessa vez estou na janela certa pra ver, mas sempre é rápido demais pra que eu tenha certeza.
Confirmei no mapa, era a rua certa. Vejo coqueiros, lembro daquele coqueiro, lembro da minha infância, é impossível não voltar pra ela nesses momentos, escuto uma música tão boa e tropical, a decadência da cidade me incomoda, as luzes me fascinam. O movimento do trânsito parece natal. A polícia ainda corre lá embaixo.
Lembro de cheiros que já não posso sentir, ouço idosos falando das mães, do que elas diziam. Lembro de novo da minha infância, e choro porque é bonito, confortável e parece que sempre houve e sempre vai haver. E nunca houve de fato, porque se mistura com outras luzes que passam sempre na minha memória.
segunda-feira, 3 de maio de 2021
Memórias do Vale do Curtume.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Gente da parede.
Uma vez meu avô me chamou na varanda e, olhando fixamente para a parede em frente, me perguntou porque não conseguia desenhar se só ele podia ver. Talvez você não conheça o meu avô, mas quem conhece sabe que muitos anos atrás ele pintava montes de rostos na sua parede de tijolos. Rostos que só ele via, formas. Deixo abaixo o registro do legado dele, porque a neta deu pra ver também:
A madazinha criança sentou no vaso sanitário e, olhando a parede que ficava bem próxima, coberta dum azulejo salpicado de verde lodo de praia, verde vintage e branco, deu de cara com uma caveira. Com medo de ter medo da descoberta tratou de se enturmar logo com ela. E sempre que ia no banheiro puxava um papo com a caveira que ficava em frente. Ela não ligava pra essas coisas do lado de cá da parede, e eu tampouco compreendia o que se passava do lado de lá. Mal me recordo das conversas pois eram todas leves, acredito que falava do meu dia, fofocava de algum pensamento. Pra caveira tudo estava sempre bem. Um dia me mostrou sua família. Quem diria? A caveira vivia com a companheira e dois filhos, um menino e uma menina. O menino, se bem me lembro, usava boné, e a menina lacinho cor de rosa, embora só se enxergasse verde. Curiosamente todos se pareciam demasiado com o pai, e não conseguiam falar comigo todos juntos, era um por vez.
Nunca apresentei a minha família pessoalmente para a caveira do banheiro, mas se lerem esse texto vão conhecê-lo indiretamente. Nem me recordo, mas desconfio que me despedi deles quando fui embora daquela casa, eram bons amigos.
Olhar a parede é como olhar pras nuvens, pela minha experiência uma parede manchada, úmida ou mofada é mais cheia de vida do que aqueles algodõezinhos flutuantes. Eles são muito bonitos sem forma, e vivem mudando, embora isso renda uma narrativa aqui ou ali. A parede demora a mutar. Quem vê pode acessar muitas dimensões, mas a imagem permanece estática.
Agora encontrei um outro amigo de banheiro. Amigo não, uma conhecida. É uma bruxa. Só aparece a noite quando estou escovando os dentes e tendo ideias. Ela não fica na parede, mas no teto. Hoje estava dando uma boa olhada e acho que talvez pareça mais uma caveira ou um rosto meio deformado do que uma bruxa. Afinal ela não tem chapéu nem vassoura. Mas se me disse que é bruxa eu acredito. Se espreme entre os caibros e fica olhando o movimento. É de poucas palavras. Pensando bem nunca me dirigiu nenhuma. Talvez eu esteja ficando velha e perdendo a habilidade de chegar nel
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Um homem e uma pá de áudios.
É bom refletir sobre as trivialidades da vida, e sobre aqueles pensamentos ocasionais que a gente deixa vir e se esvair mas constantemente retornam. Estava aqui lembrando de um caso e digo que descobri o quão importante foi um certo alguém... Mas vamos a história. (Para surpresa de ninguém, estava pensando nisso enquanto escovava os dentes, logo antes de me deitar. A mente parece que prevê o momento de relaxamento e já engata a quarta marcha.)
Algum tempo atrás eu o conheci. Através dele aprendi sobre sensações, organização, responsabilidade, dissimulação (ou tranquilidade), capricho. (Talvez você queira reler essas palavras com mais consciência, pois amontoadinhas assim a gente acaba não percebendo bem o peso delas).
Era uma pessoa ímpar, dessas que aparecem em sonhos e parecem saídos de um. Nunca o compreendi. Até hoje não compreendo.
Percebi que essa pessoa influenciou de forma direta meu futuro. E ela sequer pareceu se importar quando eu estava pra tomar essa decisão. Eu também não me importo que ela não se importe, na verdade. Era um homem de ideias radicais e fortes. O temperamento forte também se escondia sob uma máscara impassível. Máscara mutante. Incompreensível para mim.
Um dia ele me decepcionou. Não profundamente, mas me deixou encucada. E decepcionou um amigo em comum que também me ensinou muito. Mas, algum tempo depois os dois voltaram ao normal, e eu que já não entendia nada fui tirar a história a limpo.
Pois bem, meus amigos. A resposta veio, se bem me lembro (não lembro) depois de alguns dias, em forma de vários áudios. E eu deixei pra ver depois... Perdi os áudios. Não lembro se uma ou duas vezes e perdi a coragem de pedir de novo. Até hoje sem entender a história e curiosa pra saber como se resolveram.
Moral: ouçam os áudios dos seus amigos.