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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Curtas 16 - O sol não tem culpa.

Queria acender uma fogueira no seu peito pra que as suas palavras não arrepiassem minhas costas, mas mal consigo manter acesa a minha própria chama. Não sei se mantenho do jeito certo, como fazer ser natural, com ser de verdade? E se meu fogo apagar e eu afundar outra vez na água gelada? Tenho tanto medo disso. 

Naquela noite em que eu estava no chão sentindo o cheiro daquela vida toda que eu tinha, e que ainda passa às vezes, eu pedi sua ajuda e você deixou minhas mãos dormentes. De medo. Porque seu papo de solidão é tão aterrador pra mim. 

Eu tenho problemas com o sol porque ele me lembra a sua casa e a sua cidade. Mas não tem tanto a ver com você. Porque eu fico gripada encostada na parede quente do seu quarto. Porque a sua vida, e a vida aqui, é cheia desse sol obrigatório, sol violento, dolorido, perigoso e de despedida. O sol da tarde me lembra a solidão. 

Mas o sol não tem culpa. 

Quando você me elogia eu me sinto fraca, tutelada. Parece que você se esforça pra ver o que tem de bom em mim porque se acha muito melhor. Parece que você acha que eu preciso ser consolada pela minha vida fraca, ou que eu preciso de reconhecimento. Porque o seu reconhecimento nunca parece de verdade? Porque eu não consigo acreditar na sua admiração? 

Mesmo tendo pouco de você ainda é melhor que não ter nada, e o meu normal nunca foi suficiente, mas você não percebia então eu achava que era. E o seu esforço sempre parecia em vão, eu sempre pedi mais, e a gente se machucava junto. Eu realmente acreditei que você sentia algo parecido comigo mas era muito pior.

Quando eu falo com você eu nunca sei o que esperar e isso vai me machucando devagarinho mas não parece arranhar a superfície de mim porque eu me acostumei. Diferente de tudo que a gente tinha e se arranhava tão fácil. 

Você se esforça muito pra fazer as pazes comigo e com o seu passado. E eu tenho tentado fazer as pazes com o sol e com o meu presente. Ele parecia mais ameno na minha memória. Ele parecia melhor quando eu sentia o cheiro da minha casa e não da sua. Das minhas. Das suas. As suas casas são tão sozinhas pra mim... 

O seu melhor talvez não encaixe em mim. Essa frase na verdade é sua. 

Dependendo de como eu viro o olho eu sinto uma e outra coisa, mas já decidi que vou ficar bem comigo pelo menos enquanto eu posso, pelo menos enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer e sei onde achar um sentimento ou outro que eu preciso. E vou tentar contigo tendo um monte das coisas que a gente queria ter, e deixando de ter outro monte, algumas que a gente nem sabia e nem sabe ainda. 

Tem uma música que você gosta e eu não, que diz que "você é como o sol, ilumina meu dia mas queima a minha pele". E se eu fui isso pra você, porque você continuou? E eu disse que meu texto ia terminar feliz mas não consigo deixar de ficar triste pensando outra vez na solidão que acho que tu sente, e que parece contagiosa, só de falar dela eu sinto um pouquinho. Queria ser mais, queria poder consertar nós dois e não posso nem comigo. 

Mas vai lá, vou terminar bem. Vou terminar dizendo que pelo menos agora as coisas não são como minha cabeça viciada quer projetar, como um caos. Elas simplesmente são como são, e eu não compreendo tão bem. Mas a gente ainda consegue ter o melhor um do outro. Ou... quase isso. Terminar dizendo que me consola a sua presença. 

07/12/22 às 20h00

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Mais uma ou menos uma manhã?

Eu olho pra ela e ela me sussurra "vai ficar tudo bem". Eu precisava escutar. Sempre que olho pra ela, ela repete. Tenta me dizer, me chama pra perto. Diz pra eu me apressar, pra tirar uma tarde ensolarada e caminhar antes que volte a chover. 

"Never mind I'll find someone like you, I wish nothing but the best for you too." A Adele canta de fundo. Não significa nada. 

Eu e todo o resto do dia estendido a minha frente. Coisas que quero fazer e sei que vou. Outras que não sei. Angústias recorrentes passam pelo meu estômago, suaves aparecimentos e desaparecimentos. 

Tenho medo desse estado, apesar de não ser nada intenso agora, quando estou suscetível a essa variação emocional. Horas tudo parece meio difícil e meio... Inaceitável. Inlidável. Outras horas parece tudo leve, normal, tranquilo, cheio de esperança. Os pássaros cantam desde que horas, se só agora parei pra ouvir? Só agora parei pra sentir esse cheirinho leve que não sei de onde vem, deve ser da minha cabeça. Tudo tranquilo e eu aqui maquinando, fervilhando em cozimento lento. Decidindo o que fazer em seguida. Parece que a inquietude está por aqui de novo, um sentimento de que algo bem no fundo está... Errado. A leveza tenta voltar. 

Eu olho pra trás tentando confiar nela, tentando ver pela perspectiva que ela quer que eu veja, que tudo está bem, afinal. E vai continuar de toda forma. 

Hoje acordei mais cedo e mesmo assim conto as horas pro sol ir embora, porque não quero que ele vá. Assim como conto os dias pra minha partida. Também não quero ir. Às vezes até quero. Quero o equilíbrio e a satisfação de todos os lados. 

Gosto de ter coisas pra fazer, coisas marcadas. Gosto de ter coisas pra fazer, coisas inventadas, coisas que posso, mas não vou agora. Algumas que dão trabalho e servem pra me organizar. Outras que dão trabalho e me dão prazer. Alimentam minha fantasia que é o que me faz conseguir lidar com o mundo. O jeito peculiar de ver ele como uma fantasia até conseguir ver como uma sucessão de fatos comuns. Fantasiar pra não cair em desespero (com uma visão distorcida). Porque continuo me entregando tanto a cada momento como se tudo fosse tão absoluto? E porque em outros tantos momentos eu simplesmente me alheio, subindo nas costas da ansiedade, deixando ela me guiar sobrevoando futuros imaginados de toda forma, por interpretações incompletas e por angústias; quando meu corpo fica aqui no presente, inerte, abandonado em seu propósito único que é agir no agora? Como posso me alhear tão facilmente de mim?

As versões das minhas atitudes, do que eu serei no futuro e do que eu sentirei, são imaginações, são irreais. Não são eu. E já me provei, por bem ou por mal, que não consigo me imaginar tão bem assim no futuro. Em geral eu sou mais otimista na minha mente do que funciono na realidade. Apesar disso, eu também sei me surpreender. Achando a tranquilidade em momentos que imaginava que seriam um suplício, e virando outra versão de mim.

Sou uma e sou muitas, elas não se lembram tão bem uma da outra. Eu enxergo o passado de um jeito estranho, esqueço fácil, tenho dificuldade de acreditar no que estava sentindo quando não estou mais. Na verdade, não de acreditar mas de entender. Uma grande subestimadora de sentimentos, é isso. Exceto dos que me traumatizaram o suficiente pra ficar bem longe deles. 

Penso numa imagem engraçada. Antes de tomar uma decisão, colocar um aviso num quadro interno. "Estou pensando em fazer isso". E cada uma que passar por lá pode dar sua opinião. Será que ao menos uma de mim é capaz de querer e lutar por isso? As outras não querem tanto. Consideram importante, mas não vão assumir a tarefa. Talvez precisemos criar uma nova. Elas surgem meio naturalmente, na verdade. Tentar criar sem paciência geralmente me frustra, é uma ilusão, ela some depois de um tempo. 

Conhecer uma nova eu é mais ou menos difícil do que conhecer um novo outro?


P.S. sobre a ideia de que estamos todos perdidos na juventude. Talvez tudo faça mais sentido na vida adulta porque simplesmente viveram o suficiente pra narrar as coisas como sendo uma sucessão de acontecimentos que aparentemente eram o que deveria ser. Pura sorte no infinito de possibilidades. Isso não quer dizer que estejamos fazendo algo errado agora.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Insone, contemplo minha musa.

O vento que corre fora da janela e atinge meu rosto por entre as grades é tão frio quanto o do ventilador aqui dentro. 

Contemplo a paisagem e meus pensamentos, por mais que se deparem com os mesmos temas confusos de antes, não me despertam sentimentos ansiosos. Tenho cautela pra não pegar pesado demais. 

Passam pela minha mente, vagamente puxados por uma e outra recordação. As luzes lá no fundo parecem estrelas. Ou cruzes brilhantes de túmulos. Ou luzes de naves espaciais ou uma cidade bonita num jogo. 

Tem algumas coisas que quero pensar, percebo que não vou concluir nada agora. Quantas vezes já fiquei nesse mesmo estado de contemplação em outras janelas que agora mal me vem na memória? 

Mas tem uma coisa que não quero esquecer. É essa ideia. A de que me faz bem estar em vários lugares. Pode ser desconfortável não estar acostumada e ter que se adaptar. Mas essa diversidade e as possibilidades são a riqueza que quero. Não posso esquecer de que quero estar assim. Quero ter espaço, lugares pra ir, coisas pra ver, noites pra curtir e principalmente pessoas interessantes e confiáveis ao meu lado.

Outras coisas surgem. Porque escutar mais a certeza de alguém do que a minha? Lembro dela e ela é meu contraponto. Lembro dela que não tem culpa e talvez não tenha sentido quase nada, mal imaginando o que representa pra mim. Um pivô que involuntariamente acendeu temas tão quentes na minha vida. E eu vivo me esgueirando da chama. Mas eu precisava. E tenho medo. Devia agradecer a ela depois, só que sem que ela perceba. Ela provavelmente nunca vai saber o que significa pra mim. 

Eu queria me segurar em algo. Queria ter uma certeza sequer que fosse plena e imutável, e que fosse boa e um acalanto. Mas o que eu tenho são dúvidas e certezas ruins. Não tem idade nem confiança nem preparo que me deixe pronta pra tudo. E eu não tô pronta pra um monte de coisa também. E pra algumas nunca estarei.

A cidade dorme e eu tenho insônia. Quero voltar a ler mas a minha narrativa me parece a mais interessante. Olhei as estrelas mais cedo e não consegui identificar constelação nenhuma. De onde vem as estrelas cadentes? Eu sabia que não precisava de uma pra saber meu pedido. Eu quero ser feliz com o que eu fizer do futuro. Provavelmente eu vou ser e isso deveria ser bom. Mas me incomodo que não vou ser feliz do jeito que eu tô agora. Com essa casa e essa vida que é uma visita/vista e não uma vida. E deus me livre que fosse essa a minha vida o tempo todo. Porque eu ia saturar até das coisas boas quem sabe?

É engraçado como as fases passam e eu me adapto aos cenários e descubro como estar bem neles. Nem sempre rápido como gostaria. Mas agora estou mais tranquila do que estive no último ano. 

Ainda cheia de contradições. As escolhas parecem todas erradas. Parece tudo inseguro demais. Tudo parece que descamba no mesmo balde que é o fracasso. E no meio disso tudo um pensamento louco de me entregar ao fluxo da vida mais caricata que eu consigo pensar pra me agarrar a uma segurança que nem existe.

Aqui olhando pra minha musa quieta, monótona, segura pra mim. O cheiro dela está todo mudado. Eu olho pra ela e não sinto nada especial, mas é justamente o não sentir que eu buscava. Ele subentende segurança, tranquilidade, aceitação. Ela me isola do resto do mundo, essa musa. 

Se aquelas folhas balançarem um pouco mais devagar eu não vou conseguir ver. E vai parecer que eu parei no tempo. 

As coisas aqui as vezes me lembram a cidade de quando eu tinha seis anos de idade. Que ironia porque elas tem o mesmo nome. Hoje, por um breve momento, me lembrou de um jeito ruim. Mas eu não tenho mais seis anos. Infelizmente tanto pras coisas boas quanto pras ruins a gente constrói significados desde pequena. Eu tento destruir os sentidos ruins às vezes. Dissecar e entender. Mas aí os bons ficam parecendo frágeis também. Sentidos... Nem sempre dá pra controlar como as coisas chegam. Nem sempre dá pra controlar como se reage a elas. Eu agradeço a calma. Agradeço sempre que noto.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Curtas 13 - O segredo que a musa me contou.

Eu sempre achei que meu namorado seria minha musa, de tanta coisa que ele significa achei que seria o tema principal de todos os meus textos e cartas de amor. E ele deve ter ciúmes se descobrir que a musa desse texto é a cidade dele. 

Foi ela quem me disse no canto do passarinho, na carícia do vento e na voz de uma cantora de forró que eu talvez não conheça, e também com toda a força da tarde e do sol que se põe, que ainda é possível ser feliz e conhecer de novo o clima bonito de cidade pequena que me fez tão feliz na infância e que até hoje me sustenta. 

Aí eu achei bonito e quis fazer uns registros. E ela me disse que não adiantaria mostrar um gif torto de um passarinho pra passar o que se importa, porque precisa de mais. E que também não bastava um vídeo bem claro com uma resolução massa e o som de tudo isso. Porque era preciso mais. 

E eu disse: mas nem se eu botar ele aqui pra ver essa vista e sentir na pele esse vento, e ouvir com os próprios ouvidos o canto do passarinho, os carros passando, a mulher cantando, o cimento sendo mexido? 

Nem se ele sentir na boca o gosto da minha saliva e do meu lábio seco e nem se sentir nas costas a coluna torta? Nem se ele sentir esse cheiro que é tão familiar que já mal se sente a não ser que se esfregue o nariz nessa roupa lavada cheia de água, cheirosa a sabão? 

E ela me disse: nem assim. 

Porque nem todos os seis sentidos dele bastam se ele não tiver o sentido da tua mente. Que foi formado de toda a vida até agora, e que só faz sentido pra tu. E pra mim que tô te mostrando. Tudo convergiu pra eu te mostrar esse momento particular, nosso.

O passarinho foi embora, o sol terminou de se esconder atrás das nuvens e eu fiquei pensando: é mermo, é? Pois taí que eu não sabia. 


domingo, 23 de janeiro de 2022

Curtas 12 - O céu de uma cidade do interior.

[     ]É essa cidade afastada de tudo que é rápido e forte. Parece que nem as àrvores tem pressa de balançar sob a brisa. As nuvens do apocalíptico pôr do sol estão congeladas, estáticas, escuras e cinza azuladas contra o amarelo lanceado de azul do céu. É linda essa cidade. A vista do primeiro andar, que paira sobre os telhados de telhinhas vermelhinhas e inclinadas e as árvores verde escuro ou salpicadas pacientes a luzes de postes, é enriquecida pelos pontos de luz branca, midiática, de clima de escola e de clima de passado. O laranja avermelhado do fundo, bem no fim do céu observável, contorna caixas dáguas e antenas de tv. E nessa hora o concreto é lindo e o acesso é evidente. O ronco de uma moto, deseducada comparada com todos os motores que passaram até agora, não é suficiente pra calar a paisagem silenciosa que é o pôr do sol numa cidade urbanizada do interior. 


23 de janeiro de 2021 em pleno poente.