"Isn't it funny how day by day nothing changes, but when you look back everything is different?" C.S.
sábado, 27 de janeiro de 2024
Daqui a dez anos eu espero estar mais confortável.
terça-feira, 31 de outubro de 2023
Curtas 18 - Hoje eu vou dormir com seu suor.
Você não toma banho antes de dormir quando está cansado e deixou certamente um pouquinho do suor e da sujeira do seu short espalhados no meu lençol, embora eu tenha evitado te cobrir.
Então hoje eu vou dormir com seu suor no meu lençol e também na minha camisola rosa.
Se você não viesse me ver, seria só a camisola que combina com a touca e mais uma noite.
Mas você veio e isso não dói nem marca.
Mas veio e por essa noite, a camisola é a que esteve espremida entre os nossos abraços.
Quando fechei os olhos mais cedo, de cansaço, sem saber como lidar com desligar a sua presença da minha vida, eu lembrei de ontem e de como eu tentei decorar a sensação da sua presença física pra lembrar hoje.
Eu me imaginei deitada na minha rede, lembrando da gente junto de um jeito quase abstrato. Como acontecia em diversas noites.
E estando lá eu quis gravar a objetividade do seu braço adormecido sobre o meu estômago.
E a objetividade do meu pé procurando o seu com um lençol no meio.
E a objetividade de sentir um calor e uma presença quaisquer por diversos e minúsculos fenômenos que a física deve ter documentado em leis anos atrás.
E durante todo o tempo em que estivemos juntos, notei a subjetividade da sua presença e a força que ela exerce sobre a minha realidade. Acho que sobre essa parte ciência nenhuma tem domínio.
Como sua presença muda a cor do meu chão. Como a vida desliza e não trunca, diferente de quando me vejo só, aqui, sem você.
As pessoas, quando estou contigo, são figurantes. E quando estou só são possibilidades e apreensões.
Quando estou contigo as coisas fluem de um momento a outro, momentos contigo, pequenas felicidades, pequenos prazeres e aventuras.
Quando estou só meu dia parece uma sucessão de atividades que precisarei repetir em algum tempo. Dia após dia.
Contigo passar o dia deitada faz sentido. Dormir ao seu lado e acordar te chamando faz sentido. Ver qualquer coisa ao seu lado e jogar uma conversa, e trocar um carinho, parecem simplesmente o motivo para o qual eu existo.
E sozinha eu não encontro motivos.
Quando estou só, nada do que eu tento parece fazer sentido e me levar a lugar algum. Ou assim me parece quando estou contigo. A minha felicidade tem lugar pra se manifestar, que é na sua presença.
Então tentei dormir essa tarde pra fechar o ciclo de te ver. Pra quando acordar ser outra que não te viu. E quando fechei o olho eu lembrei de como tento ficar confortável ao seu lado. Eu lembrei do seu braço no meu estômago, e caindo de sono eu vi seu rosto próximo do meu.
E depois dormi.
quinta-feira, 11 de maio de 2023
A literatura gótica ressoa em mim porque escreve além das linhas.
Quando me aflijo com a vida e seu inescrutável feixe de caminhos, me vem a mente um dos elementos mais bonitos de A Cor Púrpura, que é a sensação de sermos todos uma comunidade. Um pequeno vilarejo com pessoas e suas vidas ordinárias que, mesmo depois de tudo, podem se perdoar e viver em harmonia.
"But I won't cry for yesterday, there's an ordinary world somehow I have to find"
Tenho visto meio cinza, presa dentro da minha própria cabeça. Queria saber como romper a película pra entrar em contato com o mundo. Sinto que estou inquieta, embora menos que antes, observando situações que posso relevar, remoendo questões cujas conclusões possíveis já foram alcançadas, esperando a vida acontecer e ser atingida pelo baque de um despertador ou o comentário de alguém para que algo em mim se manifeste.
Em resumo, estou a mercê do afeto do mundo, e a balança pende pra esse lado de um modo perigoso, pois não tenho procurado afetá-lo. Estou a mercê de uma consciência rasa e incômoda, talvez covarde, talvez desocupada. Se fosse mística diria que alguma energia minha desalinhou.
O único caminho possível para afundar em mim, ou para tocar o mundo, parece ser a ação que atravessa o desconforto como uma agulha que fura uma película gelatinosa.
O jogo da harmonia é delicado e muito difícil, seu véu nunca parece cobrir todos os aspectos da minha vida, e talvez seja bom para que eu tenha espaço para respirar fora disso. Mas quero puxar mais, desenrolar mais, estar embaixo desse calor com um coração cujas batidas não me incomodam e com uma sensação profunda de preenchimento.
E quando algo de fora me impacta com força o suficiente para romper a película, mesmo que com um dano tão mínimo que mal se nota, sou puxada pela cabeça para respirar o primeiro fôlego profundo, instintivo e desesperado desse mundo que me cerca.
A atenção que eu dou não tem sido suficiente, em alguns momentos, para colorir o que vejo. Percebo a atenção indo e voltando para o que existe aqui e para o que existe na tela ou na página, ou na minha cabeça. Percebo que a atenção desloca tudo com ela, tudo que eu sou. Mas, junto com minha coluna torcida, a consciência rasa ainda me cobra, me ameaça. O que ela quer de mim?
Procuro aceitá-la. Ofereço frases de acalento, ofereço a verdade mais pura e genérica que contemple tudo que ela possa temer. Ofereço o que posso, mas o que preciso, sei, é deixar que ela grite seus temores cíclicos e vãos enquanto cuido da minha vida, e permito que essa parte de mim deixe de ser hábito, e não ouça suas ameaças mas sim sua quietude. Quero que se aquiete essa consciência. Faço com que enfraqueça mais a cada dia e me deixe ser o que quero, e não me permitirei, citando Tudo em Todo Lugar, que nada me distraia dos momentos que desejei e não quero que acabem.
"Eu acho que Deus deve ficar fora de si se você passa pela cor púrpura em um campo qualquer e nem repara."
A culpa, o desconforto, o medo... Não posso deixar que nada disso rasteje pelo chão e agarre meu tornozelo. Não posso deixar que me impeçam de viver o que preciso, e o que posso, antes que tudo se acabe e a memória que se dissipe seja... Nada.
Foi Belchior quem disse: nada é secreto, nada é misterioso.
O jogo de luz e sombra, o jogo da harmonia, do equilíbrio, de deixar ser secreto e depois trazer à luz. De se encantar com a vida como um vampiro recém-criado, e de se acalmar evidenciando a naturalidade de tudo nas mãos de alguém ou nas próprias quando o terror da própria existência se opõe sobre nós e preenche todos os espaços. E essas delícias e horrores quem descreveu foi Lestat.
A comunidade, o Jardim Selvagem, tudo que é possível de ser feito sem que se precise pensar tanto ou carregar tanto melindre. Questionar menos ao cosmos e mais a si mesmo, confiar que o que quer que aconteça, será suficiente, será mais que o bastante, que o que está por vir é sempre melhor do que o que já foi. Que a pessoa que me torno será sempre a cura da pessoa que estava sendo a pouco.
E se tudo mudar ao meu redor... Eu mudo quem sou? Eu deixo de ser eu? Quero deixar de ser? Quais aspectos de mim eu quero que ainda sejam?
"And as I try to make my way to the ordinary world I will learn to survive"
segunda-feira, 27 de março de 2023
Entre peixe e folha na correnteza do tempo.
Estou entre um e outros modos de viver. Em cada aspecto da minha vida, se consolida lentamente um estado diferente, causado por resoluções, ações, rotina, influência do meio, memórias, e a forma como é sentir eu. Algo como o que eu chamei em outros textos de clima.
Depois de um período de aproximadamente dois anos, finalmente consigo existir em dias tranquilos a fio, repetitivos, gostosos e surpreendentes, simples e cotidianos, sem que isso seja um problema.
Sirlanney postou um quadrinho certa vez sobre o mito do artista sofredor. Parece muito mais fácil produzir quando se sofre. Em fogo médio. Porque também o sofrimento demais extenua, faz a gente não querer saber do que se passa em canto nenhum, imagina querer condensar isso em texto.
Só que o sofrimento de menos deixa a gente assim como que de bem com a vida. E nisso ninguém quer cutucar mazelas e coisinhas. E fica tão cheia de coisa pra fazer vendo a vida se desdobrar como um túnel de tecido transparente com luz azul e lilás, que a gente vai deixando de lado escrever. Parece que não tem sentimento se rasgando pra sair em texto. E se tiver... deixa eles quietinhos ou, escreve na agenda da terapia, escreve no diário. Nada muito geral e forte que possa virar um texto.
E aí como fica a arte do artista que se apoia na muleta do sentimento? Syr já dizia, e deixo o link no fim do texto, que o bom artista pesquisa e produz. Não precisa usar sangue como tinta pra ter alguma relevância. Me pergunto inclusive se eu comecei a achar que acreditava nesse mito depois de ver a tirinha (totalmente influenciável ela), já que na própria descrição do blog eu escrevo que "o combustível da minha potência criativa [...] é a leitura". Parece que a gente sabe as respostas e desaprende com o diabo do tempo que passa.
E a observância de agora sempre foi meu modo de operar aqui no blog, mas também é ainda resquício da escrita por sentimento. Quero voltar a escrever aqui. Revisitar temas abandonados e discutir sobre eles. E quando se esgotarem os temas, ou antes disso, falar de outras coisas que vejo e que gosto de comentar.
Para o blog e para além dele quero usar meus sonhos como base pra fantasia. Mas sempre achei isso um pouco... Roubo de ideias. Quem planta as ideias dos sonhos na nossa cabeça? E se for apenas aleatoriedade inconsciente, usar sonho como arte não seria o mesmo que usar uma IA?
Tenho desejo de produzir literatura também, apesar das minhas tentativas anteriores datadas e frustradas. Recentemente li um livro desses de distopia adolescente, que é um romance e drama pessoal com pano de fundo político, e fiquei pensando que eu sou perfeitamente capaz de escrever melhor do que a autora, mas isso é outro dos clichês de artista. Quem sabe eu até sou mesmo capaz, mas quem foi lá e fez não fui eu. Mas não abandonei a ideia. Quando falo com alguém em texto, às vezes saem umas combinações tão bonitas que guardo pro dia em que fizer meu romance.
E quero produzir pra além de texto, meus quadros, minhas gravações, meus slides para o sarau com assuntos para diversas faixas de tema. Quero tocar e cantar e musicar uma letra ou outra que escrevi, ou ainda não. E nisso eu perco meu tempo. Sem fazer nada disso.
Corro o risco de ser repetitiva aqui, mas a gente subestima demais o poder das coisas. A gente se contrói. E o que a gente gasta ou perde ou aproveita de tempo no cotidiano é parte importante do que nos forma sem que se perceba. Tudo que se faz ou que não se faz gera algo dentro de nós. Nos muda. Porque o tempo não para. O respiro que dou entre linhas, a música que eu penso. Essas coisas que não se controlam (e que bom?!!) acontecem a gente.
E quando eu acordo, levanto, e vejo uma planta. A planta muda no espaço de alguns segundos. Olhei e senti que era uma planta no estado de acordei, falei alguma coisa e levantei; resultado de quase dois anos acordando e percebendo qualquer coisa errada. E logo em seguida senti que era uma planta no estado de minha semana passada foi boa, e agora tenho isso, isso e aquilo pela frente pra fazer no dia de hoje; resultado do costume recente de olhar, pensar e fazer. É a mesma planta e quem muda sou eu. E o mundo inteiro muda.
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Links para os quadrinhos de que falei, da Sirlanney:
"Eu e as Demônias" Parte 2
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
Curtas 16 - O sol não tem culpa.
Queria acender uma fogueira no seu peito pra que as suas palavras não arrepiassem minhas costas, mas mal consigo manter acesa a minha própria chama. Não sei se mantenho do jeito certo, como fazer ser natural, com ser de verdade? E se meu fogo apagar e eu afundar outra vez na água gelada? Tenho tanto medo disso.
Naquela noite em que eu estava no chão sentindo o cheiro daquela vida toda que eu tinha, e que ainda passa às vezes, eu pedi sua ajuda e você deixou minhas mãos dormentes. De medo. Porque seu papo de solidão é tão aterrador pra mim.
Eu tenho problemas com o sol porque ele me lembra a sua casa e a sua cidade. Mas não tem tanto a ver com você. Porque eu fico gripada encostada na parede quente do seu quarto. Porque a sua vida, e a vida aqui, é cheia desse sol obrigatório, sol violento, dolorido, perigoso e de despedida. O sol da tarde me lembra a solidão.
Mas o sol não tem culpa.
Quando você me elogia eu me sinto fraca, tutelada. Parece que você se esforça pra ver o que tem de bom em mim porque se acha muito melhor. Parece que você acha que eu preciso ser consolada pela minha vida fraca, ou que eu preciso de reconhecimento. Porque o seu reconhecimento nunca parece de verdade? Porque eu não consigo acreditar na sua admiração?
Mesmo tendo pouco de você ainda é melhor que não ter nada, e o meu normal nunca foi suficiente, mas você não percebia então eu achava que era. E o seu esforço sempre parecia em vão, eu sempre pedi mais, e a gente se machucava junto. Eu realmente acreditei que você sentia algo parecido comigo mas era muito pior.
Quando eu falo com você eu nunca sei o que esperar e isso vai me machucando devagarinho mas não parece arranhar a superfície de mim porque eu me acostumei. Diferente de tudo que a gente tinha e se arranhava tão fácil.
Você se esforça muito pra fazer as pazes comigo e com o seu passado. E eu tenho tentado fazer as pazes com o sol e com o meu presente. Ele parecia mais ameno na minha memória. Ele parecia melhor quando eu sentia o cheiro da minha casa e não da sua. Das minhas. Das suas. As suas casas são tão sozinhas pra mim...
O seu melhor talvez não encaixe em mim. Essa frase na verdade é sua.
Dependendo de como eu viro o olho eu sinto uma e outra coisa, mas já decidi que vou ficar bem comigo pelo menos enquanto eu posso, pelo menos enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer e sei onde achar um sentimento ou outro que eu preciso. E vou tentar contigo tendo um monte das coisas que a gente queria ter, e deixando de ter outro monte, algumas que a gente nem sabia e nem sabe ainda.
Tem uma música que você gosta e eu não, que diz que "você é como o sol, ilumina meu dia mas queima a minha pele". E se eu fui isso pra você, porque você continuou? E eu disse que meu texto ia terminar feliz mas não consigo deixar de ficar triste pensando outra vez na solidão que acho que tu sente, e que parece contagiosa, só de falar dela eu sinto um pouquinho. Queria ser mais, queria poder consertar nós dois e não posso nem comigo.
Mas vai lá, vou terminar bem. Vou terminar dizendo que pelo menos agora as coisas não são como minha cabeça viciada quer projetar, como um caos. Elas simplesmente são como são, e eu não compreendo tão bem. Mas a gente ainda consegue ter o melhor um do outro. Ou... quase isso. Terminar dizendo que me consola a sua presença.
07/12/22 às 20h00
domingo, 27 de novembro de 2022
Uma noite assistindo a camerata de cordas da universidade da cidade.
Ontem vi uma árvore com folhas nas cores amarela e verde, só dois tons, e os espaços escuros. Pensei "Essa árvore não pode ser comum", apesar de que fosse, não era. Porque na frente dela, em plano mais baixo (em relação a árvore) e em plano mais alto (em relação ao público), estava montado um palco com uma camerata.
Eles executavam músicas que tocariam qualquer um por ser o que são, por suas idas e vindas, pela emoção que produziam. Mas tocavam mais ainda aquele público, presente por gostar dos filmes para os quais as músicas foram compostas, filmes que em sua narrativa e visual já conseguriam encantar.
Entretanto, estes são filmes produzidos por um homem que soube fazer o papel de um grande artista: Exprimir sentimentos que existem em todos nós, mesmo que nem sempre lembremo-nos deles ou sequer atentemo-nos, mas, este homem foi capaz de colocar nestes filmes, de forma nunca antes vista (por mim) tais emoções e climas (aqui colocados no meu entender do que é um clima).
O fato de uma musicalidade deliciosa estar associada a um trabalho audiovisual tocante já seria o suficiente para que, ao serem transportadas estas músicas para o real, no tocar de um violino, e vários outros instrumentos, e ao trazerem, no reger do maestro, do imaginário para o presente um pouco do mundo aqui descrito; aquela árvore se transfigurasse numa coisa especial. Porque basta uma simples luz amarela apontada para ela, para que uma árvore nessas condições sofra a transmutação mágica do encontro do real com o fantástico. Da suspensão do tempo.
Mais que isso para mim. Esses filmes me foram apresentados numa época especialmente delicada. Um deles me fazia dormir todas as noites quando nada mais conseguia. Outro, me inspirava a tentar tirar esses sentimentos da tela para fora. As narrativas que eles criaram dentro de mim se misturaram de tal forma com o que é especial que eu não pude conter um leve arrepio nos lados da nuca e algumas lágrimas que escorreram enquanto eu ouvia, naquela praça, no meio de uma cidade que tanto me fez mal, um pouco do que também me cura.
Naquele palco eu vi meu passado, vi o que se esconde em mim fora do tempo e me faz bem, vi o que busco e o que temo. Vi uma tentativa tímida e corajosa de unir tecnologia e música. Vi que não é preciso muito para fazer o incrível, mas que é preciso estar atento para se jogar nele. Quis estar presente. Tirei os óculos para enxergar o real. Fechei os olhos para ouvir o real e imperfeito mas que me servia tão bem. Por tão pouco quase deixei tudo aquilo escapar. Pensei: O quanto a gente subestima a cultura...
Quando, ainda este ano, vi uma frase do célebre Sociedade dos Poetas Mortos, não a achei tão real como agora depois da experiência de ontem: “Medicina, direito, administração, engenharia são atividades nobres. Mas poesia, a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais vale a pena viver”
Vi mais naquele palco. Os ciclos, ou melhor, a linhas que conectam fatos e lugares. Vi o futuro de um dos meus amigos e também uma reflexão de como o Maurício de Souza vive numa realidade tão distante da minha, que só ontem entendi porque ele desenha roupas masculinas de um jeito tão específico.
Houve um momento em que veio para a frente do palco uma menina. Todo o tempo a mãe dela estava, com uma elegância cinematográfica, guiando e apresentando a sequência de músicas da camerata. Ela (a mãe) usava uma blusa preta de manguinha, elegante e delicada, com um tecido suave e brilhoso. Uma calça preta opaca, com a mesma elegância da blusa (não poderia aqui descrever detalhes de corte e costura, por isso uso esses adjetivos repetidos e deixo para que a imaginação do leitor preencha as lacunas), e um salto preto reluzente. Tudo em seu aspecto me lembrava roupa de loja, o que me traz uma sensação ruim com suas problemáticas, mas inserida em tal contexto me trazia outro clima. Uma elegância de apartamento (outra vez, use a imaginação para entender, porque eu escreveria um texto inteiro associando o que a roupa daquela mulher me causou). E havia em cena, agora, a sua filha com um vestido rosa liso e uma meia calça discretíssima. Não lembro dos sapatos.
A menina, de treze anos, estava cantando uma música linda que eu não conhecia. Ela tinha os ombros um pouco curvados, a respiração um tanto descontrolada e um sorriso de aparelho muito característico da idade. O seu nervosismo era na medida conveniente. E eu encarei aquelas duas em cena, mãe e filha, como uma representação do passado e do futuro. O que uma mulher é, e o que pode se tornar. A leveza no rosto da filha era despretensiosa, e no rosto da mãe havia uma leveza amadurecida. Uma graciosidade que mostrava confiança e experiência. "Acho que a mãe dela escolheu esse vestido", e pensei sobre como ela estava entrando num mundo que não era dela, e onde talvez escolhesse ficar. O mundo é violento. Mas a gente faz o possível para encantar e se deixar saudável. Pensei na mulher mais velha "Como ela chegou ali? O que ela passou pra ser como é?" ela não parecia sofrida.
E ao final dos aplausos, como um aceno de cabeça do universo às minhas observações silenciosas, a menina fez menção de descer pela frente do palco, ao que sua mãe disse, com um tom muito fofo mas ainda elegante: "Não, não, não, por trás" e terminou com um "Tudo bem", bem conformado quando a menina desceu pela frente do palco assim mesmo.
Saí meio chateada por ter que voltar para a minha vida normal depois de um momento tão bom. Embora a vida seja cheia de momentos ímpares que aparecem de repente. Pensei outra vez em como subestimo o potencial de tais oportunidades, em como as deixo passar. Esse pensamento foi reforçado quando, passando por uma loja de quadrinhos mais tarde na mesma noite, me deparei com várias referências que eu gosto, ou gostaria de conhecer, e lembrei de como me empolgo com esse mundo do qual me afastei. A cultura pop (e a popular), a arte, os animes, os quadrinhos, revistinhas e artistas da internet com suas tirinhas, artistas da cidade com seus climas de bairro do limoeiro ou de mesa de bar, violência e putaria numa coletânea que eu poderia gostar... Se tem um rumo pra seguir é esse. O rumo que eu sei que funciona, de se deixar ser tocada, de nichar, de cavar mais fundo no que eu arranhei e gostei. Permitir que a identidade do presente seja a nostalgia boa do futuro.
E tem as companhias. A amizade deve ser justamente apreciar os acréscimos que cada personalidade faz num momento ímpar. Ver meus amigos chorando ao ouvir o tema de Túmulo dos Vagalumes e poder marcar de assistir muito em breve. Desejar a presença de alguém que eu queria que pudesse se emocionar junto com a gente. Voltar pra casa discutindo sobre acesso a cultura e sobre razões pra existir. Rir e se sentir segura. Tudo isso, só uma parte interessante do todo que foi essa noite de ontem. A vida é muito cheia, e no vazio (ou na oportunidade, no espaço) as coisas que enchem acham lugar pra escapar e se mostrar. Cabe a nós tentar ver.
terça-feira, 25 de outubro de 2022
Curtas 15 - Comidinhas
O fim de semana nem chegou e eu já sinto que vai ser pouco demais. Quero deglutir os afetos e os momentos cotidianos ao lado de pessoas que encorpam meu presente, tal qual o caldo grosso de uma carne de boi, cada uma de sua forma. Com sua presença, o estar ali, o comentário corriqueiro.
Quero abocanhar o fim de semana. Quero poder mastigar lentamente e articulando, na certeza de que posso ter colheres cheias e o prato nunca esvazia.
Mas, ao contrário, o prato é cada dia mais delicioso e mais escasso. Mais raro, e descubro condimentos que não havia percebido. Me relaciono com eles, identifico novos, cuspo fora os que não me servem. Escorre baba do meu queixo porque não fui capaz de cuspir tudo.
Sou uma moribunda ansiando por um prato que também temo, que não quero que acabe, que não é farto o suficiente mas que se me dão mais duas colheradas goela abaixo me engasgo e sufoco. Sou uma eterna insatisfeita. Sou uma futura despedaçada porque meu prato há de acabar. E eu hei de me arrepender pelos temperos que não fui capaz de descobrir. Pelas moscas que deixei pousar. Pelo tempo em que, olhando pro mundo, deixei que a comida esfriasse e me viesse a boca com uma dúvida, se era essa a minha colher.
Preciso aprender a cozinhar.
E agora a parte leve do texto.
Família é caldo de ovo, é um líquido quente e revigorante descendo a goela. Dá pra sentir a força e o tempo na textura.
Namoro é pizza (ou açaí). Moderno e clássico, inconstante, desejado, surpreende, nem sempre pra melhor, as vezes atrasado, as vezes falta mais. Por outro lado quando me empolgo me encho. Desequilibrada. Sempre um evento.
Amizade é sorvete. Nem sempre tem, mas quando tem é gostosinho. Dá pra achar em toda esquina. Fico desconfiada se vale a pena às vezes.
Desconhecido é tipo comida do bairro da Liberdade. Pode ser gostosinho e pode ser uma merda. Mas é difícil saber, tá tudo em outra língua!
E eu sou um bolinho. Madalena. =^.^=
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
Curtas 14 - Reflexões cotidianas antes de dormir.
De repente a infância parece muito distante. E as memórias que me compõem se tornaram lembranças em terceira pessoa.
É por isso que a vida não pode ser descrita em palavras. Porque ela contém tudo aquilo que já foi, mas também o que virá.
Mal compreendemos o que se passou, já não acessamos conscientemente o quanto isso faz parte de nós. Não somos capazes de, num cálculo rápido, dizer quanto de cada registro se dissipou ou se alastrou pelo nosso ser.
E logo se vê: não somos capazes de compreender o que virá, porque ainda não veio.
Usamos as palavras para definir o devir, o inesperado, o cotidiano, a passagem do tempo. Mas cada coisa dessas combinada e sentida é arte pra além das palavras e dos búzios.
Acho que foi Solange Roza quem disse, mas posso estar enganada:
"A essência de ser, é fazer. Acontecer, no entanto, é a essência do encanto."
Coisas como a vida e a morte são grandiosas nas telas e nos textos, mas existem.
E por existirem não são menos grandiosas, mas de tal modo arrebatadoras e empoeiradas, que nos desafiam a descobrir seus propósitos numa madrugada de terça pra quarta feira, onde tudo parece como sempre esteve, e eu penso em significados ocultos.
Busco me reconectar com a realidade antes que seja tarde demais. Antes que esse quarto um dia vire lembrança, sombra, ou pior... Desejo daquilo tudo que não fiz. Da fantasia não vivida.
Se permanece fantasia me arrependo. Guardada na memória como um desejo vago.
E os desejos vagos, arrependimentos, me impelem a arriscar. A controlar um pouco mais o músculo que age.
Mas mal nenhum me faz quando confrontada com a realidade.
Na coleção de lembranças que um dia foram fantasias e depois foram realidades eu vejo o que tem de mais bonito em mim.
A coragem de falar com aquele cara misterioso com a unha pintada de preto, que todo mundo tinha medo.
A felicidade de passar na faculdade, e ligar pra mãe no meio da noite dizendo que não é questão de paciência porque eu passei. (Tem algo de um filme que gosto nisso.)
O prazer de ter fotos em que me sinto linda.
As primeiras vezes, e as segundas vezes que pareciam primeiras.
Memórias que eu guardo e resgato, mastigo e acarinho. Memórias de quando ser corajosa parecia mais natural, e viver parecia mais simples. Ou eu só não tinha pensado sobre isso ainda.
Poderia esticar a conversa, mas estava prestes a entrar num papo de impressões e sentidos que só existem na minha cabeça e nem eu entendo muito bem, e de qualquer forma já ficou muito tarde e eu acordo cedo amanhã.
Não sei porque me vem na mente agora a imagem de uma menina que eu não gosto.
Isso não é um tipo de indireta sobre mim mesma, é realmente uma pessoa que eu não gosto e agora estou vendo o rosto dela. Pelo menos é um rosto agradável.
Definitivamente passei da hora de dormir.
quinta-feira, 21 de julho de 2022
Mais uma ou menos uma manhã?
Eu olho pra ela e ela me sussurra "vai ficar tudo bem". Eu precisava escutar. Sempre que olho pra ela, ela repete. Tenta me dizer, me chama pra perto. Diz pra eu me apressar, pra tirar uma tarde ensolarada e caminhar antes que volte a chover.
"Never mind I'll find someone like you, I wish nothing but the best for you too." A Adele canta de fundo. Não significa nada.
Eu e todo o resto do dia estendido a minha frente. Coisas que quero fazer e sei que vou. Outras que não sei. Angústias recorrentes passam pelo meu estômago, suaves aparecimentos e desaparecimentos.
Tenho medo desse estado, apesar de não ser nada intenso agora, quando estou suscetível a essa variação emocional. Horas tudo parece meio difícil e meio... Inaceitável. Inlidável. Outras horas parece tudo leve, normal, tranquilo, cheio de esperança. Os pássaros cantam desde que horas, se só agora parei pra ouvir? Só agora parei pra sentir esse cheirinho leve que não sei de onde vem, deve ser da minha cabeça. Tudo tranquilo e eu aqui maquinando, fervilhando em cozimento lento. Decidindo o que fazer em seguida. Parece que a inquietude está por aqui de novo, um sentimento de que algo bem no fundo está... Errado. A leveza tenta voltar.
Eu olho pra trás tentando confiar nela, tentando ver pela perspectiva que ela quer que eu veja, que tudo está bem, afinal. E vai continuar de toda forma.
Hoje acordei mais cedo e mesmo assim conto as horas pro sol ir embora, porque não quero que ele vá. Assim como conto os dias pra minha partida. Também não quero ir. Às vezes até quero. Quero o equilíbrio e a satisfação de todos os lados.
Gosto de ter coisas pra fazer, coisas marcadas. Gosto de ter coisas pra fazer, coisas inventadas, coisas que posso, mas não vou agora. Algumas que dão trabalho e servem pra me organizar. Outras que dão trabalho e me dão prazer. Alimentam minha fantasia que é o que me faz conseguir lidar com o mundo. O jeito peculiar de ver ele como uma fantasia até conseguir ver como uma sucessão de fatos comuns. Fantasiar pra não cair em desespero (com uma visão distorcida). Porque continuo me entregando tanto a cada momento como se tudo fosse tão absoluto? E porque em outros tantos momentos eu simplesmente me alheio, subindo nas costas da ansiedade, deixando ela me guiar sobrevoando futuros imaginados de toda forma, por interpretações incompletas e por angústias; quando meu corpo fica aqui no presente, inerte, abandonado em seu propósito único que é agir no agora? Como posso me alhear tão facilmente de mim?
As versões das minhas atitudes, do que eu serei no futuro e do que eu sentirei, são imaginações, são irreais. Não são eu. E já me provei, por bem ou por mal, que não consigo me imaginar tão bem assim no futuro. Em geral eu sou mais otimista na minha mente do que funciono na realidade. Apesar disso, eu também sei me surpreender. Achando a tranquilidade em momentos que imaginava que seriam um suplício, e virando outra versão de mim.
Sou uma e sou muitas, elas não se lembram tão bem uma da outra. Eu enxergo o passado de um jeito estranho, esqueço fácil, tenho dificuldade de acreditar no que estava sentindo quando não estou mais. Na verdade, não de acreditar mas de entender. Uma grande subestimadora de sentimentos, é isso. Exceto dos que me traumatizaram o suficiente pra ficar bem longe deles.
Penso numa imagem engraçada. Antes de tomar uma decisão, colocar um aviso num quadro interno. "Estou pensando em fazer isso". E cada uma que passar por lá pode dar sua opinião. Será que ao menos uma de mim é capaz de querer e lutar por isso? As outras não querem tanto. Consideram importante, mas não vão assumir a tarefa. Talvez precisemos criar uma nova. Elas surgem meio naturalmente, na verdade. Tentar criar sem paciência geralmente me frustra, é uma ilusão, ela some depois de um tempo.
Conhecer uma nova eu é mais ou menos difícil do que conhecer um novo outro?
P.S. sobre a ideia de que estamos todos perdidos na juventude. Talvez tudo faça mais sentido na vida adulta porque simplesmente viveram o suficiente pra narrar as coisas como sendo uma sucessão de acontecimentos que aparentemente eram o que deveria ser. Pura sorte no infinito de possibilidades. Isso não quer dizer que estejamos fazendo algo errado agora.
quarta-feira, 20 de julho de 2022
Insone, contemplo minha musa.
O vento que corre fora da janela e atinge meu rosto por entre as grades é tão frio quanto o do ventilador aqui dentro.
Contemplo a paisagem e meus pensamentos, por mais que se deparem com os mesmos temas confusos de antes, não me despertam sentimentos ansiosos. Tenho cautela pra não pegar pesado demais.
Passam pela minha mente, vagamente puxados por uma e outra recordação. As luzes lá no fundo parecem estrelas. Ou cruzes brilhantes de túmulos. Ou luzes de naves espaciais ou uma cidade bonita num jogo.
Tem algumas coisas que quero pensar, percebo que não vou concluir nada agora. Quantas vezes já fiquei nesse mesmo estado de contemplação em outras janelas que agora mal me vem na memória?
Mas tem uma coisa que não quero esquecer. É essa ideia. A de que me faz bem estar em vários lugares. Pode ser desconfortável não estar acostumada e ter que se adaptar. Mas essa diversidade e as possibilidades são a riqueza que quero. Não posso esquecer de que quero estar assim. Quero ter espaço, lugares pra ir, coisas pra ver, noites pra curtir e principalmente pessoas interessantes e confiáveis ao meu lado.
Outras coisas surgem. Porque escutar mais a certeza de alguém do que a minha? Lembro dela e ela é meu contraponto. Lembro dela que não tem culpa e talvez não tenha sentido quase nada, mal imaginando o que representa pra mim. Um pivô que involuntariamente acendeu temas tão quentes na minha vida. E eu vivo me esgueirando da chama. Mas eu precisava. E tenho medo. Devia agradecer a ela depois, só que sem que ela perceba. Ela provavelmente nunca vai saber o que significa pra mim.
Eu queria me segurar em algo. Queria ter uma certeza sequer que fosse plena e imutável, e que fosse boa e um acalanto. Mas o que eu tenho são dúvidas e certezas ruins. Não tem idade nem confiança nem preparo que me deixe pronta pra tudo. E eu não tô pronta pra um monte de coisa também. E pra algumas nunca estarei.
A cidade dorme e eu tenho insônia. Quero voltar a ler mas a minha narrativa me parece a mais interessante. Olhei as estrelas mais cedo e não consegui identificar constelação nenhuma. De onde vem as estrelas cadentes? Eu sabia que não precisava de uma pra saber meu pedido. Eu quero ser feliz com o que eu fizer do futuro. Provavelmente eu vou ser e isso deveria ser bom. Mas me incomodo que não vou ser feliz do jeito que eu tô agora. Com essa casa e essa vida que é uma visita/vista e não uma vida. E deus me livre que fosse essa a minha vida o tempo todo. Porque eu ia saturar até das coisas boas quem sabe?
É engraçado como as fases passam e eu me adapto aos cenários e descubro como estar bem neles. Nem sempre rápido como gostaria. Mas agora estou mais tranquila do que estive no último ano.
Ainda cheia de contradições. As escolhas parecem todas erradas. Parece tudo inseguro demais. Tudo parece que descamba no mesmo balde que é o fracasso. E no meio disso tudo um pensamento louco de me entregar ao fluxo da vida mais caricata que eu consigo pensar pra me agarrar a uma segurança que nem existe.
Aqui olhando pra minha musa quieta, monótona, segura pra mim. O cheiro dela está todo mudado. Eu olho pra ela e não sinto nada especial, mas é justamente o não sentir que eu buscava. Ele subentende segurança, tranquilidade, aceitação. Ela me isola do resto do mundo, essa musa.
Se aquelas folhas balançarem um pouco mais devagar eu não vou conseguir ver. E vai parecer que eu parei no tempo.
As coisas aqui as vezes me lembram a cidade de quando eu tinha seis anos de idade. Que ironia porque elas tem o mesmo nome. Hoje, por um breve momento, me lembrou de um jeito ruim. Mas eu não tenho mais seis anos. Infelizmente tanto pras coisas boas quanto pras ruins a gente constrói significados desde pequena. Eu tento destruir os sentidos ruins às vezes. Dissecar e entender. Mas aí os bons ficam parecendo frágeis também. Sentidos... Nem sempre dá pra controlar como as coisas chegam. Nem sempre dá pra controlar como se reage a elas. Eu agradeço a calma. Agradeço sempre que noto.
segunda-feira, 27 de junho de 2022
A academia me fez concordar com o Guimarães Rosa.
"Vivemos esperando o dia em que seremos melhores" dizia Jota Quest. E com minha recente entrada na academia e algumas poucas experiências apresentando cenas pra um grupo no teatro, descobri que pra essas coisas pelo menos -- não cabe a mim dizer se pra todas -- a gente nunca se sente pronto. Não tem texto bem decorado e figurino que te faça saber, porque não tem como saber até acabar, que vai dar tudo certo. E a gente fica nessa ansiedade achando não que algo vai dar errado, nem sempre, às vezes só nervoso de aparecer pra tanta gente e apresentar algo que sempre pode ser melhor. E a gente não se sente pronto. Porque dava pra ter passado mais uns dias passando texto, dava pra ter ajustado a iluminação, talvez simplificar mais os diálogos ou ter pensado num objeto de cena além de uma placa com o nome do cenário.
Mas aí quando você entra em cena, e vai acontecer, a ação é realizada e acaba. Passa tudo rápido e a gente descobre que tava pronto sim. Talvez não tanto quanto queríamos, mas o suficiente. Então porque que antes de pisar no palco não parecia?
Na outra situação, em que me encontro agora, a da academia, ocorre que eu me arrumo e fico esperando aquele momento em que vou me sentir pronta. Penso no esforço que vou ter que fazer, no braço morrendo, na perna ardendo, e sei que agora não tô no clima pra isso, bem deitada na cama. Mas daí com uma transformação digna de Steveson de repente estou me alongando e de repente estou na cadeira puxando peso. Não há transição da minha vontade antes disso, eu só estou pronta quando eu estou lá. E é esse o ponto. O estar pronto às vezes é só ter saúde. E uma legging.
Eu esperei algumas semanas pelo momento certo de trancar a faculdade.
Eu esperei por alguns meses o momento ideal pra fazer academia.
Esperei por muitos meses o momento em que começaria a ficar feliz de novo.
Todos esses momentos foram afetados pelo tempo, se tornaram mais urgentes, mais presentes, mais incômodos. O tempo ajuda e muito a curar, ajuda a resolver as coisas e às vezes a deixar elas mais compreensíveis. As coisas mudam, a gente muda, e tudo vai se encaixando.
Mas nesses três exemplos as coisas só aconteceram quando eu escutei a urgência do tempo. Quando eu fui e fiz mesmo sem me sentir tão pronta assim. E nem me aprofundo aqui nas inúmeras coisas que eu entreguei pro tempo e ele passou correndo antes que eu me virasse pra olhar. Roubou de mim. Levou embora.
Me disseram recentemente "eu só me arrependo do que eu não fiz". Não é que eu me identifique totalmente com essa afirmação, mas eu sei que é muito mais fácil eu me arrepender por não fazer algo do que me arrepender de ter tentado. Porque a experiência pessoal é valiosa demais.
Eu gosto da segurança, gosto de me sentir confortável e uso aqui as palavras da minha professora que me acalmaram como uma mão certeira que para o balanço da rede:
"Eu passei muito tempo buscando o lugar onde me sinto confortável. E agora que eu achei não vou sair dele. Eu não vou ser preguiçosa, mas não vou abandonar meu conforto".
Mas o conforto está também em lugares inusitadíssimos. Como uma academia toda colorida tocando música duvidosa, ou uma sala preta cheia de gente mais ou menos conhecida falando coisa que dá sono.
A vida tem muito disso, segundo Chorão "às vezes faço o que quero, e às vezes faço o que tenho que fazer", a maioria das lutas é pelo equilíbrio. Largar o conforto aqui pra descobrir o conforto mais na frente. E o mais doido são as flutuações desses parâmetros. E o quanto a gente se acostuma. E vai ficando. Cria raiz, e cria gosto pela coisa.
Não quero viver a vida somente esperando o dia em que seremos melhores. Eu já sou o suficiente pra começar um monte de coisa que eu botei na mão do tempo.
E quando me dou conta disso parto pra outra, a de organizar, priorizar, objetivar, decidir o que e como eu vou passar o tempo que eu tenho. E nessa negociação nem sempre parecem ter escolhas certas ou erradas. Dentre um monte de possibilidades distintas, meio rascunhadas, mas sabendo que uma delas vai acontecer e depois vai acabar, acaba que todas as escolhas são a certa. E eu posso escolher... Agora e ainda.
Dentro de certas vontades, limites, possibilidades, enfim, dentro da zona de ação que eu tenho, com o pouco que posso tentar prever. Eu tenho que parar de esperar o momento em que vou estar vivendo. E parar de esperar uma autorização metafísica pra ser feliz ou simplesmente estar tranquila. Já sentiu que passa a vida toda esperando algo, ou muitos algos, que nunca vêm? Que na verdade passa a vida esperando... Ela mesma?
E termino esse texto que se disfarça de leve mas esconde uns tantos pesos, com um poema bonito do Guimarães Rosa porque eu li uma frase e achei bem bom pra terminar, e aí li o texto inteiro e fiquei achando melhor ainda.
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente
aprendendo a ser capaz
de ficar alegre a mais,
no meio da alegria,
e inda mais alegre
ainda no meio da tristeza!
A vida inventa!
A gente principia as coisas,
no não saber por que,
e desde aí perde o poder de continuação
porque a vida é mutirão de todos,
por todos remexida e temperada.
O mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior.
Viver é muito perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas
quinta-feira, 28 de abril de 2022
Blogs, climas e uma conversa que ficou pelo mei do caminho.
Descobri hoje que um dos blogs que via na adolescência, e eram tão poucos que eu sempre considerei um site e não um blog, acabou há dois anos e eu não estava sabendo. Pesquisando sobre ele entrei um pouco em contato com o climinha de blog dos anos 2010, lembrei do blog da minha prima que pra mim é uma eterna relíquia do clima de jovem cool alternativo que me causava tanta admiração na época, e que me causa um certo conforto hoje. Uma mistura de imagens de sonhos e lembranças da pré-adolescência, comerciais de tv, cores de parede, jogos... Compõem esse clima que me refugia, que me alivia em momentos de angústia e que eu desejo mas não corro atrás realmente.
Sempre que faço uma casa no the sims 2 eu tento recriar esse clima, esse cantinho utópico que fiz na minha cabeça. Uma das imagens que sempre me vem é a seguinte: Tem um grupo de jovens num espaço, como a frente de um prédio público de tijolos aparentes, a calçada é de tijolinhos, é noite. A luz amarela do poste ilumina e uma árvore enorme faz jogo de sombra. Toca charlie brown jr. e tudo é perfeito. Todas as emoções da cena "real" são ignoradas, as emoções dos personagens não interessam tanto quanto a segurança que esse cenário me passa.
Na época em que eu me sentia muito perdida e assustada e não conseguia dormir, eu ouvia as aberturas de naruto e lembrava da minha cidade e esse clima me refugiava. Hoje quando sou perseguida por um monte de sentimentos estranhos e ruins que não sabia ser capaz de sentir, eu ainda recorro a ele vez ou outra. E mesmo quando estou bem, é uma nostalgia gostosa.
A noite fica bonita nos olhos da minha imaginação. Livros, praças, janelas, céus, árvores e postes de luzes amarelas. Puxam outros climas bons. Puxam o céu preto com estrelas e a rua enorme de areia. Puxam os vasos pendurados no corredor e a voz de uma mulher, que poderia ser minha avó, cantando enquanto acordo vendo as luzes das telhas. Puxam as minhas noites ouvindo abertura de malhação. Puxam o cheiro de salsicha frita e de frango cozido. Puxam rolos de linha e imagens de jesus. E puxam outros climas fictícios (e não seriam todos? inventados, mudados pelo tempo, reinterpretados, romantizados?).
E o cotidiano me puxa. O cheiro da fritura, o gosto do frango, o cheiro de um perfume ou cortes e cortes de pensamentos e climas rápidos, que me deixam muito mal. O texto não era sobre isso. Isso era pra outro texto que eu estava pensando em como escrever. Um texto que começava com algo do tipo "às vezes parece que eu parei de escrever pro blog pra escrever na agenda da terapia".
E lá pelo meio do texto eu escreveria algo como o incômodo e a tristeza que me deu outro dia quando lembrei que eu nunca quis ser uma daquelas pessoas com a boca repuxada pra baixo de tristeza. E o quanto foi ruim perceber que não sou mais a pessoa feliz que era antes, ou não tenho sido nos últimos meses, ou anos... Não quero perder a futura marquinha do meu sorriso antigo. E pensar nisso me deixou ainda pior.
O clima é uma junção de pensamentos, de crenças, de emoções que foram vividas e de expectativas e de conformidades. Tudo isso embolado, jogado, causa uma sensação. Tenho tentado desembolar os climas ruins da minha cabeça, entender pra desfazer. Como desfazer os ruins e não os bons? Como lidar com coisas ruins?
Minha sogra acha que o ano está passando rápido. Eu também acho e ao mesmo tempo tive semanas que duraram meses. E os últimos dois meses poderiam facilmente ter sido seis. Teve uma semana em que a semana anterior me parecia uma outra vida. Teve uma terça em que a segunda anterior me parecia uma outra vida. Teve uma segunda em que o beijo que eu dei as quatro da manhã parecia nunca ter existido às cinco da tarde.
Tem dias que são mais fáceis que outros. Tem manhãs que são melhores que as tardes. Tem tardes que são menos ruins que noites. Tem noites que são melhores que as manhãs do dia seguinte.
No começo do ano as coisas e lugares que me deixavam ansiosa agora me dão conforto. E lugares que me davam conforto me deixam ansiosa. Concluí que dadas as mudanças de contexto, as curas e as pioras, mesmo com essas diferenças tem uma coisa que tem que se ajeitada dentro de mim. Parece que o músculo de sentir andou quebrado e eu não consegui consertar ainda. Talvez sempre estivesse e eu não percebia.
Tanto faz, eu faço terapia justamente pra não precisar ficar expondo publicamente todo o tormento da minha cabeça. Então vamos voltar ao tema do blog, mas antes de encerrar o assunto, eu queria dizer que no começo da pandemia eu ainda me achava a pessoa mais feliz, sã e livre de problemas que eu conhecia, e achava até injusto. Pois bem, a conta chega.
Então, voltando ao lance dos blogs. Agora acabou o clima e acabou o assunto. Depois apareço e falo mais sobre. Nem tem tanto pra falar. No auge dos blogs (ao meu ver) eu tava jogando club penguin.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Curtas 13 - O segredo que a musa me contou.
Eu sempre achei que meu namorado seria minha musa, de tanta coisa que ele significa achei que seria o tema principal de todos os meus textos e cartas de amor. E ele deve ter ciúmes se descobrir que a musa desse texto é a cidade dele.
Foi ela quem me disse no canto do passarinho, na carícia do vento e na voz de uma cantora de forró que eu talvez não conheça, e também com toda a força da tarde e do sol que se põe, que ainda é possível ser feliz e conhecer de novo o clima bonito de cidade pequena que me fez tão feliz na infância e que até hoje me sustenta.
Aí eu achei bonito e quis fazer uns registros. E ela me disse que não adiantaria mostrar um gif torto de um passarinho pra passar o que se importa, porque precisa de mais. E que também não bastava um vídeo bem claro com uma resolução massa e o som de tudo isso. Porque era preciso mais.
E eu disse: mas nem se eu botar ele aqui pra ver essa vista e sentir na pele esse vento, e ouvir com os próprios ouvidos o canto do passarinho, os carros passando, a mulher cantando, o cimento sendo mexido?
Nem se ele sentir na boca o gosto da minha saliva e do meu lábio seco e nem se sentir nas costas a coluna torta? Nem se ele sentir esse cheiro que é tão familiar que já mal se sente a não ser que se esfregue o nariz nessa roupa lavada cheia de água, cheirosa a sabão?
E ela me disse: nem assim.
Porque nem todos os seis sentidos dele bastam se ele não tiver o sentido da tua mente. Que foi formado de toda a vida até agora, e que só faz sentido pra tu. E pra mim que tô te mostrando. Tudo convergiu pra eu te mostrar esse momento particular, nosso.
O passarinho foi embora, o sol terminou de se esconder atrás das nuvens e eu fiquei pensando: é mermo, é? Pois taí que eu não sabia.
domingo, 23 de janeiro de 2022
Curtas 12 - O céu de uma cidade do interior.
[ ]É essa cidade afastada de tudo que é rápido e forte. Parece que nem as àrvores tem pressa de balançar sob a brisa. As nuvens do apocalíptico pôr do sol estão congeladas, estáticas, escuras e cinza azuladas contra o amarelo lanceado de azul do céu. É linda essa cidade. A vista do primeiro andar, que paira sobre os telhados de telhinhas vermelhinhas e inclinadas e as árvores verde escuro ou salpicadas pacientes a luzes de postes, é enriquecida pelos pontos de luz branca, midiática, de clima de escola e de clima de passado. O laranja avermelhado do fundo, bem no fim do céu observável, contorna caixas dáguas e antenas de tv. E nessa hora o concreto é lindo e o acesso é evidente. O ronco de uma moto, deseducada comparada com todos os motores que passaram até agora, não é suficiente pra calar a paisagem silenciosa que é o pôr do sol numa cidade urbanizada do interior.
23 de janeiro de 2021 em pleno poente.
sábado, 22 de janeiro de 2022
Curtas 11 - Na topique.
O para brisa desliza no toque da bateria de perfeita simetria, do engenheiros. A sincronia é tão impressionante que me inspira a escrever esse texto. Quando a chuva começou a cair, a câmera deu um close na minha cara sem expressão e cortou novamente pros pingos grossos e repentinos enquanto a narração enfatizava o fato, antes mostrado, de eu ter separado mudas de roupa contadas pra esse fim de semana. E nenhuma peça era muito maior que dois palmos de comprimento. Eu sei que sou pequena, mas asseguro que isso não basta pra me cobrir. Muito menos aplaca o frio constante em minha vida.
De uma das cadeiras do corredor olho pra frente. A música diz: seguir viagem. Com o olhar fixo consigo absorver os vultos laterais de coqueiros que se destacam da caatinga verde por causa da água que deu esses dias. As janelinhas tem cortinas, acho apropriado. Pra emoldurar esse espetáculo que é minha terrinha e esse céu bonito da manhã, que mesmo chuvoso ainda consegue ser azul.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
Devaneio na janela de um dia cheio.
Conversas, encontros e movimentos. Música. Enchem meus olhos, desafetam meu coração pra novamente afetar. Me esperançam, me alegram, enchem minha mente de rimas e de sentidos. As garças no lodo e a segurança, engenheiros no fone, a bandeira do brasil tremula no céu estático e calmo. A polícia corre, luzes de sirene, faróis de carro, o concreto se levanta e corre pra trás. Toca queen: "having a good time..."
A tarde cai tranquila e eu me desloco através dela, acompanho o vôo dos passarinhos, minha mente ultrapassa a todos nós. Um papai noel moderno e solitário caminha. A estrela me persegue, quero saber o nome da sua constelação. Ou será um planeta?
Don't stop me now, cause I'm having a good time, I don't want to stop at all. Lalalalala....
O mototaxista conversa com a boca e com as mãos, a natureza me lembra uns três climas diferentes e bons, um cachorro olha o nada, dois ciclistas carregam suas bicicletas, eles não se vêem. Um coqueiro faz vigília pra todo o resto lá atrás, uma mãe ajeita o cabelo da filha, a filha anda e ajeita o short. Uma moto parada sozinha. Casinhas e um casal. Passam pessoas, passa a luz amarela tranquila. As pessoas conversam enquanto a luz tranquila da tarde desliza. Passo num bairro em que ja morei, acho que acabo de passar minha antiga rua, dessa vez estou na janela certa pra ver, mas sempre é rápido demais pra que eu tenha certeza.
Confirmei no mapa, era a rua certa. Vejo coqueiros, lembro daquele coqueiro, lembro da minha infância, é impossível não voltar pra ela nesses momentos, escuto uma música tão boa e tropical, a decadência da cidade me incomoda, as luzes me fascinam. O movimento do trânsito parece natal. A polícia ainda corre lá embaixo.
Lembro de cheiros que já não posso sentir, ouço idosos falando das mães, do que elas diziam. Lembro de novo da minha infância, e choro porque é bonito, confortável e parece que sempre houve e sempre vai haver. E nunca houve de fato, porque se mistura com outras luzes que passam sempre na minha memória.
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Curtas 4 - Uma noite de chuva
O coração parece aprofundar as batidas, mas é só a percussão de alguma música popular rufando quase indistinguível num veículo ao longe. Passam motos barulhentas, passam gritos. Faz-se silêncio de vez em quando, exceto pela chuva que cai fraca e rememora algo. Levanta um cheiro de mormaço que nem deveria haver numa hora tão tardia. Um cheiro de marrom, verde e aquela cor desbotada de fundo de fotografia antiga, que conversa com a infância e com as memórias que preguiço pra lembrar, e existem ou não, de forma abençoada por ser essa mesma a casa que me remetia tanto acolhimento a onze anos atrás, e me remete tanta segurança agora, rompida apenas pelos barulhos e pelas notícias que adentram pelos 36 blocos na parede da cozinha ou pela luz embaçada das telhas de vidro.
Um grito aterrorizante se avoluma vindo de longe, mas são apenas pneus rodando na pista asfaltada cercada de mato e luar virando algumas esquinas.
Hoje é uma noite de neblina fraca. Mas em geral são apenas noites quentes, frias pra mim, que deixam espaço para os mais inexplicáveis e estranhos ruídos. Nem me refiro aos cachorros latindo na rua, ou aos gatos que viram e mexem nos telhados. Ou aqueles que fazem um musical desafinado no meio da noite, no amor ou na guerra. Me refiro aos seis galos, até onde pude contar, que carcarejam sempre as duas, as vezes mais cedo. Me refiro ao barulho de carro e porta sempre quase no mesmo horário da madrugada, e dos estalidos de vidro e alumínio. Os carros e as motos aparecem vez ou outra, e alguns até podem parar por qualquer razão especial. Ferrolhos escurecidos e camas que rangem permeiam o ar noturno, pequenos passos, uma carreira. O vento agora corre leve, mas tem dias que vem forte e se demora. Balança as folhas das árvores.
Um barulho agudo se ergue de qualquer lugar.
Hoje já não estão, mas ontem estavam uns moleques na rua de voz que antecipa a malandragem e estavam discutindo, rindo alto e chutando algo. Na noite silenciosa são perfeitamente audíveis. Algumas noites tem festas, e aí não se escuta nada.
Mas na mais profunda quietude, sempre se pode ouvir a sinfonia dos pequenos insetos. Um barulho constante, agudo e baixinho na frequência da atenção. São os pequenos grilos embaixo da pia, as formigas em seus formigueiros por trás das paredes, as baratas em nichos, as traças se arrastando por baixo de um móvel especialmente escuro e intocável. O vento, os bichos, os bichinhos, os carros nas pistas, as vozes, os barulhos. Tudo que não me assusta me faz sentir em casa.
domingo, 27 de setembro de 2020
Curtas 3 - Campanha Eleitoral
São 02:40 da manhã, até os cachorros da rua estavam quietinhos, e um vizinho achou uma boa ideia ligar o carro de som com propaganda dum candidato a prefeito ou vereador, sei lá. Deve ter lido uma dessas conspirações que dizem que botar mozart pra bebês faz eles crescerem inteligentes, e ouvir audiolivros durante o sono te faz compreender eles, então, por extensão, botar propaganda eleitoral pra tocar enquanto todos dormem deve equivaler a uma lavagem cerebral? Uma leve indicação como as mensagens subliminares?
Tá valendo tudo mesmo.
Atualização as 02:51: um vizinho mais distante ligou a música do concorrente.