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sábado, 27 de janeiro de 2024

Daqui a dez anos eu espero estar mais confortável.

Dentre as falas clássicas do meu pai está "Como será que a gente vai estar daqui a dez anos?". A resposta em geral sugere um futuro de esperança em meio ao caos político/social/econômico/tecnológico. Às vezes busca explorar marcos da vida dos familiares. 
Hoje, sentada de frente ao computador olhando fotos antigas, pensei: nessa época eu não me imaginava de frente pra um computador. Mas, daqui a dez anos, neste dia e neste horário, (quarta-feira, 25 de janeiro de 2034, próximo às uma da tarde) provavelmente eu estarei sentada de frente pra uma tela.
Pode ser a tela de um celular transparente e flexível, de um computador que rode The Sims 4 no ultra, do meu ambiente de trabalho ou estudo... Mas em algum momento deste dia em dez anos eu estarei de frente a uma tela, como estou hoje e já estive tantas vezes no passado. 
E ainda lembrarei dos programas de digitação que travavam em 2006, lembrarei dos textos que escrevi no blog em outras fases, lembrarei do wordart e dos arquivos do rpg no word digital. Lembrarei das montagens de foto no powerpoint, das contas no excel que até hoje não domino, dos trabalhos escolares no publisher. Lembrarei dos confortos e sustos nos emails, das correntes, dos spams, das retrospectivas. Lembrarei dos jogos, dos emuladores, dos pen drives, dvds e disquetes.
Daqui a dez anos, mexendo na minha tela, usarei o que aprendo hoje, e a memória do conhecimento adquirido puxará a história, puxará o momento em que aprendi, e reverberará vislumbres da minha vida. Saberei mais, e precisarei do que tenho sabido. E ainda vou ser uma menina com medo de me expor demais na internet, de perder meus arquivos, de baixar vírus. 
 
Daqui a dez anos, quanto tempo eu terei passado da minha vida como nas fotos que estava vendo? Sorrindo com a família na varanda de casa, meu irmão banhando no quintal, meus pais sentados embaixo do coqueiro. Eu cheia de mugango e toda posista. É bom relembrar pelas fotos. O bom para saber que fui feliz, o ruim pra saber que sou mais feliz hoje. Mais insegura também.
Eu tenho tirado menos fotos. Isso é bom porque eu me exponho menos, porque eu passo mais tempo aproveitando minhas companhias que posando pra fotos. 
Eu tenho tirado menos fotos. Isso é ruim porque eu tenho menos registros da minha beleza e das minhas mudanças, menos conteúdo pra postar, e menos lembranças. Minha memória não basta. E meu celular tem uma câmera ruim.
Principalmente, quantos momentos para fotos eu tenho tido? Quando viajei para São Paulo em 2021 quase todo lugar e look mereciam uma foto. Mas aqui na minha cidadezinha não merecem? Eu me visto pra quem? E pra onde eu vou? Eu não tenho aproveitado a minha cidade, e mesmo no meu quarto existe material pra lembrar, por estética e por memória. E eu não tenho produzido conteúdo disso. 
No fim, eu terei gastado tanto tempo em telas, que daqui a dez anos terei mais prints que fotos minhas, pois já não vivo tanto lá fora. É esse futuro que quero?
Não. Eu quero um futuro em que eu tenho fotos espontâneas e fotos montadas de momentos importantes pra mim. Eu quero uma rotina gostosa e mágica. E quando estiver vivendo, talvez ela seja menos mágica. A praia, a duna, o mato, a estrada de terra, os passarinhos cruzando veredas, as minhas amizades e nossos momentos. A minha intimidade, o medo, e as minhas liberdades. Não dá pra fotografar tudo, mas dá pra escrever. 
 
Eu necessito viver. Necessito fazer do meu tempo de tela algo valoroso, necessito viver mais longe delas, explorar o que resta do mundo, como diz O Rappa: o que sobrou do céu.
As pessoas se lembram do que chamam de magia da infância. Eu quero resgatar isso pra mim. Quão mágico pode ser meu dia a dia mesmo consciente? A arte parece essencial para o caminho. Um choque anafilático pra entreter, pra acordar, ambos. A música, a exposição interativa, o filme, o livro, o teatro, o poema. Me dão motivos para chegar ao fim do dia e me revigoram. Mas não quero viver só de arte porque ela é outra tela. Outro portal pra longe da vida. 
A vida só é vida de verdade quando é ordinária? Eu estou vivendo menos quando trabalho pensamentos de narrativa sobre os fatos do meu passado? Eu estou vivendo menos quando penso sobre o que fazer e filtros se sobrepõe no meu pensamento me fazendo sentir diferente por eles e não pelo que vou fazer? Eu estou vivendo menos quando me perco em pensamentos? Eu estou simplesmente ficando louca?
 
Me parece que todos os acontecimentos da vida são interpretados por narrativas modelo na minha cabeça. Existem momentos em que eu me sinto segura como nas histórias que eu lia na infância. O mundo parece um grande bairro do limoeiro que eu posso atravessar carregando meu lençol no meio da madrugada, até chegar na casa da Mônica. Ou então, como num sonho, ou nos filmes do Miyazaki, o mar parece cheio de magia, mistério e luz, como natal. Tudo se mistura. As impressões se misturam e se tornam sentimentos. 
Existe um outro conjunto de sentimentos, negativos, que se forma com frequência na minha mente. Amplamente visitado nos textos anteriores, é baseado em narrativas obscuras e experiências de solidão, e na cidade,,, profundamente representado pela cidade. 
E às vezes parece que a narrativa da cidade, a narrativa ruim, decadente e solitária, é a realidade. Acho que muita gente acredita nisso. Tal hora é isso mesmo. Mas não todas as horas... Existe realidade nisso, e embora me pareça ser a totalidade da realidade de alguns moradores da cidade, não é a minha. É só mais uma lente-narrativa-sentimento. Se sentir parte dessas narrativas afeta todo o resto.
Encaixo passado e futuro em narrativas várias, para além destas duas. O presente onde se encontra? Não pertenço a nenhuma linha narrativa sólida, nem a lugar algum, completamente. E quando vivo é tudo diferente, vivo e narro, narro e vivo. Narro diferente, esqueço a realidade. Esqueço que enquanto disparava pelas ruas de uma cidade litorânea, sozinha ou acompanhada, como protagonista de uma aventura; eu passava tanto tempo com medo, nessa mesma cidade que mesmo com toda a poesia não era capaz de me proteger da minha mente. Eu chorava de medo, chorava de coração partido. A vida nunca foi perfeita como parece hoje. Mas, quantos momentos de contemplação e lucidez que sei que existiram foram confinados no tempo passado?
Eu costumava olhar momentos assim e pensar que no futuro eu lembraria deles. Esqueci todos. Guardo-os para mim agora. Para mim de hoje. Na conta no dia do juízo deve servir pra alguma coisa. E antes disso, nos hábitos a gente manifesta o que a memória esconde.

Fim do ano passado vi algo sobre a passagem do tempo. Que ao dizer que eu ainda devo ter uns sessenta anos de vida, isso parece muito. Mas ao dizer que só me restam sessenta verões, isso bate de uma forma diferente. Pensei: e se me restam apenas sessenta viradas de ano?
Só mais sessenta festas de aniversário, se eu fizer todas. Só mais catorze copas do mundo. Quantas chuvas de meteoro? Eu nunca consegui assistir a nenhuma. Quantos eventos com meus avós? Com meus pais? E com meus irmãos? ("a gente só tem essa vida" foi o que ela me disse).
Já devo ter escrito, não sei se está publicado, sobre o tempo que ainda tenho com as pessoas. A tendência é viver menos com a família e mais sozinha ou com outros ciclos. Quantas horas eu ainda tenho de convivência com meus pais? E em quantas eu estarei no mesmo cômodo que eles, e consciente ao invés de ligada no automático ou perdida dentro da minha mente? 
Na juventude a velhice alheia nos alerta pra finitude da vida, antes da nossa. Eu não me preocupava tanto com o passar dos anos na faculdade ou em comparecer a todas as chances que tinha de ver meus amigos. Mas quanto mais eu penso, mais o tempo urge. 
Houve esse pensamento, que meu tio quem falou, a respeito dos anos que ainda temos com as pessoas. O outro, sobre quantos anos ainda temos, se olhamos em marcos. E há um terceiro, aquela famosa frase "um dia você se despediu dos seus amigos com quem brincava pela última vez, e nenhum de vocês se deu conta disso"; ou a versão moderna, o print de uma conversa de dois amigos se despedindo por um chat qualquer, e marcando de jogar no dia seguinte, tirado anos depois.
Existe uma pessoa que, especialmente, me assusta muito a ideia de ter as últimas palavras ou os últimos momentos. Ela me falou sobre a agonia de sentir que tem pouco tempo comigo. Tempo de vida. Na ocasião respondi que não podemos condicionar nossos eus futuro aos anseios presentes, especialmente quando eles podem ser resolvidos no presente. É o que diz Rita Lee: que espaço meu passado deixa pra quem eu sou hoje? Não sou escrava dele. 
 
Nada nunca parece suficiente, completo. Tudo é agridoce e tudo é confuso. As pessoas nunca parecem próximas o suficiente. De modo geral, acho que não gosto de ninguém realmente. Não sou capaz de sentir saudades, não sou muito leal nem cuidadosa. E cada dia mais me descubro pior. Menos empática, maios egoísta, mais maldosa, mais indiferente. Eu nunca sinto que meu afeto é suficiente ou verdadeiro, parece quase um papel interpretado (às vezes é necessário ser). Apesar de que eu queria ter mais a oferecer pras pessoas importantes pra mim. Eu queria sentir mais, e queria ser espontaneamente mais doce, mais carinhosa, mais emocionada, mais empática, mais devotada, mais responsável. 
Mas é isso que eu tenho e já é bom o suficiente. Não vou perder tempo podendo ter pelo menos um tanto de felicidade... E podendo fazer muita gente feliz, parafraseando a Rita outra vez. É isso que eu tenho e eu posso aproveitar antes que acabe. A sorte absurda que eu tive com as pessoas que me cercam e que são... Tão mal aproveitadas. O meu lugar, as minhas pessoas, as minhas oportunidades. Tudo que me cerca me parece excepcional. E eu sou tipo o buraco negro no centro do universo kkkkkkkkkkkkkkk.
 
Passei numa rua que eu frequentava e tem uma placa escrita 2022. Já devo ter falado dela, não sei... Em 2021 eu achava que a placa indicava uma cápsula do tempo que seria aberta (porque é uma placa estilizada). Mas não, era só o número do imóvel. Passei lá esse ano, já faziam três anos... até mais. Muita coisa mudou nesse período, e outras muito importantes ficaram quase iguais. Eu sinto que levo minha vida meio limbosa. Esses últimos anos foram intercalando limbos, dores, contemplações e momentos bons compartilhados. Mas sozinha, eu vivi muito um limbo. Um limbo que nem hoje, tentando começar algo.
Três, quatro, cinco anos passaram feito água. A pandemia ajudou a quebrar as noções, mas pensar me permite optar por desacelerar. Eu quero que esse ano dure muito. Nossa, eu quero que 2024 seja quase inacabável (que nem esse texto, que estou montando a duas horas), eu quero que seja lento, não extenuante, mas intenso e calmo. Eu quero estar acordada enquanto vivo meu ano. Não de frente pra uma tela enquanto as horas passam pela janela. Mas hoje já é quase o fim de janeiro, e ele tem passado rápido demais. Não passe por favor, se demore. 
 
Outro pensamento daqueles comuns que mencionei: que de tanto torcer pra atividade, pro dia, pra semana acabar. A gente torce pra vida acabar. E falando isso de forma pessoal, eu quero lidar melhor com os meus desconfortos, pra poder solucionar uns, e simplesmente aprender a lidar com outros. Ficar mais forte. 
É preciso reconhecer e aceitar para não ser limbosa. Reconhecer a rotina, a morada, as relações. Sinto tudo isso como passagem, sou Humpty Dumpty em cima do muro pronta para cair, mas não caio em lugar nenhum, estou passando. Não pertencer o suficiente me agonia, me insegura me incerteza me vazia me assusta me deixa mal. E tenho medo de pertencer, porque pertencer prenuncia a dor da perda. Reconhecer o que tenho e aceitar para entender. E entender para poder mudar, ou nem. Eis uma forma interessante de reconhecer: pensar, como descreverei esse momento daqui a dez anos?
Entretanto, reconhecer é entregar as pontas. Necessário, mas dói sair do que poderia ser e sentir de novo o baque de ser ordinária. Tem um engasgo em aceitar as coisas como são, porque elas estão me incomodando de alguma maneira. Nunca é suficiente.
Usando a quinta e última menção a uma ideia comum no instagram: tem aquela história do cara que se mudou pra morar com a amiga por alguns meses e reformou o quarto pra ficar a cara dele. (ler com voz cansada pra fazer um charme) É sobre isso sabe? Tudo é passagem e nem por isso deixa de ser real ou importante. O período de passagem não é vida também? E é enorme. Eu vivo na passagem, eu pinto em cima do muro, eu pertenço aos dois lados.

Estava dizendo ao meu irmão mais cedo que o desconforto com certa situação é pessoal. Meu pai, eu e ele, encontramos na mesma situação dificuldades diferentes. Penso que somos criativos pra isso. Os desconfortos da vida começam na dúvida e se estendem até cada pequeno poro e ponto no corpo. Quando quero ser uma força da natureza e conseguir algo, na décima segunda badalada, em ar de ir, eu consigo. E o que vier é bom, até falhar. Porque eu tentei e, afinal, nem tinha tempo. 
Mas pensar em fazer com calma, decidir, tentar e correr o risco de falhar sem desculpa alguma, é desconfortável pra mim. E como tem sido nos últimos anos, isso eu descobri sobre mim essa semana. Fazer terapia é tipo uma raspadinha premiada da própria vida.
Organizando um álbum outro dia, decidi que quero voltar a ter álbuns de fotos, me ocorre que eles podem ser virtuais também, mas quero fotos físicas, guardadas, como eram antes. Pra mim, pra mostrar, pra decidir e eternizar momentos que julgo importantes. Pra ter foto e memória é preciso ter vida. E agora eu preciso ir pra ter uma janelinha por onde olhar daqui a dez anos. Talvez eu coloque alguns prints também. 
 
 _______ 
nota: nesse tipo de texto, eu costumo juntar diversas ideias que tem me ocorrido. a medida em que elas são resgatadas eu as anoto embaixo do texto para organizar e puxar seus fios no parágrafo certo. eis o print de uma dessas anotações, porque achei engraçado o modo como organizo minhas pautas:
 
 
 de 25 a 27 de janeiro de 2024.

domingo, 27 de novembro de 2022

Uma noite assistindo a camerata de cordas da universidade da cidade.

    Ontem vi uma árvore com folhas nas cores amarela e verde, só dois tons, e os espaços escuros. Pensei "Essa árvore não pode ser comum", apesar de que fosse, não era. Porque na frente dela, em plano mais baixo (em relação a árvore) e em plano mais alto (em relação ao público), estava montado um palco com uma camerata. 

    Eles executavam músicas que tocariam qualquer um por ser o que são, por suas idas e vindas, pela emoção que produziam. Mas tocavam mais ainda aquele público, presente por gostar dos filmes para os quais as músicas foram compostas, filmes que em sua narrativa e visual já conseguriam encantar.

    Entretanto, estes são filmes produzidos por um homem que soube fazer o papel de um grande artista: Exprimir sentimentos que existem em todos nós, mesmo que nem sempre lembremo-nos deles ou sequer atentemo-nos, mas, este homem foi capaz de colocar nestes filmes, de forma nunca antes vista (por mim) tais emoções e climas (aqui colocados no meu entender do que é um clima).

    O fato de uma musicalidade deliciosa estar associada a um trabalho audiovisual tocante já seria o suficiente para que, ao serem transportadas estas músicas para o real, no tocar de um violino, e vários outros instrumentos, e ao trazerem, no reger do maestro, do imaginário para o presente um pouco do mundo aqui descrito; aquela árvore se transfigurasse numa coisa especial. Porque basta uma simples luz amarela apontada para ela, para que uma árvore nessas condições sofra a transmutação mágica do encontro do real com o fantástico. Da suspensão do tempo. 

    Mais que isso para mim. Esses filmes me foram apresentados numa época especialmente delicada. Um deles me fazia dormir todas as noites quando nada mais conseguia. Outro, me inspirava a tentar tirar esses sentimentos da tela para fora. As narrativas que eles criaram dentro de mim se misturaram de tal forma com o que é especial que eu não pude conter um leve arrepio nos lados da nuca e algumas lágrimas que escorreram enquanto eu ouvia, naquela praça, no meio de uma cidade que tanto me fez mal, um pouco do que também me cura. 

    Naquele palco eu vi meu passado, vi o que se esconde em mim fora do tempo e me faz bem, vi o que busco e o que temo. Vi uma tentativa tímida e corajosa de unir tecnologia e música. Vi que não é preciso muito para fazer o incrível, mas que é preciso estar atento para se jogar nele. Quis estar presente. Tirei os óculos para enxergar o real. Fechei os olhos para ouvir o real e imperfeito mas que me servia tão bem. Por tão pouco quase deixei tudo aquilo escapar. Pensei: O quanto a gente subestima a cultura... 

    Quando, ainda este ano, vi uma frase do célebre Sociedade dos Poetas Mortos, não a achei tão real como agora depois da experiência de ontem: “Medicina, direito, administração, engenharia são atividades nobres. Mas poesia, a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais vale a pena viver”

    Vi mais naquele palco. Os ciclos, ou melhor, a linhas que conectam fatos e lugares. Vi o futuro de um dos meus amigos e também uma reflexão de como o Maurício de Souza vive numa realidade tão distante da minha, que só ontem entendi porque ele desenha roupas masculinas de um jeito tão específico. 

    Houve um momento em que veio para a frente do palco uma menina. Todo o tempo a mãe dela estava, com uma elegância cinematográfica, guiando e apresentando a sequência de músicas da camerata. Ela (a mãe) usava uma blusa preta de manguinha, elegante e delicada, com um tecido suave e brilhoso. Uma calça preta opaca, com a mesma elegância da blusa (não poderia aqui descrever detalhes de corte e costura, por isso uso esses adjetivos repetidos e deixo para que a imaginação do leitor preencha as lacunas), e um salto preto reluzente. Tudo em seu aspecto me lembrava roupa de loja, o que me traz uma sensação ruim com suas problemáticas, mas inserida em tal contexto me trazia outro clima. Uma elegância de apartamento (outra vez, use a imaginação para entender, porque eu escreveria um texto inteiro associando o que a roupa daquela mulher me causou). E havia em cena, agora, a sua filha com um vestido rosa liso e uma meia calça discretíssima. Não lembro dos sapatos. 

    A menina, de treze anos, estava cantando uma música linda que eu não conhecia. Ela tinha os ombros um pouco curvados, a respiração um tanto descontrolada e um sorriso de aparelho muito característico da idade. O seu nervosismo era na medida conveniente. E eu encarei aquelas duas em cena, mãe e filha, como uma representação do passado e do futuro. O que uma mulher é, e o que pode se tornar. A leveza no rosto da filha era despretensiosa, e no rosto da mãe havia uma leveza amadurecida. Uma graciosidade que mostrava confiança e experiência. "Acho que a mãe dela escolheu esse vestido", e pensei sobre como ela estava entrando num mundo que não era dela, e onde talvez escolhesse ficar. O mundo é violento. Mas a gente faz o possível para encantar e se deixar saudável. Pensei na mulher mais velha "Como ela chegou ali? O que ela passou pra ser como é?" ela não parecia sofrida. 

    E ao final dos aplausos, como um aceno de cabeça do universo às minhas observações silenciosas, a menina fez menção de descer pela frente do palco, ao que sua mãe disse, com um tom muito fofo mas ainda elegante: "Não, não, não, por trás" e terminou com um "Tudo bem", bem conformado quando a menina desceu pela frente do palco assim mesmo. 

    Saí meio chateada por ter que voltar para a minha vida normal depois de um momento tão bom. Embora a vida seja cheia de momentos ímpares que aparecem de repente. Pensei outra vez em como subestimo o potencial de tais oportunidades, em como as deixo passar. Esse pensamento foi reforçado quando, passando por uma loja de quadrinhos mais tarde na mesma noite, me deparei com várias referências que eu gosto, ou gostaria de conhecer, e lembrei de como me empolgo com esse mundo do qual me afastei. A cultura pop (e a popular), a arte, os animes, os quadrinhos, revistinhas e artistas da internet com suas tirinhas, artistas da cidade com seus climas de bairro do limoeiro ou de mesa de bar, violência e putaria numa coletânea que eu poderia gostar... Se tem um rumo pra seguir é esse. O rumo que eu sei que funciona, de se deixar ser tocada, de nichar, de cavar mais fundo no que eu arranhei e gostei. Permitir que a identidade do presente seja a nostalgia boa do futuro. 

    E tem as companhias. A amizade deve ser justamente apreciar os acréscimos que cada personalidade faz num momento ímpar. Ver meus amigos chorando ao ouvir o tema de Túmulo dos Vagalumes e poder marcar de assistir muito em breve. Desejar a presença de alguém que eu queria que pudesse se emocionar junto com a gente. Voltar pra casa discutindo sobre acesso a cultura e sobre razões pra existir. Rir e se sentir segura. Tudo isso, só uma parte interessante do todo que foi essa noite de ontem. A vida é muito cheia, e no vazio (ou na oportunidade, no espaço) as coisas que enchem acham lugar pra escapar e se mostrar. Cabe a nós tentar ver.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Minhas primeiras revistas.

Estava meio mal e vim fazer algo que sempre me traz frescor: escrever. Tenho mapeado meus hábitos, como já mencionei em algum post antigo, e parei de anotar apenas duas palavras que sejam os destaques do meu dia, como fazia antes, e agora escrevo um pequeno texto. Quase um diário, e já mantenho a mais de um mês, escrevo todos os dias. 

Como estamos de quarentena é fácil ver o que destoa do habitual, eu anoto isso e também como vai minha saúde, meu relacionamento, e minhas decepções... comigo. E me dá vontade de divagar, de fazer um textão por noite. Considerando que parei de ler e nem com reza de padre velho eu consigo retomar meu ritmo, parei pra pensar agora que seria até saudável deixar esse texto rolar. Mas é que... Não é o intuito. O intuito é resumir o que foi importante pra que eu possa consultar depois. Mas... Pensando bem quantas vezes eu vou poder consultar, né? Acho que fazer um diário de verdade seria melhor. 

Bom, eu vim aqui pensando em escrever algo e tal hora fico divagando, mas meu ponto era que essa escrita diária, pela limitação que eu impus, não sacia o desejo de expressão da minha alma, então não é tão ruim como escrever um artigo, mas não é tão bom como, por exemplo, escrever aqui.

Mas hoje eu vim falar da minha infância. Acho que é legal recordar desses ganchos que fazem parte da gente e simplesmente se perdem com o tempo, ficam as impressões mas não fica a lembrança ativa sobre elas. 

Quando eu era mais nova, entre quatro e seis anos, eu ganhei algumas revistas. Parece o mesmo dia, quando eu penso, mas sei que foram dias diferentes. Primeiro eu ganhei O burrico de Tróia e o Galodiador, na foto ao lado. Embora até hoje não entenda bem essa história da guerra de troia, eu nunca me esqueci do nome e de pequenas impressões dessa revista. Creio que foi a primeira revista da Turma da Mônica que ganhei. 

Meus pais, me disseram depois, evitavam comprar dela porque achavam que podia ser uma má influência (eu tenho certeza que minhas crises de raiva na infância não tiveram nada a ver com minhas leituras), e por isso a primeira que li foi do Chico Bento, o que é engraçado, se for considerar que o Maurício precisou botar propaganda nas revistinhas antigas pra que as crianças se interessassem por ele. Deve ser preconceito com o fato de ele ser caipira, pois as historinhas nada devem as do resto da turma, e geralmente tem as melhores mensagens. Como esquecer a história do pé de banana nanica? Ou a belíssima graphics Arvorada? Além do incônico Pavor Espaciar. Até o shitpost do chico bento é o melhor (evite, se for sensível). 

Me lembro também de como gostava de ouvir a paródia de trillher, na época em que via as apresentações da turma no youtube. Se você gosta de turma da mônica e ainda não viu a versão deles de romeu e julieta, não sabe o quanto de estranheza está perdendo. Eu e Turma da Mônica... É um lance que se estende desde aquele tempo, e até hoje eu me empolgo. É difícil resistir ao trabalho belíssimo, especialmente os roteiros do Emerson. A supersaga do fim do mundo definitivamente merece ser relida e ter um post só pra si aqui no blog. E porque estou dizendo isso? Porque o post não é sobre a minha história com mônica, mas sobre as minhas leituras da época. 

Também ganhei uma revistinha do Jarbas, eram quadrinhos e, embora eu mal me lembre das histórias, lembro do quanto me divertida vendo aquela revista. Tinha até um joguinho de encontrar o Jarbas, tipo o do Wally. 

Eu também ganhava revistas de princesas, dessas com joguinhos de colorir e completar. Se perderam no tempo mas a impressão permanece. Creio que eram do mesmo estilo de desenho que essa da imagem (abaixo), mas não era exatamente essa. Era mágico. (Acho que já ganhei uma que vinha com uma coroa).

Quando penso nessas três revistas me vem de imediato o céu. O céu noturno, azul escuro. O mundo era gigante e eu protegida. Lembro da janela de grades, embora não saiba dizer a cor ou o formato. Da rede, do vento e céu... Lembro da minha mãe balançando comigo e cantando. E também do trabalho do meu pai, o cheiro de café, o azul das mesas e o ar condicionado. 

Das memórias que guardo da infância, essa época me traz algumas pacificamente doces e outras nem tanto. São algumas das minhas primeiras memórias. Será que o processo de alfabetização me ajudou a memorizar as coisas, ou será só a capacidade da mente de recordar? 

Quando penso me lembro também da manhã. As lembranças se confundem, como quando se cantarola uma música e num ponto oportuno se emenda outra sem querer. É isso, a memória de 2006 na casa nova se confunde com a casa nova de 2009 e o cheiro de orégano. E o isopor e a branquidão de coisa nova. Acho que eu era muito criança pra lembrar tão bem da casa nova de 2006, ou 2004, ou que ano seja, a data não importa. O que importa é a época. 

Lembro de Engenheiros do Hawaii tocando, me perdoem se estiver sendo repetitiva, eu realmente não decoro quais memórias já falei e quais não, e dessas memórias profundas e importantes a gente acaba tendo de falar em muitas ocasiões. Tocava "era um garoto..." e eu lembro de um céu que não existe, com imagens que não tem forma certa, lembro de cores de por do sol e algum tipo de estilo, urbano, industrial, uma ideia colorida. Um sentimento que está enfraquecendo com o tempo... 

Lembro da escola, de tantos momentos legais, e aí não posso me ater. Certas partes daquela cidade, em especial a escola, merecem post próprio. Posso apenas pincelar: Tinha a minha casa, tinha o supermercado onde comprava bate gute e leite moça de saquinho. Tinha a praça da Daiane, e os biscoitos passatempo. Os vestidos de serena da minha mãe, a vó da Daiane costurava vestidos iguais os da menina da novela, azuis e comportados. Lembro das carteiras de cigarro que me assustavam jogadas a noite no chão da praça. E de como eu descobria o mundo com os meus olhos e minha boca grande. Tinha tanto medo. Não acho que eu era uma criança medrosa, exatamente, eu era muito mais curiosa. Mas é que o medo atravessou todos esses anos. O medo de um comercial na tv, de uma imagem vista de relance na locadora, de um boato sobre um cara que sequestrava crianças. Tinha muita coisa, meus jogos, os passeios. E a vida era... E ainda é boa.