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sábado, 27 de janeiro de 2024

Daqui a dez anos eu espero estar mais confortável.

Dentre as falas clássicas do meu pai está "Como será que a gente vai estar daqui a dez anos?". A resposta em geral sugere um futuro de esperança em meio ao caos político/social/econômico/tecnológico. Às vezes busca explorar marcos da vida dos familiares. 
Hoje, sentada de frente ao computador olhando fotos antigas, pensei: nessa época eu não me imaginava de frente pra um computador. Mas, daqui a dez anos, neste dia e neste horário, (quarta-feira, 25 de janeiro de 2034, próximo às uma da tarde) provavelmente eu estarei sentada de frente pra uma tela.
Pode ser a tela de um celular transparente e flexível, de um computador que rode The Sims 4 no ultra, do meu ambiente de trabalho ou estudo... Mas em algum momento deste dia em dez anos eu estarei de frente a uma tela, como estou hoje e já estive tantas vezes no passado. 
E ainda lembrarei dos programas de digitação que travavam em 2006, lembrarei dos textos que escrevi no blog em outras fases, lembrarei do wordart e dos arquivos do rpg no word digital. Lembrarei das montagens de foto no powerpoint, das contas no excel que até hoje não domino, dos trabalhos escolares no publisher. Lembrarei dos confortos e sustos nos emails, das correntes, dos spams, das retrospectivas. Lembrarei dos jogos, dos emuladores, dos pen drives, dvds e disquetes.
Daqui a dez anos, mexendo na minha tela, usarei o que aprendo hoje, e a memória do conhecimento adquirido puxará a história, puxará o momento em que aprendi, e reverberará vislumbres da minha vida. Saberei mais, e precisarei do que tenho sabido. E ainda vou ser uma menina com medo de me expor demais na internet, de perder meus arquivos, de baixar vírus. 
 
Daqui a dez anos, quanto tempo eu terei passado da minha vida como nas fotos que estava vendo? Sorrindo com a família na varanda de casa, meu irmão banhando no quintal, meus pais sentados embaixo do coqueiro. Eu cheia de mugango e toda posista. É bom relembrar pelas fotos. O bom para saber que fui feliz, o ruim pra saber que sou mais feliz hoje. Mais insegura também.
Eu tenho tirado menos fotos. Isso é bom porque eu me exponho menos, porque eu passo mais tempo aproveitando minhas companhias que posando pra fotos. 
Eu tenho tirado menos fotos. Isso é ruim porque eu tenho menos registros da minha beleza e das minhas mudanças, menos conteúdo pra postar, e menos lembranças. Minha memória não basta. E meu celular tem uma câmera ruim.
Principalmente, quantos momentos para fotos eu tenho tido? Quando viajei para São Paulo em 2021 quase todo lugar e look mereciam uma foto. Mas aqui na minha cidadezinha não merecem? Eu me visto pra quem? E pra onde eu vou? Eu não tenho aproveitado a minha cidade, e mesmo no meu quarto existe material pra lembrar, por estética e por memória. E eu não tenho produzido conteúdo disso. 
No fim, eu terei gastado tanto tempo em telas, que daqui a dez anos terei mais prints que fotos minhas, pois já não vivo tanto lá fora. É esse futuro que quero?
Não. Eu quero um futuro em que eu tenho fotos espontâneas e fotos montadas de momentos importantes pra mim. Eu quero uma rotina gostosa e mágica. E quando estiver vivendo, talvez ela seja menos mágica. A praia, a duna, o mato, a estrada de terra, os passarinhos cruzando veredas, as minhas amizades e nossos momentos. A minha intimidade, o medo, e as minhas liberdades. Não dá pra fotografar tudo, mas dá pra escrever. 
 
Eu necessito viver. Necessito fazer do meu tempo de tela algo valoroso, necessito viver mais longe delas, explorar o que resta do mundo, como diz O Rappa: o que sobrou do céu.
As pessoas se lembram do que chamam de magia da infância. Eu quero resgatar isso pra mim. Quão mágico pode ser meu dia a dia mesmo consciente? A arte parece essencial para o caminho. Um choque anafilático pra entreter, pra acordar, ambos. A música, a exposição interativa, o filme, o livro, o teatro, o poema. Me dão motivos para chegar ao fim do dia e me revigoram. Mas não quero viver só de arte porque ela é outra tela. Outro portal pra longe da vida. 
A vida só é vida de verdade quando é ordinária? Eu estou vivendo menos quando trabalho pensamentos de narrativa sobre os fatos do meu passado? Eu estou vivendo menos quando penso sobre o que fazer e filtros se sobrepõe no meu pensamento me fazendo sentir diferente por eles e não pelo que vou fazer? Eu estou vivendo menos quando me perco em pensamentos? Eu estou simplesmente ficando louca?
 
Me parece que todos os acontecimentos da vida são interpretados por narrativas modelo na minha cabeça. Existem momentos em que eu me sinto segura como nas histórias que eu lia na infância. O mundo parece um grande bairro do limoeiro que eu posso atravessar carregando meu lençol no meio da madrugada, até chegar na casa da Mônica. Ou então, como num sonho, ou nos filmes do Miyazaki, o mar parece cheio de magia, mistério e luz, como natal. Tudo se mistura. As impressões se misturam e se tornam sentimentos. 
Existe um outro conjunto de sentimentos, negativos, que se forma com frequência na minha mente. Amplamente visitado nos textos anteriores, é baseado em narrativas obscuras e experiências de solidão, e na cidade,,, profundamente representado pela cidade. 
E às vezes parece que a narrativa da cidade, a narrativa ruim, decadente e solitária, é a realidade. Acho que muita gente acredita nisso. Tal hora é isso mesmo. Mas não todas as horas... Existe realidade nisso, e embora me pareça ser a totalidade da realidade de alguns moradores da cidade, não é a minha. É só mais uma lente-narrativa-sentimento. Se sentir parte dessas narrativas afeta todo o resto.
Encaixo passado e futuro em narrativas várias, para além destas duas. O presente onde se encontra? Não pertenço a nenhuma linha narrativa sólida, nem a lugar algum, completamente. E quando vivo é tudo diferente, vivo e narro, narro e vivo. Narro diferente, esqueço a realidade. Esqueço que enquanto disparava pelas ruas de uma cidade litorânea, sozinha ou acompanhada, como protagonista de uma aventura; eu passava tanto tempo com medo, nessa mesma cidade que mesmo com toda a poesia não era capaz de me proteger da minha mente. Eu chorava de medo, chorava de coração partido. A vida nunca foi perfeita como parece hoje. Mas, quantos momentos de contemplação e lucidez que sei que existiram foram confinados no tempo passado?
Eu costumava olhar momentos assim e pensar que no futuro eu lembraria deles. Esqueci todos. Guardo-os para mim agora. Para mim de hoje. Na conta no dia do juízo deve servir pra alguma coisa. E antes disso, nos hábitos a gente manifesta o que a memória esconde.

Fim do ano passado vi algo sobre a passagem do tempo. Que ao dizer que eu ainda devo ter uns sessenta anos de vida, isso parece muito. Mas ao dizer que só me restam sessenta verões, isso bate de uma forma diferente. Pensei: e se me restam apenas sessenta viradas de ano?
Só mais sessenta festas de aniversário, se eu fizer todas. Só mais catorze copas do mundo. Quantas chuvas de meteoro? Eu nunca consegui assistir a nenhuma. Quantos eventos com meus avós? Com meus pais? E com meus irmãos? ("a gente só tem essa vida" foi o que ela me disse).
Já devo ter escrito, não sei se está publicado, sobre o tempo que ainda tenho com as pessoas. A tendência é viver menos com a família e mais sozinha ou com outros ciclos. Quantas horas eu ainda tenho de convivência com meus pais? E em quantas eu estarei no mesmo cômodo que eles, e consciente ao invés de ligada no automático ou perdida dentro da minha mente? 
Na juventude a velhice alheia nos alerta pra finitude da vida, antes da nossa. Eu não me preocupava tanto com o passar dos anos na faculdade ou em comparecer a todas as chances que tinha de ver meus amigos. Mas quanto mais eu penso, mais o tempo urge. 
Houve esse pensamento, que meu tio quem falou, a respeito dos anos que ainda temos com as pessoas. O outro, sobre quantos anos ainda temos, se olhamos em marcos. E há um terceiro, aquela famosa frase "um dia você se despediu dos seus amigos com quem brincava pela última vez, e nenhum de vocês se deu conta disso"; ou a versão moderna, o print de uma conversa de dois amigos se despedindo por um chat qualquer, e marcando de jogar no dia seguinte, tirado anos depois.
Existe uma pessoa que, especialmente, me assusta muito a ideia de ter as últimas palavras ou os últimos momentos. Ela me falou sobre a agonia de sentir que tem pouco tempo comigo. Tempo de vida. Na ocasião respondi que não podemos condicionar nossos eus futuro aos anseios presentes, especialmente quando eles podem ser resolvidos no presente. É o que diz Rita Lee: que espaço meu passado deixa pra quem eu sou hoje? Não sou escrava dele. 
 
Nada nunca parece suficiente, completo. Tudo é agridoce e tudo é confuso. As pessoas nunca parecem próximas o suficiente. De modo geral, acho que não gosto de ninguém realmente. Não sou capaz de sentir saudades, não sou muito leal nem cuidadosa. E cada dia mais me descubro pior. Menos empática, maios egoísta, mais maldosa, mais indiferente. Eu nunca sinto que meu afeto é suficiente ou verdadeiro, parece quase um papel interpretado (às vezes é necessário ser). Apesar de que eu queria ter mais a oferecer pras pessoas importantes pra mim. Eu queria sentir mais, e queria ser espontaneamente mais doce, mais carinhosa, mais emocionada, mais empática, mais devotada, mais responsável. 
Mas é isso que eu tenho e já é bom o suficiente. Não vou perder tempo podendo ter pelo menos um tanto de felicidade... E podendo fazer muita gente feliz, parafraseando a Rita outra vez. É isso que eu tenho e eu posso aproveitar antes que acabe. A sorte absurda que eu tive com as pessoas que me cercam e que são... Tão mal aproveitadas. O meu lugar, as minhas pessoas, as minhas oportunidades. Tudo que me cerca me parece excepcional. E eu sou tipo o buraco negro no centro do universo kkkkkkkkkkkkkkk.
 
Passei numa rua que eu frequentava e tem uma placa escrita 2022. Já devo ter falado dela, não sei... Em 2021 eu achava que a placa indicava uma cápsula do tempo que seria aberta (porque é uma placa estilizada). Mas não, era só o número do imóvel. Passei lá esse ano, já faziam três anos... até mais. Muita coisa mudou nesse período, e outras muito importantes ficaram quase iguais. Eu sinto que levo minha vida meio limbosa. Esses últimos anos foram intercalando limbos, dores, contemplações e momentos bons compartilhados. Mas sozinha, eu vivi muito um limbo. Um limbo que nem hoje, tentando começar algo.
Três, quatro, cinco anos passaram feito água. A pandemia ajudou a quebrar as noções, mas pensar me permite optar por desacelerar. Eu quero que esse ano dure muito. Nossa, eu quero que 2024 seja quase inacabável (que nem esse texto, que estou montando a duas horas), eu quero que seja lento, não extenuante, mas intenso e calmo. Eu quero estar acordada enquanto vivo meu ano. Não de frente pra uma tela enquanto as horas passam pela janela. Mas hoje já é quase o fim de janeiro, e ele tem passado rápido demais. Não passe por favor, se demore. 
 
Outro pensamento daqueles comuns que mencionei: que de tanto torcer pra atividade, pro dia, pra semana acabar. A gente torce pra vida acabar. E falando isso de forma pessoal, eu quero lidar melhor com os meus desconfortos, pra poder solucionar uns, e simplesmente aprender a lidar com outros. Ficar mais forte. 
É preciso reconhecer e aceitar para não ser limbosa. Reconhecer a rotina, a morada, as relações. Sinto tudo isso como passagem, sou Humpty Dumpty em cima do muro pronta para cair, mas não caio em lugar nenhum, estou passando. Não pertencer o suficiente me agonia, me insegura me incerteza me vazia me assusta me deixa mal. E tenho medo de pertencer, porque pertencer prenuncia a dor da perda. Reconhecer o que tenho e aceitar para entender. E entender para poder mudar, ou nem. Eis uma forma interessante de reconhecer: pensar, como descreverei esse momento daqui a dez anos?
Entretanto, reconhecer é entregar as pontas. Necessário, mas dói sair do que poderia ser e sentir de novo o baque de ser ordinária. Tem um engasgo em aceitar as coisas como são, porque elas estão me incomodando de alguma maneira. Nunca é suficiente.
Usando a quinta e última menção a uma ideia comum no instagram: tem aquela história do cara que se mudou pra morar com a amiga por alguns meses e reformou o quarto pra ficar a cara dele. (ler com voz cansada pra fazer um charme) É sobre isso sabe? Tudo é passagem e nem por isso deixa de ser real ou importante. O período de passagem não é vida também? E é enorme. Eu vivo na passagem, eu pinto em cima do muro, eu pertenço aos dois lados.

Estava dizendo ao meu irmão mais cedo que o desconforto com certa situação é pessoal. Meu pai, eu e ele, encontramos na mesma situação dificuldades diferentes. Penso que somos criativos pra isso. Os desconfortos da vida começam na dúvida e se estendem até cada pequeno poro e ponto no corpo. Quando quero ser uma força da natureza e conseguir algo, na décima segunda badalada, em ar de ir, eu consigo. E o que vier é bom, até falhar. Porque eu tentei e, afinal, nem tinha tempo. 
Mas pensar em fazer com calma, decidir, tentar e correr o risco de falhar sem desculpa alguma, é desconfortável pra mim. E como tem sido nos últimos anos, isso eu descobri sobre mim essa semana. Fazer terapia é tipo uma raspadinha premiada da própria vida.
Organizando um álbum outro dia, decidi que quero voltar a ter álbuns de fotos, me ocorre que eles podem ser virtuais também, mas quero fotos físicas, guardadas, como eram antes. Pra mim, pra mostrar, pra decidir e eternizar momentos que julgo importantes. Pra ter foto e memória é preciso ter vida. E agora eu preciso ir pra ter uma janelinha por onde olhar daqui a dez anos. Talvez eu coloque alguns prints também. 
 
 _______ 
nota: nesse tipo de texto, eu costumo juntar diversas ideias que tem me ocorrido. a medida em que elas são resgatadas eu as anoto embaixo do texto para organizar e puxar seus fios no parágrafo certo. eis o print de uma dessas anotações, porque achei engraçado o modo como organizo minhas pautas:
 
 
 de 25 a 27 de janeiro de 2024.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Curtas 18 - Hoje eu vou dormir com seu suor.

Você não toma banho antes de dormir quando está cansado e deixou certamente um pouquinho do suor e da sujeira do seu short espalhados no meu lençol, embora eu tenha evitado te cobrir.

Então hoje eu vou dormir com seu suor no meu lençol e também na minha camisola rosa. 

Se você não viesse me ver, seria só a camisola que combina com a touca e mais uma noite.

Mas você veio e isso não dói nem marca.

Mas veio e por essa noite, a camisola é a que esteve espremida entre os nossos abraços.

Quando fechei os olhos mais cedo, de cansaço, sem saber como lidar com desligar a sua presença da minha vida, eu lembrei de ontem e de como eu tentei decorar a sensação da sua presença física pra lembrar hoje.

Eu me imaginei deitada na minha rede, lembrando da gente junto de um jeito quase abstrato. Como acontecia em diversas noites.

E estando lá eu quis gravar a objetividade do seu braço adormecido sobre o meu estômago.

E a objetividade do meu pé procurando o seu com um lençol no meio. 

E a objetividade de sentir um calor e uma presença quaisquer por diversos e minúsculos fenômenos que a física deve ter documentado em leis anos atrás. 

E durante todo o tempo em que estivemos juntos, notei a subjetividade da sua presença e a força que ela exerce sobre a minha realidade. Acho que sobre essa parte ciência nenhuma tem domínio. 

Como sua presença muda a cor do meu chão. Como a vida desliza e não trunca, diferente de quando me vejo só, aqui, sem você.

As pessoas, quando estou contigo, são figurantes. E quando estou só são possibilidades e apreensões.

Quando estou contigo as coisas fluem de um momento a outro, momentos contigo, pequenas felicidades, pequenos prazeres e aventuras.

Quando estou só meu dia parece uma sucessão de atividades que precisarei repetir em algum tempo. Dia após dia. 

Contigo passar o dia deitada faz sentido. Dormir ao seu lado e acordar te chamando faz sentido. Ver qualquer coisa ao seu lado e jogar uma conversa, e trocar um carinho, parecem simplesmente o motivo para o qual eu existo.

E sozinha eu não encontro motivos.

Quando estou só, nada do que eu tento parece fazer sentido e me levar a lugar algum. Ou assim me parece quando estou contigo. A minha felicidade tem lugar pra se manifestar, que é na sua presença.

Então tentei dormir essa tarde pra fechar o ciclo de te ver. Pra quando acordar ser outra que não te viu. E quando fechei o olho eu lembrei de como tento ficar confortável ao seu lado. Eu lembrei do seu braço no meu estômago, e caindo de sono eu vi seu rosto próximo do meu. 

E depois dormi.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Curtas 16 - O sol não tem culpa.

Queria acender uma fogueira no seu peito pra que as suas palavras não arrepiassem minhas costas, mas mal consigo manter acesa a minha própria chama. Não sei se mantenho do jeito certo, como fazer ser natural, com ser de verdade? E se meu fogo apagar e eu afundar outra vez na água gelada? Tenho tanto medo disso. 

Naquela noite em que eu estava no chão sentindo o cheiro daquela vida toda que eu tinha, e que ainda passa às vezes, eu pedi sua ajuda e você deixou minhas mãos dormentes. De medo. Porque seu papo de solidão é tão aterrador pra mim. 

Eu tenho problemas com o sol porque ele me lembra a sua casa e a sua cidade. Mas não tem tanto a ver com você. Porque eu fico gripada encostada na parede quente do seu quarto. Porque a sua vida, e a vida aqui, é cheia desse sol obrigatório, sol violento, dolorido, perigoso e de despedida. O sol da tarde me lembra a solidão. 

Mas o sol não tem culpa. 

Quando você me elogia eu me sinto fraca, tutelada. Parece que você se esforça pra ver o que tem de bom em mim porque se acha muito melhor. Parece que você acha que eu preciso ser consolada pela minha vida fraca, ou que eu preciso de reconhecimento. Porque o seu reconhecimento nunca parece de verdade? Porque eu não consigo acreditar na sua admiração? 

Mesmo tendo pouco de você ainda é melhor que não ter nada, e o meu normal nunca foi suficiente, mas você não percebia então eu achava que era. E o seu esforço sempre parecia em vão, eu sempre pedi mais, e a gente se machucava junto. Eu realmente acreditei que você sentia algo parecido comigo mas era muito pior.

Quando eu falo com você eu nunca sei o que esperar e isso vai me machucando devagarinho mas não parece arranhar a superfície de mim porque eu me acostumei. Diferente de tudo que a gente tinha e se arranhava tão fácil. 

Você se esforça muito pra fazer as pazes comigo e com o seu passado. E eu tenho tentado fazer as pazes com o sol e com o meu presente. Ele parecia mais ameno na minha memória. Ele parecia melhor quando eu sentia o cheiro da minha casa e não da sua. Das minhas. Das suas. As suas casas são tão sozinhas pra mim... 

O seu melhor talvez não encaixe em mim. Essa frase na verdade é sua. 

Dependendo de como eu viro o olho eu sinto uma e outra coisa, mas já decidi que vou ficar bem comigo pelo menos enquanto eu posso, pelo menos enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer e sei onde achar um sentimento ou outro que eu preciso. E vou tentar contigo tendo um monte das coisas que a gente queria ter, e deixando de ter outro monte, algumas que a gente nem sabia e nem sabe ainda. 

Tem uma música que você gosta e eu não, que diz que "você é como o sol, ilumina meu dia mas queima a minha pele". E se eu fui isso pra você, porque você continuou? E eu disse que meu texto ia terminar feliz mas não consigo deixar de ficar triste pensando outra vez na solidão que acho que tu sente, e que parece contagiosa, só de falar dela eu sinto um pouquinho. Queria ser mais, queria poder consertar nós dois e não posso nem comigo. 

Mas vai lá, vou terminar bem. Vou terminar dizendo que pelo menos agora as coisas não são como minha cabeça viciada quer projetar, como um caos. Elas simplesmente são como são, e eu não compreendo tão bem. Mas a gente ainda consegue ter o melhor um do outro. Ou... quase isso. Terminar dizendo que me consola a sua presença. 

07/12/22 às 20h00

domingo, 27 de novembro de 2022

Uma noite assistindo a camerata de cordas da universidade da cidade.

    Ontem vi uma árvore com folhas nas cores amarela e verde, só dois tons, e os espaços escuros. Pensei "Essa árvore não pode ser comum", apesar de que fosse, não era. Porque na frente dela, em plano mais baixo (em relação a árvore) e em plano mais alto (em relação ao público), estava montado um palco com uma camerata. 

    Eles executavam músicas que tocariam qualquer um por ser o que são, por suas idas e vindas, pela emoção que produziam. Mas tocavam mais ainda aquele público, presente por gostar dos filmes para os quais as músicas foram compostas, filmes que em sua narrativa e visual já conseguriam encantar.

    Entretanto, estes são filmes produzidos por um homem que soube fazer o papel de um grande artista: Exprimir sentimentos que existem em todos nós, mesmo que nem sempre lembremo-nos deles ou sequer atentemo-nos, mas, este homem foi capaz de colocar nestes filmes, de forma nunca antes vista (por mim) tais emoções e climas (aqui colocados no meu entender do que é um clima).

    O fato de uma musicalidade deliciosa estar associada a um trabalho audiovisual tocante já seria o suficiente para que, ao serem transportadas estas músicas para o real, no tocar de um violino, e vários outros instrumentos, e ao trazerem, no reger do maestro, do imaginário para o presente um pouco do mundo aqui descrito; aquela árvore se transfigurasse numa coisa especial. Porque basta uma simples luz amarela apontada para ela, para que uma árvore nessas condições sofra a transmutação mágica do encontro do real com o fantástico. Da suspensão do tempo. 

    Mais que isso para mim. Esses filmes me foram apresentados numa época especialmente delicada. Um deles me fazia dormir todas as noites quando nada mais conseguia. Outro, me inspirava a tentar tirar esses sentimentos da tela para fora. As narrativas que eles criaram dentro de mim se misturaram de tal forma com o que é especial que eu não pude conter um leve arrepio nos lados da nuca e algumas lágrimas que escorreram enquanto eu ouvia, naquela praça, no meio de uma cidade que tanto me fez mal, um pouco do que também me cura. 

    Naquele palco eu vi meu passado, vi o que se esconde em mim fora do tempo e me faz bem, vi o que busco e o que temo. Vi uma tentativa tímida e corajosa de unir tecnologia e música. Vi que não é preciso muito para fazer o incrível, mas que é preciso estar atento para se jogar nele. Quis estar presente. Tirei os óculos para enxergar o real. Fechei os olhos para ouvir o real e imperfeito mas que me servia tão bem. Por tão pouco quase deixei tudo aquilo escapar. Pensei: O quanto a gente subestima a cultura... 

    Quando, ainda este ano, vi uma frase do célebre Sociedade dos Poetas Mortos, não a achei tão real como agora depois da experiência de ontem: “Medicina, direito, administração, engenharia são atividades nobres. Mas poesia, a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais vale a pena viver”

    Vi mais naquele palco. Os ciclos, ou melhor, a linhas que conectam fatos e lugares. Vi o futuro de um dos meus amigos e também uma reflexão de como o Maurício de Souza vive numa realidade tão distante da minha, que só ontem entendi porque ele desenha roupas masculinas de um jeito tão específico. 

    Houve um momento em que veio para a frente do palco uma menina. Todo o tempo a mãe dela estava, com uma elegância cinematográfica, guiando e apresentando a sequência de músicas da camerata. Ela (a mãe) usava uma blusa preta de manguinha, elegante e delicada, com um tecido suave e brilhoso. Uma calça preta opaca, com a mesma elegância da blusa (não poderia aqui descrever detalhes de corte e costura, por isso uso esses adjetivos repetidos e deixo para que a imaginação do leitor preencha as lacunas), e um salto preto reluzente. Tudo em seu aspecto me lembrava roupa de loja, o que me traz uma sensação ruim com suas problemáticas, mas inserida em tal contexto me trazia outro clima. Uma elegância de apartamento (outra vez, use a imaginação para entender, porque eu escreveria um texto inteiro associando o que a roupa daquela mulher me causou). E havia em cena, agora, a sua filha com um vestido rosa liso e uma meia calça discretíssima. Não lembro dos sapatos. 

    A menina, de treze anos, estava cantando uma música linda que eu não conhecia. Ela tinha os ombros um pouco curvados, a respiração um tanto descontrolada e um sorriso de aparelho muito característico da idade. O seu nervosismo era na medida conveniente. E eu encarei aquelas duas em cena, mãe e filha, como uma representação do passado e do futuro. O que uma mulher é, e o que pode se tornar. A leveza no rosto da filha era despretensiosa, e no rosto da mãe havia uma leveza amadurecida. Uma graciosidade que mostrava confiança e experiência. "Acho que a mãe dela escolheu esse vestido", e pensei sobre como ela estava entrando num mundo que não era dela, e onde talvez escolhesse ficar. O mundo é violento. Mas a gente faz o possível para encantar e se deixar saudável. Pensei na mulher mais velha "Como ela chegou ali? O que ela passou pra ser como é?" ela não parecia sofrida. 

    E ao final dos aplausos, como um aceno de cabeça do universo às minhas observações silenciosas, a menina fez menção de descer pela frente do palco, ao que sua mãe disse, com um tom muito fofo mas ainda elegante: "Não, não, não, por trás" e terminou com um "Tudo bem", bem conformado quando a menina desceu pela frente do palco assim mesmo. 

    Saí meio chateada por ter que voltar para a minha vida normal depois de um momento tão bom. Embora a vida seja cheia de momentos ímpares que aparecem de repente. Pensei outra vez em como subestimo o potencial de tais oportunidades, em como as deixo passar. Esse pensamento foi reforçado quando, passando por uma loja de quadrinhos mais tarde na mesma noite, me deparei com várias referências que eu gosto, ou gostaria de conhecer, e lembrei de como me empolgo com esse mundo do qual me afastei. A cultura pop (e a popular), a arte, os animes, os quadrinhos, revistinhas e artistas da internet com suas tirinhas, artistas da cidade com seus climas de bairro do limoeiro ou de mesa de bar, violência e putaria numa coletânea que eu poderia gostar... Se tem um rumo pra seguir é esse. O rumo que eu sei que funciona, de se deixar ser tocada, de nichar, de cavar mais fundo no que eu arranhei e gostei. Permitir que a identidade do presente seja a nostalgia boa do futuro. 

    E tem as companhias. A amizade deve ser justamente apreciar os acréscimos que cada personalidade faz num momento ímpar. Ver meus amigos chorando ao ouvir o tema de Túmulo dos Vagalumes e poder marcar de assistir muito em breve. Desejar a presença de alguém que eu queria que pudesse se emocionar junto com a gente. Voltar pra casa discutindo sobre acesso a cultura e sobre razões pra existir. Rir e se sentir segura. Tudo isso, só uma parte interessante do todo que foi essa noite de ontem. A vida é muito cheia, e no vazio (ou na oportunidade, no espaço) as coisas que enchem acham lugar pra escapar e se mostrar. Cabe a nós tentar ver.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Curtas 14 - Reflexões cotidianas antes de dormir.

De repente a infância parece muito distante. E as memórias que me compõem se tornaram lembranças em terceira pessoa.

É por isso que a vida não pode ser descrita em palavras. Porque ela contém tudo aquilo que já foi, mas também o que virá.

Mal compreendemos o que se passou, já não acessamos conscientemente o quanto isso faz parte de nós. Não somos capazes de, num cálculo rápido, dizer quanto de cada registro se dissipou ou se alastrou pelo nosso ser.

E logo se vê:  não somos capazes de compreender o que virá, porque ainda não veio.

Usamos as palavras para definir o devir, o inesperado, o cotidiano, a passagem do tempo. Mas cada coisa dessas combinada e sentida é arte pra além das palavras e dos búzios. 

Acho que foi Solange Roza quem disse, mas posso estar enganada:

"A essência de ser, é fazer. Acontecer, no entanto, é a essência do encanto."

Coisas como a vida e a morte são grandiosas nas telas e nos textos, mas existem. 

E por existirem não são menos grandiosas, mas de tal modo arrebatadoras e empoeiradas, que nos desafiam a descobrir seus propósitos numa madrugada de terça pra quarta feira, onde tudo parece como sempre esteve, e eu penso em significados ocultos. 

Busco me reconectar com a realidade antes que seja tarde demais. Antes que esse quarto um dia vire lembrança, sombra, ou pior... Desejo daquilo tudo que não fiz. Da fantasia não vivida. 

Se permanece fantasia me arrependo. Guardada na memória como um desejo vago.

E os desejos vagos, arrependimentos, me impelem a arriscar. A controlar um pouco mais o músculo que age.

Mas mal nenhum me faz quando confrontada com a realidade. 

Na coleção de lembranças que um dia foram fantasias e depois foram realidades eu vejo o que tem de mais bonito em mim. 

A coragem de falar com aquele cara misterioso com a unha pintada de preto, que todo mundo tinha medo.

A felicidade de passar na faculdade, e ligar pra mãe no meio da noite dizendo que não é questão de paciência porque eu passei. (Tem algo de um filme que gosto nisso.)

O prazer de ter fotos em que me sinto linda.

As primeiras vezes, e as segundas vezes que pareciam primeiras. 

Memórias que eu guardo e resgato, mastigo e acarinho. Memórias de quando ser corajosa parecia mais natural, e viver parecia mais simples. Ou eu só não tinha pensado sobre isso ainda.

Poderia esticar a conversa, mas estava prestes a entrar num papo de impressões e sentidos que só existem na minha cabeça e nem eu entendo muito bem, e de qualquer forma já ficou muito tarde e eu acordo cedo amanhã. 

Não sei porque me vem na mente agora a imagem de uma menina que eu não gosto.

Isso não é um tipo de indireta sobre mim mesma, é realmente uma pessoa que eu não gosto e agora estou vendo o rosto dela. Pelo menos é um rosto agradável.

Definitivamente passei da hora de dormir.






quarta-feira, 20 de julho de 2022

Insone, contemplo minha musa.

O vento que corre fora da janela e atinge meu rosto por entre as grades é tão frio quanto o do ventilador aqui dentro. 

Contemplo a paisagem e meus pensamentos, por mais que se deparem com os mesmos temas confusos de antes, não me despertam sentimentos ansiosos. Tenho cautela pra não pegar pesado demais. 

Passam pela minha mente, vagamente puxados por uma e outra recordação. As luzes lá no fundo parecem estrelas. Ou cruzes brilhantes de túmulos. Ou luzes de naves espaciais ou uma cidade bonita num jogo. 

Tem algumas coisas que quero pensar, percebo que não vou concluir nada agora. Quantas vezes já fiquei nesse mesmo estado de contemplação em outras janelas que agora mal me vem na memória? 

Mas tem uma coisa que não quero esquecer. É essa ideia. A de que me faz bem estar em vários lugares. Pode ser desconfortável não estar acostumada e ter que se adaptar. Mas essa diversidade e as possibilidades são a riqueza que quero. Não posso esquecer de que quero estar assim. Quero ter espaço, lugares pra ir, coisas pra ver, noites pra curtir e principalmente pessoas interessantes e confiáveis ao meu lado.

Outras coisas surgem. Porque escutar mais a certeza de alguém do que a minha? Lembro dela e ela é meu contraponto. Lembro dela que não tem culpa e talvez não tenha sentido quase nada, mal imaginando o que representa pra mim. Um pivô que involuntariamente acendeu temas tão quentes na minha vida. E eu vivo me esgueirando da chama. Mas eu precisava. E tenho medo. Devia agradecer a ela depois, só que sem que ela perceba. Ela provavelmente nunca vai saber o que significa pra mim. 

Eu queria me segurar em algo. Queria ter uma certeza sequer que fosse plena e imutável, e que fosse boa e um acalanto. Mas o que eu tenho são dúvidas e certezas ruins. Não tem idade nem confiança nem preparo que me deixe pronta pra tudo. E eu não tô pronta pra um monte de coisa também. E pra algumas nunca estarei.

A cidade dorme e eu tenho insônia. Quero voltar a ler mas a minha narrativa me parece a mais interessante. Olhei as estrelas mais cedo e não consegui identificar constelação nenhuma. De onde vem as estrelas cadentes? Eu sabia que não precisava de uma pra saber meu pedido. Eu quero ser feliz com o que eu fizer do futuro. Provavelmente eu vou ser e isso deveria ser bom. Mas me incomodo que não vou ser feliz do jeito que eu tô agora. Com essa casa e essa vida que é uma visita/vista e não uma vida. E deus me livre que fosse essa a minha vida o tempo todo. Porque eu ia saturar até das coisas boas quem sabe?

É engraçado como as fases passam e eu me adapto aos cenários e descubro como estar bem neles. Nem sempre rápido como gostaria. Mas agora estou mais tranquila do que estive no último ano. 

Ainda cheia de contradições. As escolhas parecem todas erradas. Parece tudo inseguro demais. Tudo parece que descamba no mesmo balde que é o fracasso. E no meio disso tudo um pensamento louco de me entregar ao fluxo da vida mais caricata que eu consigo pensar pra me agarrar a uma segurança que nem existe.

Aqui olhando pra minha musa quieta, monótona, segura pra mim. O cheiro dela está todo mudado. Eu olho pra ela e não sinto nada especial, mas é justamente o não sentir que eu buscava. Ele subentende segurança, tranquilidade, aceitação. Ela me isola do resto do mundo, essa musa. 

Se aquelas folhas balançarem um pouco mais devagar eu não vou conseguir ver. E vai parecer que eu parei no tempo. 

As coisas aqui as vezes me lembram a cidade de quando eu tinha seis anos de idade. Que ironia porque elas tem o mesmo nome. Hoje, por um breve momento, me lembrou de um jeito ruim. Mas eu não tenho mais seis anos. Infelizmente tanto pras coisas boas quanto pras ruins a gente constrói significados desde pequena. Eu tento destruir os sentidos ruins às vezes. Dissecar e entender. Mas aí os bons ficam parecendo frágeis também. Sentidos... Nem sempre dá pra controlar como as coisas chegam. Nem sempre dá pra controlar como se reage a elas. Eu agradeço a calma. Agradeço sempre que noto.



quinta-feira, 28 de abril de 2022

Blogs, climas e uma conversa que ficou pelo mei do caminho.

Descobri hoje que um dos blogs que via na adolescência, e eram tão poucos que eu sempre considerei um site e não um blog, acabou há dois anos e eu não estava sabendo. Pesquisando sobre ele entrei um pouco em contato com o climinha de blog dos anos 2010, lembrei do blog da minha prima que pra mim é uma eterna relíquia do clima de jovem cool alternativo que me causava tanta admiração na época, e que me causa um certo conforto hoje. Uma mistura de imagens de sonhos e lembranças da pré-adolescência, comerciais de tv, cores de parede, jogos... Compõem esse clima que me refugia, que me alivia em momentos de angústia e que eu desejo mas não corro atrás realmente. 

Sempre que faço uma casa no the sims 2 eu tento recriar esse clima, esse cantinho utópico que fiz na minha cabeça. Uma das imagens que sempre me vem é a seguinte: Tem um grupo de jovens num espaço, como a frente de um prédio público de tijolos aparentes, a calçada é de tijolinhos, é noite. A luz amarela do poste ilumina e uma árvore enorme faz jogo de sombra. Toca charlie brown jr. e tudo é perfeito. Todas as emoções da cena "real" são ignoradas, as emoções dos personagens não interessam tanto quanto a segurança que esse cenário me passa. 

Na época em que eu me sentia muito perdida e assustada e não conseguia dormir, eu ouvia as aberturas de naruto e lembrava da minha cidade e esse clima me refugiava. Hoje quando sou perseguida por um monte de sentimentos estranhos e ruins que não sabia ser capaz de sentir, eu ainda recorro a ele vez ou outra. E mesmo quando estou bem, é uma nostalgia gostosa. 

A noite fica bonita nos olhos da minha imaginação. Livros, praças, janelas, céus, árvores e postes de luzes amarelas. Puxam outros climas bons. Puxam o céu preto com estrelas e a rua enorme de areia. Puxam os vasos pendurados no corredor e a voz de uma mulher, que poderia ser minha avó, cantando enquanto acordo vendo as luzes das telhas. Puxam as minhas noites ouvindo abertura de malhação. Puxam o cheiro de salsicha frita e de frango cozido. Puxam rolos de linha e imagens de jesus. E puxam outros climas fictícios (e não seriam todos? inventados, mudados pelo tempo, reinterpretados, romantizados?). 

E o cotidiano me puxa. O cheiro da fritura, o gosto do frango, o cheiro de um perfume ou cortes e cortes de pensamentos e climas rápidos, que me deixam muito mal. O texto não era sobre isso. Isso era pra outro texto que eu estava pensando em como escrever. Um texto que começava com algo do tipo "às vezes parece que eu parei de escrever pro blog pra escrever na agenda da terapia".

E lá pelo meio do texto eu escreveria algo como o incômodo e a tristeza que me deu outro dia quando lembrei que eu nunca quis ser uma daquelas pessoas com a boca repuxada pra baixo de tristeza. E o quanto foi ruim perceber que não sou mais a pessoa feliz que era antes, ou não tenho sido nos últimos meses, ou anos... Não quero perder a futura marquinha do meu sorriso antigo. E pensar nisso me deixou ainda pior.

O clima é uma junção de pensamentos, de crenças, de emoções que foram vividas e de expectativas e de conformidades. Tudo isso embolado, jogado, causa uma sensação. Tenho tentado desembolar os climas ruins da minha cabeça, entender pra desfazer. Como desfazer os ruins e não os bons? Como lidar com coisas ruins?

Minha sogra acha que o ano está passando rápido. Eu também acho e ao mesmo tempo tive semanas que duraram meses. E os últimos dois meses poderiam facilmente ter sido seis. Teve uma semana em que a semana anterior me parecia uma outra vida. Teve uma terça em que a segunda anterior me parecia uma outra vida. Teve uma segunda em que o beijo que eu dei as quatro da manhã parecia nunca ter existido às cinco da tarde. 

Tem dias que são mais fáceis que outros. Tem manhãs que são melhores que as tardes. Tem tardes que são menos ruins que noites. Tem noites que são melhores que as manhãs do dia seguinte. 

No começo do ano as coisas e lugares que me deixavam ansiosa agora me dão conforto. E lugares que me davam conforto me deixam ansiosa. Concluí que dadas as mudanças de contexto, as curas e as pioras, mesmo com essas diferenças tem uma coisa que tem que se ajeitada dentro de mim. Parece que o músculo de sentir andou quebrado e eu não consegui consertar ainda. Talvez sempre estivesse e eu não percebia. 

Tanto faz, eu faço terapia justamente pra não precisar ficar expondo publicamente todo o tormento da minha cabeça. Então vamos voltar ao tema do blog, mas antes de encerrar o assunto, eu queria dizer que no começo da pandemia eu ainda me achava a pessoa mais feliz, sã e livre de problemas que eu conhecia, e achava até injusto. Pois bem, a conta chega. 

Então, voltando ao lance dos blogs. Agora acabou o clima e acabou o assunto. Depois apareço e falo mais sobre. Nem tem tanto pra falar. No auge dos blogs (ao meu ver) eu tava jogando club penguin. 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Devaneio na janela de um dia cheio.

Conversas, encontros e movimentos. Música. Enchem meus olhos, desafetam meu coração pra novamente afetar. Me esperançam, me alegram, enchem minha mente de rimas e de sentidos. As garças no lodo e a segurança, engenheiros no fone, a bandeira do brasil tremula no céu estático e calmo. A polícia corre, luzes de sirene, faróis de carro, o concreto se levanta e corre pra trás. Toca queen: "having a good time..."


A tarde cai tranquila e eu me desloco através dela, acompanho o vôo dos passarinhos, minha mente ultrapassa a todos nós. Um papai noel moderno e solitário caminha. A estrela me persegue, quero saber o nome da sua constelação. Ou será um planeta? 


Don't stop me now, cause I'm having a good time, I don't want to stop at all. Lalalalala....


O mototaxista conversa com a boca e com as mãos, a natureza me lembra uns três climas diferentes e bons, um cachorro olha o nada, dois ciclistas carregam suas bicicletas, eles não se vêem. Um coqueiro faz vigília pra todo o resto lá atrás, uma mãe ajeita o cabelo da filha, a filha anda e ajeita o short. Uma moto parada sozinha. Casinhas e um casal. Passam pessoas, passa a luz amarela tranquila. As pessoas conversam enquanto a luz tranquila da tarde desliza.  Passo num bairro em que ja morei, acho que acabo de passar minha antiga rua, dessa vez estou na janela certa pra ver, mas sempre é rápido demais pra que eu tenha certeza.


Confirmei no mapa, era a rua certa. Vejo coqueiros, lembro daquele coqueiro, lembro da minha infância, é impossível não voltar pra ela nesses momentos, escuto uma música tão boa e tropical, a decadência da cidade me incomoda, as luzes me fascinam. O movimento do trânsito parece natal. A polícia ainda corre lá embaixo. 


Lembro de cheiros que já não posso sentir, ouço idosos falando das mães, do que elas diziam. Lembro de novo da minha infância, e choro porque é bonito, confortável e parece que sempre houve e sempre vai haver. E nunca houve de fato, porque se mistura com outras luzes que passam sempre na minha memória. 








segunda-feira, 3 de maio de 2021

Memórias do Vale do Curtume.

Como falei no post anterior a escola, a segunda escola em que estudei, por volta dos quatro e seis anos, merecia um espaço para si. Desde aquela época meus pais me deixavam escolher a escola em que queria estudar. Tinha o Vale do Curtume e a do Tio Patinhas. Não sei se era porque não me interessava por mickey ou se o brinquedo de rodar na entrada me conquistou, mas fiquei com a primeira opção. Tenho memórias valiosas daquela época. 
A escola era composta de dois prédios. Um deles era onde eu estudava, o infantil. Lá aprendi a escrever meu nome usando uma ficha de papel marrom onde ele estava escrito. Era o maior nome da sala e o único, até onde sei, que precisava de abreviação. A minha sala era uma das primeiras da escola. Ali vi no dia do meu aniversário uma colega escrevendo na minha agenda, perguntei o que era e ela desconversou, depois vi várias assinaturas me desejando feliz aniversário. Acredito que tenha essa agenda até hoje, embora não saiba dizer onde. Naquela sala, diz minha mãe, embora eu não me lembre, eu apontava os lápis de todos os colegas. Eu tinha uma professora maravilhosa que parecia mulher de filme com um cabelo pra cima. Essa professora me deixou ser a chapeuzinho vermelho no dia da apresentação, e o lobo mau era o filho dela, usei meu vestido vermelho com capuz. 
Depois da minha sala haviam outras, uma delas usávamos para ver filme. Depois tinha a cantina, lá eu ouvi a palavra "catinga" pela primeira vez e não fazia ideia do que era. Pertinho da cantina tinha a piscina e banheiros. Ali eu vi a menina menor que a gente que era brava e mordia todo mundo (eu ainda não sabia mas viria a me tornar alguém violenta alguns anos depois). Na beira da piscina vi uma lombriga, ou uma minhoca, uma vez. Mas pra mim era lombriga, toda esbranquiçada no chão molhado. 
Ainda na piscina, numa aula extraclasse em que fomos pra tomar banho (eu sempre me senti estranha com esse ar de piscina, nunca me acostumo) eu não entendia porque a professora dizia que eu era mimosa. Pra mim ser mimada era algo ruim, então lembro como fiquei confusa. 
Entre as salas e a cantina tinha a escada azul para o primeiro andar. Lembro bem dessa escada por dois motivos. É que o primeiro andar era onde ficavam as salas a partir da alfabetização, e no dia que entrei pra esse ano vi alguns meninos (acredito que o carinha que era meio bully) dizendo que eu não deveria subir as escadas e me lembro de alguém dizendo que minha série agora era lá. Uma dessas infladas de ego. 
Mas o segundo motivo é que eu queria subir essas escadas a muito tempo por causa do menino que eu gostava. Ele estava sempre uma série a frente de mim, era superdotado e a gente se dava bastante bem. Não lembro bem dele, mas lembro de quando subi ao primeiro andar, e uns meninos da alfabetização encurralaram nós dois no espacinho onde colocavam os produtos de limpeza. O líder do grupinho (o menino bully) era também sujeito de filme, enorme com os ombros largos, branco do cabelo liso e mal encarado. Disseram pra gente se beijar e eu jamais poderia esquecer do meu primeiro beijo. A forma como o sol entrava, talvez por cobogós, e iluminava aquele espacinho azul e apertado, e a forma como demos um primeiro beijo marmotoso, pode até ser esquecível com detalhes mas é inesquecível como ideia. 
Quando eu pude subir pro primeiro andar ele tinha sumido. Pulou uma série e estava estudando no prédio em frente, para o fundamental. Nunca mais o vi, exceto ano passado quando o encontrei no facebook. Não o reconheci, mal o reconheci pela foto antiga do jornal. Acho que algumas coisas ficam melhores como ideia. 
Aliás, lendo o jornal eu percebi que ele me deixou porque achava a série muito fácil, então eu comecei minha vida amorosa de um jeito bem engraçado, porque o primeiro cara que eu era afim me largou sem pensar duas vezes.
Ainda hoje estava me perguntando: Será que as pessoas pensam igual a mim? Será que elas se lembram as interações e as conversas que tivemos quando crianças? Parece que tudo se perde tão rápido... E olhe que eu esqueço coisa pra caramba. 
Pois bem, esse cara não era o único de quem eu gostava, embora fosse o único com quem eu tinha um lance. Tinha um menininho (até onde é ético eu dizer os nomes das pessoas aqui?) que eu achava bem bonito, e era do meu ano. Eu gostava tanto dele que queria o mesmo tênis da hotwheels que ele. Meus pais não compraram. Acho que quando tomei vacina e fiquei de cama vários dias por causa dos efeitos colaterais -- não podia mexer sequer um dedo porque o corpo inteiro doía --  ele foi um dos que também ficou. 
No pátio da escola, o pátio externo, era onde havia o mini parquinho. Eu tinha colegas bem patricinhas e elas se davam bem com uma menina de rabo de cavalo que andava com um menino baixinho. Todo mundo era meio legal e meio nojento, mas esses dois últimos eram mais nojentos mesmo. Lembro do menino baixinho se exibindo enquanto girava bem rápido o brinquedo onde estávamos, não sei como se chama, mas deve ser algo tipo, gira-gira ou roda-roda, hehe. Andar com essas meninas, como eu viria a descobrir, com a maioria das meninas de escola particular, é complicado. Um dia elas eram minhas amigas e no outro não, e eu não entendia. Foi com elas que aprendi a falar "hellôo" e "bunda". 
No pátio também haviam alguns eventos, no dia do circo eu fui a equilibrista e andei em cima de um cabo de vassoura na frente de toda a escola. 
Eu estava descobrindo o mundo, e na entrada conheci uma mulher chamada "Lia". Foi a primeira pessoa com nome tão pequeno que conheci. E até hoje sigo no instagram uma das responsáveis pela escola porque o sobrenome dela era "Marinho", que nem azul-marinho. 
Os nomes das minhas próprias colegas eram diferentes, tinha uma "Larydsa", e uma professora chamada "Tcheska", sem falar no "Cíntia", que me lembrava cinto.
Às vezes íamos a escola em frente, o mesmo colégio mas o bloco do ensino fundamental, e utilizávamos o ginásio. Quantas memórias... No dia do aniversário da escola eu não queria ir para o prédio (a única lembrança que tenho de ter entrado lá) e as professoras me fizeram ir prometendo que teria sacolinha, mas eu sabia que não teria e não teve, mas não deixei de cobrar por isso. No ginásio ensaiávamos as apresentações, até hoje toca na minha cabeça um grupo de vozes falando "xaxado, xaxado...", e me vem a imagem do lugar. (Acho que acabei de achar o vídeo dessa música). Lembro vagamente de marcações no chão para um dos ensaios, e também do dia em que entramos pela porta lateral que dava no quintal de uma casa, cheio de árvores como uma floresta. Foi num dos eventos nesse ginásio que vi o dito cujo menininho que eu gostava pela última vez. Vi ele de relance e depois não o achei mais. Sempre que ia lá via o prédio da escola ao lado.
Ainda no ginásio foi onde apresentei a chapeuzinho que já mencionei, mas também apresentamos a música do trenzinho da xuxa. Não lembro bem da apresentação em si mas sim de ir com minha mãe até a costureira para fazer minha roupinha de maquinista. Acho que ainda tenho a boina vermelha. 
Mas as melhores noites eram as de são joão, porque meu aniversário é em junho. Uma das vezes estavam fazendo a roda e a professora gritou "e viva santo antônio!" E todos disseram "VIVA!", ela falou "viva são joão", e todos "VIVA!" e ela arrematou com um "e viva madalena!!" A maioria ali provavelmente não entendeu o terceiro viva, mas eu sim, e adorei. Também lembro do meu pai reclamando com minha mãe sobre usarem porcos em um dos joguinhos. E lembro de mim, na arquibancada no colo da mãe, com muito sono e vendo uma estrela lá longe no céu brilhando e mudando de cor. Eu fiquei com medo por isso fechei os olhos.
Num desses eventos havia um cara bem estiloso, provavelmente músico, que usava roupa e esmalte preto. Meus amigos e eu tivemos medo dele, mas eu, corajosa desde sempre, fui até lá pra conhecê-lo e minha mãe até tirou uma foto. Acho legal porque na época as fotos eram com máquina e filme, e aquela é a única do dia que tem uma mancha amarelada, problema na foto ou na revelação, mas que preserva através dos anos a aura diferentona que o cara tinha pra gente. 
O mundo aos meus olhos de quatro anos não parecia incompreensível. Pelo contrário, embora não entendesse tudo eu sentia e via as coisas, tomava decisões e tinha pensamentos lógicos. Eu era consciente. É engraçado como vemos crianças e pensamos que elas simplesmente não se lembrarão dessa fase no futuro, ou que são meio bobinhas. Mas embora a gente expanda a compreensão com o passar do tempo, e também a expressão, criança vive, descobre e funciona. Eu lembro como tinha convicção de ser tal qual tenho hoje. Eu era eu, e vivia de acordo com o que eu queria. O que quero dizer com isso é que eu não vejo a Madalena de quatro anos como uma pessoa portadora de opiniões bobas, eu valido tudo que sentia naquela época, e mesmo com o discernimento de hoje, não acho que eu fosse de forma alguma uma pessoa ruim, logo, se pudesse voltar aquela época, provavelmente teria vivido de forma semelhante, embora provavelmente inúmeras situações que eu não lembro, não compreendia ou sequer percebia hoje eu entenderia. 
Não tenho certeza se a lembrança que tenho de um mimeógrafo é dessa escola ou da creche anterior a ela, mas acredito que seja dessa, lembro do cheiro forte da tinta e da professora girando a manivela para copiar as atividades numa tinta azul/roxa escura.
O mais engraçado é que muitas das memórias que aqui narrei vem a mim em terceira pessoa. Mas uma que vem em primeira pessoa sou eu sentada no banco da topique, na porta da escola, escutando mc léozinho. 
"Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar. E vem comigo dançar. Dançar, dançar, dançar."
Eu meio que me via na letra.
Gosto dessa música porque me lembra essa época, as anteriores e posteriores. Me lembra minha casa e minha vizinhança de forma atemporal. Inclusive estou ouvindo ela agora.
"Se ela dança eu danço, se ela dança eu danço. Falei com o dj!"
Não lembro muito da topique. Lembro que o motorista era negro e eu achava que ele era o pai do menino que eu gostava (só que o menino é meio que branco?) E também lembro do fatídico dia em que estávamos passando numa parte elevada da pista que dava vista para a locadora em frente a pracinha. Meu olho bateu na seção de filmes de terror e eu tive um dos meus primeiros medos realmente grandes. Passei a ter medo de lá. Era uma distância grande demais pra eu ter de fato identificado algo, inclusive posteriormente fui com minha mãe na tal seção e vi as capas dos filmes, nenhuma me meteu medo como o que eu vi de longe. Mistérios da vida. 
Outras músicas que tocavam, talvez no rádio da topique, talvez na rua, eram Festa no Apê, do Latino, que eu não entendia nada (e demorei a entender a letra e o significado do tal bundalelê, inclusive eu ouvia "tem siri até amanhecer"), Tremendo Vacilão, da Perlla, e Cachorrinho, da Kelly Key. 
Por hoje é isso. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Gente da parede.

Uma vez meu avô me chamou na varanda e, olhando fixamente para a parede em frente, me perguntou porque não conseguia desenhar se só ele podia ver. Talvez você não conheça o meu avô, mas quem conhece sabe que muitos anos atrás ele pintava montes de rostos na sua parede de tijolos. Rostos que só ele via, formas. Deixo abaixo o registro do legado dele, porque a neta deu pra ver também:



[pausa pra me organizar para a boa escrita, isto é, ir deitar]

Pois bem, eu respondi ao meu avô algo como o fato de só ele ver não dar a ele a habilidade de reproduzir (se não disse antes, acrescento agora, que ele não possui aquilo mesmo que só ele veja). Dei o exemplo da paisagem, posso ver, (posso estar sozinho, pode ser um evento único) mas isso não me dá habilidade técnica pra reproduzir. Por isso o jeito mais simples é mesmo contornar de tinta essas pequenas formas humanoides e deixar que vivam para os outros também. 
Mas o desenho não é a única forma de se aproximar das formas. A doze anos atrás eu estava me mudando, e entrei pela primeira vez no banheiro da casa nova. 

A madazinha criança sentou no vaso sanitário e, olhando a parede que ficava bem próxima, coberta dum azulejo salpicado de verde lodo de praia, verde vintage e branco, deu de cara com uma caveira. Com medo de ter medo da descoberta tratou de se enturmar logo com ela.  E sempre que ia no banheiro puxava um papo com a caveira que ficava em frente. Ela não ligava pra essas coisas do lado de cá da parede, e eu tampouco compreendia o que se passava do lado de lá. Mal me recordo das conversas pois eram todas leves, acredito que falava do meu dia, fofocava de algum pensamento. Pra caveira tudo estava sempre bem. Um dia me mostrou sua família. Quem diria? A caveira vivia com a companheira e dois filhos, um menino e uma menina. O menino, se bem me lembro, usava boné, e a menina lacinho cor de rosa, embora só se enxergasse verde. Curiosamente todos se pareciam demasiado com o pai, e não conseguiam falar comigo todos juntos, era um por vez. 

Nunca apresentei a minha família pessoalmente para a caveira do banheiro, mas se lerem esse texto vão conhecê-lo indiretamente. Nem me recordo, mas desconfio que me despedi deles quando fui embora daquela casa, eram bons amigos. 

Olhar a parede é como olhar pras nuvens, pela minha experiência uma parede manchada, úmida ou mofada é mais cheia de vida do que aqueles algodõezinhos flutuantes. Eles são muito bonitos sem forma, e vivem mudando, embora isso renda uma narrativa aqui ou ali. A parede demora a mutar. Quem vê pode acessar muitas dimensões, mas a imagem permanece estática. 

Agora encontrei um outro amigo de banheiro. Amigo não, uma conhecida. É uma bruxa. Só aparece a noite quando estou escovando os dentes e tendo ideias. Ela não fica na parede, mas no teto. Hoje estava dando uma boa olhada e acho que talvez pareça mais uma caveira ou um rosto meio deformado do que uma bruxa. Afinal ela não tem chapéu nem vassoura. Mas se me disse que é bruxa eu acredito. Se espreme entre os caibros e fica olhando o movimento. É de poucas palavras. Pensando bem nunca me dirigiu nenhuma. Talvez eu esteja ficando velha e perdendo a habilidade de chegar nel


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Um homem e uma pá de áudios.

 É bom refletir sobre as trivialidades da vida, e sobre aqueles pensamentos ocasionais que a gente deixa vir e se esvair mas constantemente retornam. Estava aqui lembrando de um caso e digo que descobri o quão importante foi um certo alguém... Mas vamos a história. (Para surpresa de ninguém, estava pensando nisso enquanto escovava os dentes, logo antes de me deitar. A mente parece que prevê o momento de relaxamento e já engata a quarta marcha.)

Algum tempo atrás eu o conheci. Através dele aprendi sobre sensações, organização, responsabilidade, dissimulação (ou tranquilidade), capricho. (Talvez você queira reler essas palavras com mais consciência, pois amontoadinhas assim a gente acaba não percebendo bem o peso delas). 

Era uma pessoa ímpar, dessas que aparecem em sonhos e parecem saídos de um. Nunca o compreendi. Até hoje não compreendo. 

Percebi que essa pessoa influenciou de forma direta meu futuro. E ela sequer pareceu se importar quando eu estava pra tomar essa decisão. Eu também não me importo que ela não se importe, na verdade.  Era um homem de ideias radicais e fortes. O temperamento forte também se escondia sob uma máscara impassível. Máscara mutante. Incompreensível para mim. 

Um dia ele me decepcionou. Não profundamente, mas me deixou encucada. E decepcionou um amigo em comum que também me ensinou muito. Mas, algum tempo depois os dois voltaram ao normal, e eu que já não entendia nada fui tirar a história a limpo.

Pois bem, meus amigos. A resposta veio, se bem me lembro (não lembro) depois de alguns dias, em forma de vários áudios. E eu deixei pra ver depois... Perdi os áudios. Não lembro se uma ou duas vezes e perdi a coragem de pedir de novo. Até hoje sem entender a história e curiosa pra saber como se resolveram.

Moral: ouçam os áudios dos seus amigos.