Mostrando postagens com marcador Nostalgia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nostalgia. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de novembro de 2022

Uma noite assistindo a camerata de cordas da universidade da cidade.

    Ontem vi uma árvore com folhas nas cores amarela e verde, só dois tons, e os espaços escuros. Pensei "Essa árvore não pode ser comum", apesar de que fosse, não era. Porque na frente dela, em plano mais baixo (em relação a árvore) e em plano mais alto (em relação ao público), estava montado um palco com uma camerata. 

    Eles executavam músicas que tocariam qualquer um por ser o que são, por suas idas e vindas, pela emoção que produziam. Mas tocavam mais ainda aquele público, presente por gostar dos filmes para os quais as músicas foram compostas, filmes que em sua narrativa e visual já conseguriam encantar.

    Entretanto, estes são filmes produzidos por um homem que soube fazer o papel de um grande artista: Exprimir sentimentos que existem em todos nós, mesmo que nem sempre lembremo-nos deles ou sequer atentemo-nos, mas, este homem foi capaz de colocar nestes filmes, de forma nunca antes vista (por mim) tais emoções e climas (aqui colocados no meu entender do que é um clima).

    O fato de uma musicalidade deliciosa estar associada a um trabalho audiovisual tocante já seria o suficiente para que, ao serem transportadas estas músicas para o real, no tocar de um violino, e vários outros instrumentos, e ao trazerem, no reger do maestro, do imaginário para o presente um pouco do mundo aqui descrito; aquela árvore se transfigurasse numa coisa especial. Porque basta uma simples luz amarela apontada para ela, para que uma árvore nessas condições sofra a transmutação mágica do encontro do real com o fantástico. Da suspensão do tempo. 

    Mais que isso para mim. Esses filmes me foram apresentados numa época especialmente delicada. Um deles me fazia dormir todas as noites quando nada mais conseguia. Outro, me inspirava a tentar tirar esses sentimentos da tela para fora. As narrativas que eles criaram dentro de mim se misturaram de tal forma com o que é especial que eu não pude conter um leve arrepio nos lados da nuca e algumas lágrimas que escorreram enquanto eu ouvia, naquela praça, no meio de uma cidade que tanto me fez mal, um pouco do que também me cura. 

    Naquele palco eu vi meu passado, vi o que se esconde em mim fora do tempo e me faz bem, vi o que busco e o que temo. Vi uma tentativa tímida e corajosa de unir tecnologia e música. Vi que não é preciso muito para fazer o incrível, mas que é preciso estar atento para se jogar nele. Quis estar presente. Tirei os óculos para enxergar o real. Fechei os olhos para ouvir o real e imperfeito mas que me servia tão bem. Por tão pouco quase deixei tudo aquilo escapar. Pensei: O quanto a gente subestima a cultura... 

    Quando, ainda este ano, vi uma frase do célebre Sociedade dos Poetas Mortos, não a achei tão real como agora depois da experiência de ontem: “Medicina, direito, administração, engenharia são atividades nobres. Mas poesia, a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais vale a pena viver”

    Vi mais naquele palco. Os ciclos, ou melhor, a linhas que conectam fatos e lugares. Vi o futuro de um dos meus amigos e também uma reflexão de como o Maurício de Souza vive numa realidade tão distante da minha, que só ontem entendi porque ele desenha roupas masculinas de um jeito tão específico. 

    Houve um momento em que veio para a frente do palco uma menina. Todo o tempo a mãe dela estava, com uma elegância cinematográfica, guiando e apresentando a sequência de músicas da camerata. Ela (a mãe) usava uma blusa preta de manguinha, elegante e delicada, com um tecido suave e brilhoso. Uma calça preta opaca, com a mesma elegância da blusa (não poderia aqui descrever detalhes de corte e costura, por isso uso esses adjetivos repetidos e deixo para que a imaginação do leitor preencha as lacunas), e um salto preto reluzente. Tudo em seu aspecto me lembrava roupa de loja, o que me traz uma sensação ruim com suas problemáticas, mas inserida em tal contexto me trazia outro clima. Uma elegância de apartamento (outra vez, use a imaginação para entender, porque eu escreveria um texto inteiro associando o que a roupa daquela mulher me causou). E havia em cena, agora, a sua filha com um vestido rosa liso e uma meia calça discretíssima. Não lembro dos sapatos. 

    A menina, de treze anos, estava cantando uma música linda que eu não conhecia. Ela tinha os ombros um pouco curvados, a respiração um tanto descontrolada e um sorriso de aparelho muito característico da idade. O seu nervosismo era na medida conveniente. E eu encarei aquelas duas em cena, mãe e filha, como uma representação do passado e do futuro. O que uma mulher é, e o que pode se tornar. A leveza no rosto da filha era despretensiosa, e no rosto da mãe havia uma leveza amadurecida. Uma graciosidade que mostrava confiança e experiência. "Acho que a mãe dela escolheu esse vestido", e pensei sobre como ela estava entrando num mundo que não era dela, e onde talvez escolhesse ficar. O mundo é violento. Mas a gente faz o possível para encantar e se deixar saudável. Pensei na mulher mais velha "Como ela chegou ali? O que ela passou pra ser como é?" ela não parecia sofrida. 

    E ao final dos aplausos, como um aceno de cabeça do universo às minhas observações silenciosas, a menina fez menção de descer pela frente do palco, ao que sua mãe disse, com um tom muito fofo mas ainda elegante: "Não, não, não, por trás" e terminou com um "Tudo bem", bem conformado quando a menina desceu pela frente do palco assim mesmo. 

    Saí meio chateada por ter que voltar para a minha vida normal depois de um momento tão bom. Embora a vida seja cheia de momentos ímpares que aparecem de repente. Pensei outra vez em como subestimo o potencial de tais oportunidades, em como as deixo passar. Esse pensamento foi reforçado quando, passando por uma loja de quadrinhos mais tarde na mesma noite, me deparei com várias referências que eu gosto, ou gostaria de conhecer, e lembrei de como me empolgo com esse mundo do qual me afastei. A cultura pop (e a popular), a arte, os animes, os quadrinhos, revistinhas e artistas da internet com suas tirinhas, artistas da cidade com seus climas de bairro do limoeiro ou de mesa de bar, violência e putaria numa coletânea que eu poderia gostar... Se tem um rumo pra seguir é esse. O rumo que eu sei que funciona, de se deixar ser tocada, de nichar, de cavar mais fundo no que eu arranhei e gostei. Permitir que a identidade do presente seja a nostalgia boa do futuro. 

    E tem as companhias. A amizade deve ser justamente apreciar os acréscimos que cada personalidade faz num momento ímpar. Ver meus amigos chorando ao ouvir o tema de Túmulo dos Vagalumes e poder marcar de assistir muito em breve. Desejar a presença de alguém que eu queria que pudesse se emocionar junto com a gente. Voltar pra casa discutindo sobre acesso a cultura e sobre razões pra existir. Rir e se sentir segura. Tudo isso, só uma parte interessante do todo que foi essa noite de ontem. A vida é muito cheia, e no vazio (ou na oportunidade, no espaço) as coisas que enchem acham lugar pra escapar e se mostrar. Cabe a nós tentar ver.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Blogs, climas e uma conversa que ficou pelo mei do caminho.

Descobri hoje que um dos blogs que via na adolescência, e eram tão poucos que eu sempre considerei um site e não um blog, acabou há dois anos e eu não estava sabendo. Pesquisando sobre ele entrei um pouco em contato com o climinha de blog dos anos 2010, lembrei do blog da minha prima que pra mim é uma eterna relíquia do clima de jovem cool alternativo que me causava tanta admiração na época, e que me causa um certo conforto hoje. Uma mistura de imagens de sonhos e lembranças da pré-adolescência, comerciais de tv, cores de parede, jogos... Compõem esse clima que me refugia, que me alivia em momentos de angústia e que eu desejo mas não corro atrás realmente. 

Sempre que faço uma casa no the sims 2 eu tento recriar esse clima, esse cantinho utópico que fiz na minha cabeça. Uma das imagens que sempre me vem é a seguinte: Tem um grupo de jovens num espaço, como a frente de um prédio público de tijolos aparentes, a calçada é de tijolinhos, é noite. A luz amarela do poste ilumina e uma árvore enorme faz jogo de sombra. Toca charlie brown jr. e tudo é perfeito. Todas as emoções da cena "real" são ignoradas, as emoções dos personagens não interessam tanto quanto a segurança que esse cenário me passa. 

Na época em que eu me sentia muito perdida e assustada e não conseguia dormir, eu ouvia as aberturas de naruto e lembrava da minha cidade e esse clima me refugiava. Hoje quando sou perseguida por um monte de sentimentos estranhos e ruins que não sabia ser capaz de sentir, eu ainda recorro a ele vez ou outra. E mesmo quando estou bem, é uma nostalgia gostosa. 

A noite fica bonita nos olhos da minha imaginação. Livros, praças, janelas, céus, árvores e postes de luzes amarelas. Puxam outros climas bons. Puxam o céu preto com estrelas e a rua enorme de areia. Puxam os vasos pendurados no corredor e a voz de uma mulher, que poderia ser minha avó, cantando enquanto acordo vendo as luzes das telhas. Puxam as minhas noites ouvindo abertura de malhação. Puxam o cheiro de salsicha frita e de frango cozido. Puxam rolos de linha e imagens de jesus. E puxam outros climas fictícios (e não seriam todos? inventados, mudados pelo tempo, reinterpretados, romantizados?). 

E o cotidiano me puxa. O cheiro da fritura, o gosto do frango, o cheiro de um perfume ou cortes e cortes de pensamentos e climas rápidos, que me deixam muito mal. O texto não era sobre isso. Isso era pra outro texto que eu estava pensando em como escrever. Um texto que começava com algo do tipo "às vezes parece que eu parei de escrever pro blog pra escrever na agenda da terapia".

E lá pelo meio do texto eu escreveria algo como o incômodo e a tristeza que me deu outro dia quando lembrei que eu nunca quis ser uma daquelas pessoas com a boca repuxada pra baixo de tristeza. E o quanto foi ruim perceber que não sou mais a pessoa feliz que era antes, ou não tenho sido nos últimos meses, ou anos... Não quero perder a futura marquinha do meu sorriso antigo. E pensar nisso me deixou ainda pior.

O clima é uma junção de pensamentos, de crenças, de emoções que foram vividas e de expectativas e de conformidades. Tudo isso embolado, jogado, causa uma sensação. Tenho tentado desembolar os climas ruins da minha cabeça, entender pra desfazer. Como desfazer os ruins e não os bons? Como lidar com coisas ruins?

Minha sogra acha que o ano está passando rápido. Eu também acho e ao mesmo tempo tive semanas que duraram meses. E os últimos dois meses poderiam facilmente ter sido seis. Teve uma semana em que a semana anterior me parecia uma outra vida. Teve uma terça em que a segunda anterior me parecia uma outra vida. Teve uma segunda em que o beijo que eu dei as quatro da manhã parecia nunca ter existido às cinco da tarde. 

Tem dias que são mais fáceis que outros. Tem manhãs que são melhores que as tardes. Tem tardes que são menos ruins que noites. Tem noites que são melhores que as manhãs do dia seguinte. 

No começo do ano as coisas e lugares que me deixavam ansiosa agora me dão conforto. E lugares que me davam conforto me deixam ansiosa. Concluí que dadas as mudanças de contexto, as curas e as pioras, mesmo com essas diferenças tem uma coisa que tem que se ajeitada dentro de mim. Parece que o músculo de sentir andou quebrado e eu não consegui consertar ainda. Talvez sempre estivesse e eu não percebia. 

Tanto faz, eu faço terapia justamente pra não precisar ficar expondo publicamente todo o tormento da minha cabeça. Então vamos voltar ao tema do blog, mas antes de encerrar o assunto, eu queria dizer que no começo da pandemia eu ainda me achava a pessoa mais feliz, sã e livre de problemas que eu conhecia, e achava até injusto. Pois bem, a conta chega. 

Então, voltando ao lance dos blogs. Agora acabou o clima e acabou o assunto. Depois apareço e falo mais sobre. Nem tem tanto pra falar. No auge dos blogs (ao meu ver) eu tava jogando club penguin. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Curtas 13 - O segredo que a musa me contou.

Eu sempre achei que meu namorado seria minha musa, de tanta coisa que ele significa achei que seria o tema principal de todos os meus textos e cartas de amor. E ele deve ter ciúmes se descobrir que a musa desse texto é a cidade dele. 

Foi ela quem me disse no canto do passarinho, na carícia do vento e na voz de uma cantora de forró que eu talvez não conheça, e também com toda a força da tarde e do sol que se põe, que ainda é possível ser feliz e conhecer de novo o clima bonito de cidade pequena que me fez tão feliz na infância e que até hoje me sustenta. 

Aí eu achei bonito e quis fazer uns registros. E ela me disse que não adiantaria mostrar um gif torto de um passarinho pra passar o que se importa, porque precisa de mais. E que também não bastava um vídeo bem claro com uma resolução massa e o som de tudo isso. Porque era preciso mais. 

E eu disse: mas nem se eu botar ele aqui pra ver essa vista e sentir na pele esse vento, e ouvir com os próprios ouvidos o canto do passarinho, os carros passando, a mulher cantando, o cimento sendo mexido? 

Nem se ele sentir na boca o gosto da minha saliva e do meu lábio seco e nem se sentir nas costas a coluna torta? Nem se ele sentir esse cheiro que é tão familiar que já mal se sente a não ser que se esfregue o nariz nessa roupa lavada cheia de água, cheirosa a sabão? 

E ela me disse: nem assim. 

Porque nem todos os seis sentidos dele bastam se ele não tiver o sentido da tua mente. Que foi formado de toda a vida até agora, e que só faz sentido pra tu. E pra mim que tô te mostrando. Tudo convergiu pra eu te mostrar esse momento particular, nosso.

O passarinho foi embora, o sol terminou de se esconder atrás das nuvens e eu fiquei pensando: é mermo, é? Pois taí que eu não sabia. 


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Devaneio na janela de um dia cheio.

Conversas, encontros e movimentos. Música. Enchem meus olhos, desafetam meu coração pra novamente afetar. Me esperançam, me alegram, enchem minha mente de rimas e de sentidos. As garças no lodo e a segurança, engenheiros no fone, a bandeira do brasil tremula no céu estático e calmo. A polícia corre, luzes de sirene, faróis de carro, o concreto se levanta e corre pra trás. Toca queen: "having a good time..."


A tarde cai tranquila e eu me desloco através dela, acompanho o vôo dos passarinhos, minha mente ultrapassa a todos nós. Um papai noel moderno e solitário caminha. A estrela me persegue, quero saber o nome da sua constelação. Ou será um planeta? 


Don't stop me now, cause I'm having a good time, I don't want to stop at all. Lalalalala....


O mototaxista conversa com a boca e com as mãos, a natureza me lembra uns três climas diferentes e bons, um cachorro olha o nada, dois ciclistas carregam suas bicicletas, eles não se vêem. Um coqueiro faz vigília pra todo o resto lá atrás, uma mãe ajeita o cabelo da filha, a filha anda e ajeita o short. Uma moto parada sozinha. Casinhas e um casal. Passam pessoas, passa a luz amarela tranquila. As pessoas conversam enquanto a luz tranquila da tarde desliza.  Passo num bairro em que ja morei, acho que acabo de passar minha antiga rua, dessa vez estou na janela certa pra ver, mas sempre é rápido demais pra que eu tenha certeza.


Confirmei no mapa, era a rua certa. Vejo coqueiros, lembro daquele coqueiro, lembro da minha infância, é impossível não voltar pra ela nesses momentos, escuto uma música tão boa e tropical, a decadência da cidade me incomoda, as luzes me fascinam. O movimento do trânsito parece natal. A polícia ainda corre lá embaixo. 


Lembro de cheiros que já não posso sentir, ouço idosos falando das mães, do que elas diziam. Lembro de novo da minha infância, e choro porque é bonito, confortável e parece que sempre houve e sempre vai haver. E nunca houve de fato, porque se mistura com outras luzes que passam sempre na minha memória. 








sábado, 31 de julho de 2021

Uma história de peitos.

Quando tinha dez anos eu descobri que tinha peitos. Estava me olhando no espelho, de farda, e vendo como os bicos dos meus peitos eram visíveis através do tecido, e que visão estranha formavam. 

Revoltei-me com minha mãe por nunca ter me contado essa verdade óbvia, não lembro se foi espontâneo ou se algo aconteceu na escola pra me fazer atinar, mas agora era real, junto com o corrimento e as conversas sórdidas no recreio, eu tinha peitos. 

Mas eu não sexualizava meus peitos, nesse dia ou antes, e ainda não o faria por um tempo. A vontade de escondê-los vinha do fato de serem uma área privada, e, embora eu andasse feliz de calcinha no meio da casa, não me parecia apropriado expor tais partes ao público. 

Certa vez recebemos a visita do guarda da sucam e eu estava com minha farda de menina mimada e isolada. Quando percebi a chegada de um homem estranho corri para me esconder atrás da porta. Imagine meu desespero ao perceber que o papel da fiscalização estava colado meio metro acima da minha cabeça.

Nessa época, acho, comecei a usar tops, e em breve usava sutiãs. Futuramente tive um sutiã que deixava meu peito meio pontudo, e por isso só usava em casa, um dia esqueci de trocar e fui a aula com ele, fiquei triste pois percebi o fato minutos antes de entrar na escola. E ainda lembro da surpresa das minhas professoras quando, meses depois, apareci de bojo na aula. 

No entanto, a lembrança que mais me marcou em relação aos meus peitos na escola foi no dia da foto. O fotógrafo tinha um catálogo de estilos para escolhermos, e um deles era uma bela menina enrolada num tecido felpudo com os ombros nus a mostra. Todas queríamos posar daquela forma, mas as outras meninas desistiram quando souberam que precisávamos tirar a blusa e vestir um topzinho. Eu, honrando a tradição de coragem que estabeleci pra mim mesma, fui em frente e coloquei aquele pedacinho de tecido, que sabe deus quantas meninas já usaram. A foto ficou linda, mas junto com ela registrei a lembrança das minhas colegas rindo e apontado para as duas pontas que saiam do meu busto por baixo do topzinho. 

Minha mãe, à epoca, me disse que meus peitos eram pontudos porque estavam se desenvolvendo, e que uma aureola grande indicava que eles seriam grandes também. Com treze anos ter peitos grandes parecia algo bom, então eu aguardava meus cones virarem duas esferas. E que bom que isso nunca aconteceu. 

A primeira vez em que mostrei meus peitos pra alguém, num contexto sexual, eles me pareciam bem, apoiados na blusa. Se sentia vergonha era do conjunto da obra, da exposição, e não de uma parte específica do corpo. 

Mas apesar de uma dose de excitação e outra de confiança contornarem as inseguranças no momento oportuno, eu ainda tinha neuras no dia a dia. Porque existe flacidez? Porque consigo segurar um lápis embaixo do peito sendo tão jovem? Porque um é maior que o outro? Eles nunca vão acompanhar a aureola? Não era pra ser redondo? Cadê o bico? Porque tem textura? Porque é tão insensível?

E entender que a resposta pra isso era um "tudo bem" foi um processo. Que meu peito era tão normal como qualquer outro. É bem verdade que a mamografia ajudou a fortalecer essa ideia, e ver peitos reais ajudou mais ainda, e largar a pornografia ajudou muitíssimo mais, nisso e mais num zilhão de coisas. 

Mas apesar de achar meu peito ok, de vez em quando ainda fico encarando ele e pensando se seria melhor tirar. Dizem que as amazonas cortavam o peito pra atirar melhor, e certamente ter duas massas de carne balançando no seu busto incomoda em várias situações, pra dormir de bruços, por exemplo. Mas tirar os seios tem implicaçōes semelhantes as de tirar o útero. Será que afeta os hormônios? E pra amamentar? Considerando que (ainda) não exclui totalmente a possibilidade da minha vida, quem sabe? 

Além disso, ter peitos ajuda, com certos tecidos, a disfarçar a barriga, que de outro modo se destaca na silhueta. E precisaria de outro post pra falar da minha barriga.

Entretanto a ausência de peitos, embora não muito atraente, valoriza a androginia. E meu gosto estético sempre foi parecer um homem que se parece com uma mulher. Apesar de ter padrões absurdamente flexíveis de atração, é quase certo que uma pessoa com essa aparência me atraia, e portanto, é algo que eu queria pra mim também. 

Mas quando se é mulher com jeito de criança e sem muito senso ou expressão de estilo, fica complicado alcançar esse padrão. Por isso sou muito mais madalena do que homem que se parece com mulher, e não posso reclamar dos resultados. 

Assim como demorei a sexualizar meus peitos, também demorei a fazê-lo com os alheios. Eventualmente, quando percebi que queria ficar com mulheres também, comecei a sexualizar os peitos alheios. Não pra mim, não por achar interessante, mas porque acreditava que seria capaz de dar prazer através deles. Engraçado, meu namorado sente agonia quando algo encosta no mamilo dele, e eu também. Quem pode me garantir que as outras pessoas realmente sentem prazer no peito, ao invés de agonia? 

No começo da década eu descobri que tinha peitos e precisava usar sutiã. No fim, eu descobri que meus peitos eram normais e não precisava prender eles, e que era muito mais confortável assim. 

Bico de peito, marca de bico, sexualização, peito de homem e peito de mulher, amamentar na rua, topless. Um sábio uma vez disse "mamilos são polêmicos". E Roberto Carlos falou que "broto tem que usar monoquini, não suporto mais o biquini". Para me juntar ao roll de pensadores de peito, reflito. Escrevo esse texto e sigo: de peito aberto. 


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Curtas 5 - Raiz

Quando eu era pequena minha avó já era velha. Vejo nas fotos,  e em todas as minhas lembranças ela já era uma senhorinha que não podia comer sorvete por causa da diabete. É difícil saber que nada é eterno, nem eu. E a frase que serve de alento em alguns momentos, também traz essa verdade desconcertante. 

A minha avó é uma raiz forte que ajudou a gerar tudo que conheço. E eu sou parte desse mundo moderno que devora a tradição. Ouvir a voz dela é receber o alento do mundo vivo, e me prender numa tela é ecoar em resposta o gelo de uma superfície metálica. É me perder em queda livre num mundo de câmeras, chips e códigos. Me juntar a nuvem cinza da informação que tem tudo para poucos. 

Quando penso na ausência da minha avó, e por extensão na ausência da minha família, me vejo perdida no mundo vazio, frio e artificial. Totalmente desprovido das raízes que eu ajudei a cortar. 

Assim caminha a humanidade?

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Memórias do Vale do Curtume.

Como falei no post anterior a escola, a segunda escola em que estudei, por volta dos quatro e seis anos, merecia um espaço para si. Desde aquela época meus pais me deixavam escolher a escola em que queria estudar. Tinha o Vale do Curtume e a do Tio Patinhas. Não sei se era porque não me interessava por mickey ou se o brinquedo de rodar na entrada me conquistou, mas fiquei com a primeira opção. Tenho memórias valiosas daquela época. 
A escola era composta de dois prédios. Um deles era onde eu estudava, o infantil. Lá aprendi a escrever meu nome usando uma ficha de papel marrom onde ele estava escrito. Era o maior nome da sala e o único, até onde sei, que precisava de abreviação. A minha sala era uma das primeiras da escola. Ali vi no dia do meu aniversário uma colega escrevendo na minha agenda, perguntei o que era e ela desconversou, depois vi várias assinaturas me desejando feliz aniversário. Acredito que tenha essa agenda até hoje, embora não saiba dizer onde. Naquela sala, diz minha mãe, embora eu não me lembre, eu apontava os lápis de todos os colegas. Eu tinha uma professora maravilhosa que parecia mulher de filme com um cabelo pra cima. Essa professora me deixou ser a chapeuzinho vermelho no dia da apresentação, e o lobo mau era o filho dela, usei meu vestido vermelho com capuz. 
Depois da minha sala haviam outras, uma delas usávamos para ver filme. Depois tinha a cantina, lá eu ouvi a palavra "catinga" pela primeira vez e não fazia ideia do que era. Pertinho da cantina tinha a piscina e banheiros. Ali eu vi a menina menor que a gente que era brava e mordia todo mundo (eu ainda não sabia mas viria a me tornar alguém violenta alguns anos depois). Na beira da piscina vi uma lombriga, ou uma minhoca, uma vez. Mas pra mim era lombriga, toda esbranquiçada no chão molhado. 
Ainda na piscina, numa aula extraclasse em que fomos pra tomar banho (eu sempre me senti estranha com esse ar de piscina, nunca me acostumo) eu não entendia porque a professora dizia que eu era mimosa. Pra mim ser mimada era algo ruim, então lembro como fiquei confusa. 
Entre as salas e a cantina tinha a escada azul para o primeiro andar. Lembro bem dessa escada por dois motivos. É que o primeiro andar era onde ficavam as salas a partir da alfabetização, e no dia que entrei pra esse ano vi alguns meninos (acredito que o carinha que era meio bully) dizendo que eu não deveria subir as escadas e me lembro de alguém dizendo que minha série agora era lá. Uma dessas infladas de ego. 
Mas o segundo motivo é que eu queria subir essas escadas a muito tempo por causa do menino que eu gostava. Ele estava sempre uma série a frente de mim, era superdotado e a gente se dava bastante bem. Não lembro bem dele, mas lembro de quando subi ao primeiro andar, e uns meninos da alfabetização encurralaram nós dois no espacinho onde colocavam os produtos de limpeza. O líder do grupinho (o menino bully) era também sujeito de filme, enorme com os ombros largos, branco do cabelo liso e mal encarado. Disseram pra gente se beijar e eu jamais poderia esquecer do meu primeiro beijo. A forma como o sol entrava, talvez por cobogós, e iluminava aquele espacinho azul e apertado, e a forma como demos um primeiro beijo marmotoso, pode até ser esquecível com detalhes mas é inesquecível como ideia. 
Quando eu pude subir pro primeiro andar ele tinha sumido. Pulou uma série e estava estudando no prédio em frente, para o fundamental. Nunca mais o vi, exceto ano passado quando o encontrei no facebook. Não o reconheci, mal o reconheci pela foto antiga do jornal. Acho que algumas coisas ficam melhores como ideia. 
Aliás, lendo o jornal eu percebi que ele me deixou porque achava a série muito fácil, então eu comecei minha vida amorosa de um jeito bem engraçado, porque o primeiro cara que eu era afim me largou sem pensar duas vezes.
Ainda hoje estava me perguntando: Será que as pessoas pensam igual a mim? Será que elas se lembram as interações e as conversas que tivemos quando crianças? Parece que tudo se perde tão rápido... E olhe que eu esqueço coisa pra caramba. 
Pois bem, esse cara não era o único de quem eu gostava, embora fosse o único com quem eu tinha um lance. Tinha um menininho (até onde é ético eu dizer os nomes das pessoas aqui?) que eu achava bem bonito, e era do meu ano. Eu gostava tanto dele que queria o mesmo tênis da hotwheels que ele. Meus pais não compraram. Acho que quando tomei vacina e fiquei de cama vários dias por causa dos efeitos colaterais -- não podia mexer sequer um dedo porque o corpo inteiro doía --  ele foi um dos que também ficou. 
No pátio da escola, o pátio externo, era onde havia o mini parquinho. Eu tinha colegas bem patricinhas e elas se davam bem com uma menina de rabo de cavalo que andava com um menino baixinho. Todo mundo era meio legal e meio nojento, mas esses dois últimos eram mais nojentos mesmo. Lembro do menino baixinho se exibindo enquanto girava bem rápido o brinquedo onde estávamos, não sei como se chama, mas deve ser algo tipo, gira-gira ou roda-roda, hehe. Andar com essas meninas, como eu viria a descobrir, com a maioria das meninas de escola particular, é complicado. Um dia elas eram minhas amigas e no outro não, e eu não entendia. Foi com elas que aprendi a falar "hellôo" e "bunda". 
No pátio também haviam alguns eventos, no dia do circo eu fui a equilibrista e andei em cima de um cabo de vassoura na frente de toda a escola. 
Eu estava descobrindo o mundo, e na entrada conheci uma mulher chamada "Lia". Foi a primeira pessoa com nome tão pequeno que conheci. E até hoje sigo no instagram uma das responsáveis pela escola porque o sobrenome dela era "Marinho", que nem azul-marinho. 
Os nomes das minhas próprias colegas eram diferentes, tinha uma "Larydsa", e uma professora chamada "Tcheska", sem falar no "Cíntia", que me lembrava cinto.
Às vezes íamos a escola em frente, o mesmo colégio mas o bloco do ensino fundamental, e utilizávamos o ginásio. Quantas memórias... No dia do aniversário da escola eu não queria ir para o prédio (a única lembrança que tenho de ter entrado lá) e as professoras me fizeram ir prometendo que teria sacolinha, mas eu sabia que não teria e não teve, mas não deixei de cobrar por isso. No ginásio ensaiávamos as apresentações, até hoje toca na minha cabeça um grupo de vozes falando "xaxado, xaxado...", e me vem a imagem do lugar. (Acho que acabei de achar o vídeo dessa música). Lembro vagamente de marcações no chão para um dos ensaios, e também do dia em que entramos pela porta lateral que dava no quintal de uma casa, cheio de árvores como uma floresta. Foi num dos eventos nesse ginásio que vi o dito cujo menininho que eu gostava pela última vez. Vi ele de relance e depois não o achei mais. Sempre que ia lá via o prédio da escola ao lado.
Ainda no ginásio foi onde apresentei a chapeuzinho que já mencionei, mas também apresentamos a música do trenzinho da xuxa. Não lembro bem da apresentação em si mas sim de ir com minha mãe até a costureira para fazer minha roupinha de maquinista. Acho que ainda tenho a boina vermelha. 
Mas as melhores noites eram as de são joão, porque meu aniversário é em junho. Uma das vezes estavam fazendo a roda e a professora gritou "e viva santo antônio!" E todos disseram "VIVA!", ela falou "viva são joão", e todos "VIVA!" e ela arrematou com um "e viva madalena!!" A maioria ali provavelmente não entendeu o terceiro viva, mas eu sim, e adorei. Também lembro do meu pai reclamando com minha mãe sobre usarem porcos em um dos joguinhos. E lembro de mim, na arquibancada no colo da mãe, com muito sono e vendo uma estrela lá longe no céu brilhando e mudando de cor. Eu fiquei com medo por isso fechei os olhos.
Num desses eventos havia um cara bem estiloso, provavelmente músico, que usava roupa e esmalte preto. Meus amigos e eu tivemos medo dele, mas eu, corajosa desde sempre, fui até lá pra conhecê-lo e minha mãe até tirou uma foto. Acho legal porque na época as fotos eram com máquina e filme, e aquela é a única do dia que tem uma mancha amarelada, problema na foto ou na revelação, mas que preserva através dos anos a aura diferentona que o cara tinha pra gente. 
O mundo aos meus olhos de quatro anos não parecia incompreensível. Pelo contrário, embora não entendesse tudo eu sentia e via as coisas, tomava decisões e tinha pensamentos lógicos. Eu era consciente. É engraçado como vemos crianças e pensamos que elas simplesmente não se lembrarão dessa fase no futuro, ou que são meio bobinhas. Mas embora a gente expanda a compreensão com o passar do tempo, e também a expressão, criança vive, descobre e funciona. Eu lembro como tinha convicção de ser tal qual tenho hoje. Eu era eu, e vivia de acordo com o que eu queria. O que quero dizer com isso é que eu não vejo a Madalena de quatro anos como uma pessoa portadora de opiniões bobas, eu valido tudo que sentia naquela época, e mesmo com o discernimento de hoje, não acho que eu fosse de forma alguma uma pessoa ruim, logo, se pudesse voltar aquela época, provavelmente teria vivido de forma semelhante, embora provavelmente inúmeras situações que eu não lembro, não compreendia ou sequer percebia hoje eu entenderia. 
Não tenho certeza se a lembrança que tenho de um mimeógrafo é dessa escola ou da creche anterior a ela, mas acredito que seja dessa, lembro do cheiro forte da tinta e da professora girando a manivela para copiar as atividades numa tinta azul/roxa escura.
O mais engraçado é que muitas das memórias que aqui narrei vem a mim em terceira pessoa. Mas uma que vem em primeira pessoa sou eu sentada no banco da topique, na porta da escola, escutando mc léozinho. 
"Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar. E vem comigo dançar. Dançar, dançar, dançar."
Eu meio que me via na letra.
Gosto dessa música porque me lembra essa época, as anteriores e posteriores. Me lembra minha casa e minha vizinhança de forma atemporal. Inclusive estou ouvindo ela agora.
"Se ela dança eu danço, se ela dança eu danço. Falei com o dj!"
Não lembro muito da topique. Lembro que o motorista era negro e eu achava que ele era o pai do menino que eu gostava (só que o menino é meio que branco?) E também lembro do fatídico dia em que estávamos passando numa parte elevada da pista que dava vista para a locadora em frente a pracinha. Meu olho bateu na seção de filmes de terror e eu tive um dos meus primeiros medos realmente grandes. Passei a ter medo de lá. Era uma distância grande demais pra eu ter de fato identificado algo, inclusive posteriormente fui com minha mãe na tal seção e vi as capas dos filmes, nenhuma me meteu medo como o que eu vi de longe. Mistérios da vida. 
Outras músicas que tocavam, talvez no rádio da topique, talvez na rua, eram Festa no Apê, do Latino, que eu não entendia nada (e demorei a entender a letra e o significado do tal bundalelê, inclusive eu ouvia "tem siri até amanhecer"), Tremendo Vacilão, da Perlla, e Cachorrinho, da Kelly Key. 
Por hoje é isso. 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Minhas primeiras revistas.

Estava meio mal e vim fazer algo que sempre me traz frescor: escrever. Tenho mapeado meus hábitos, como já mencionei em algum post antigo, e parei de anotar apenas duas palavras que sejam os destaques do meu dia, como fazia antes, e agora escrevo um pequeno texto. Quase um diário, e já mantenho a mais de um mês, escrevo todos os dias. 

Como estamos de quarentena é fácil ver o que destoa do habitual, eu anoto isso e também como vai minha saúde, meu relacionamento, e minhas decepções... comigo. E me dá vontade de divagar, de fazer um textão por noite. Considerando que parei de ler e nem com reza de padre velho eu consigo retomar meu ritmo, parei pra pensar agora que seria até saudável deixar esse texto rolar. Mas é que... Não é o intuito. O intuito é resumir o que foi importante pra que eu possa consultar depois. Mas... Pensando bem quantas vezes eu vou poder consultar, né? Acho que fazer um diário de verdade seria melhor. 

Bom, eu vim aqui pensando em escrever algo e tal hora fico divagando, mas meu ponto era que essa escrita diária, pela limitação que eu impus, não sacia o desejo de expressão da minha alma, então não é tão ruim como escrever um artigo, mas não é tão bom como, por exemplo, escrever aqui.

Mas hoje eu vim falar da minha infância. Acho que é legal recordar desses ganchos que fazem parte da gente e simplesmente se perdem com o tempo, ficam as impressões mas não fica a lembrança ativa sobre elas. 

Quando eu era mais nova, entre quatro e seis anos, eu ganhei algumas revistas. Parece o mesmo dia, quando eu penso, mas sei que foram dias diferentes. Primeiro eu ganhei O burrico de Tróia e o Galodiador, na foto ao lado. Embora até hoje não entenda bem essa história da guerra de troia, eu nunca me esqueci do nome e de pequenas impressões dessa revista. Creio que foi a primeira revista da Turma da Mônica que ganhei. 

Meus pais, me disseram depois, evitavam comprar dela porque achavam que podia ser uma má influência (eu tenho certeza que minhas crises de raiva na infância não tiveram nada a ver com minhas leituras), e por isso a primeira que li foi do Chico Bento, o que é engraçado, se for considerar que o Maurício precisou botar propaganda nas revistinhas antigas pra que as crianças se interessassem por ele. Deve ser preconceito com o fato de ele ser caipira, pois as historinhas nada devem as do resto da turma, e geralmente tem as melhores mensagens. Como esquecer a história do pé de banana nanica? Ou a belíssima graphics Arvorada? Além do incônico Pavor Espaciar. Até o shitpost do chico bento é o melhor (evite, se for sensível). 

Me lembro também de como gostava de ouvir a paródia de trillher, na época em que via as apresentações da turma no youtube. Se você gosta de turma da mônica e ainda não viu a versão deles de romeu e julieta, não sabe o quanto de estranheza está perdendo. Eu e Turma da Mônica... É um lance que se estende desde aquele tempo, e até hoje eu me empolgo. É difícil resistir ao trabalho belíssimo, especialmente os roteiros do Emerson. A supersaga do fim do mundo definitivamente merece ser relida e ter um post só pra si aqui no blog. E porque estou dizendo isso? Porque o post não é sobre a minha história com mônica, mas sobre as minhas leituras da época. 

Também ganhei uma revistinha do Jarbas, eram quadrinhos e, embora eu mal me lembre das histórias, lembro do quanto me divertida vendo aquela revista. Tinha até um joguinho de encontrar o Jarbas, tipo o do Wally. 

Eu também ganhava revistas de princesas, dessas com joguinhos de colorir e completar. Se perderam no tempo mas a impressão permanece. Creio que eram do mesmo estilo de desenho que essa da imagem (abaixo), mas não era exatamente essa. Era mágico. (Acho que já ganhei uma que vinha com uma coroa).

Quando penso nessas três revistas me vem de imediato o céu. O céu noturno, azul escuro. O mundo era gigante e eu protegida. Lembro da janela de grades, embora não saiba dizer a cor ou o formato. Da rede, do vento e céu... Lembro da minha mãe balançando comigo e cantando. E também do trabalho do meu pai, o cheiro de café, o azul das mesas e o ar condicionado. 

Das memórias que guardo da infância, essa época me traz algumas pacificamente doces e outras nem tanto. São algumas das minhas primeiras memórias. Será que o processo de alfabetização me ajudou a memorizar as coisas, ou será só a capacidade da mente de recordar? 

Quando penso me lembro também da manhã. As lembranças se confundem, como quando se cantarola uma música e num ponto oportuno se emenda outra sem querer. É isso, a memória de 2006 na casa nova se confunde com a casa nova de 2009 e o cheiro de orégano. E o isopor e a branquidão de coisa nova. Acho que eu era muito criança pra lembrar tão bem da casa nova de 2006, ou 2004, ou que ano seja, a data não importa. O que importa é a época. 

Lembro de Engenheiros do Hawaii tocando, me perdoem se estiver sendo repetitiva, eu realmente não decoro quais memórias já falei e quais não, e dessas memórias profundas e importantes a gente acaba tendo de falar em muitas ocasiões. Tocava "era um garoto..." e eu lembro de um céu que não existe, com imagens que não tem forma certa, lembro de cores de por do sol e algum tipo de estilo, urbano, industrial, uma ideia colorida. Um sentimento que está enfraquecendo com o tempo... 

Lembro da escola, de tantos momentos legais, e aí não posso me ater. Certas partes daquela cidade, em especial a escola, merecem post próprio. Posso apenas pincelar: Tinha a minha casa, tinha o supermercado onde comprava bate gute e leite moça de saquinho. Tinha a praça da Daiane, e os biscoitos passatempo. Os vestidos de serena da minha mãe, a vó da Daiane costurava vestidos iguais os da menina da novela, azuis e comportados. Lembro das carteiras de cigarro que me assustavam jogadas a noite no chão da praça. E de como eu descobria o mundo com os meus olhos e minha boca grande. Tinha tanto medo. Não acho que eu era uma criança medrosa, exatamente, eu era muito mais curiosa. Mas é que o medo atravessou todos esses anos. O medo de um comercial na tv, de uma imagem vista de relance na locadora, de um boato sobre um cara que sequestrava crianças. Tinha muita coisa, meus jogos, os passeios. E a vida era... E ainda é boa. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Meu bem, benzinho, à guisa de um carinho, te entreguei meu coração.

Tava zapeando pelos posts rascunhados, tem bastante coisa legal pra mim aqui. Pra quem não sabe tenho esse blog a muitos anos, então são fases e ver os rascunhos me dá uma dimensão da minha vida até aqui, tipo chat de facebook ou email arquivado: ouro puro. Comecei essa postagem pra falar disso, hehe, ainda não sei do que vou falar. Acho que vou pescar um dos temas que tenho anotado pra escrever. 

Humm, você sabia que "à guisa" significa "ao modo de", ou num cearencês "módiquê"? Quando eu era mais nova tinha uma frasezinha que eu criei, era: "Meu bem, benzinho, à guisa de um carinho, te entreguei meu coração." Eu achava super fofa, e sempre lia como sendo uma frase que dizia que, por querer um carinho, eu havia entregado meu coração. Mas um dia fui tirar a limpo e descobri que não significa "por necessitar de" mas sim, como já disse: "no lugar de". 

Tinha abandonado a frase, ("como se abandona uma frase?" irá você me perguntar), mas resolvi tê-la de volta, hoje, quase agora. E fica igual mas o significado diferente. "No lugar de um carinho eu te dei meu coração", por extensão "eu não te dei um carinho". Por que não? Talvez por não poder, não tinha carinho, ou não tinha como dar naquele momento? E aí vira uma narrativa bem triste, de uma pessoa magoada que não tinha mais medida nem noção e nem estímulo de dar carinho, mas era carente e acabou entregando o coração pro bem dela. 

Mas eu prefiro a frase como era antes, sabe, embora nunca tenha pensado muito nas implicações disso. Mas é a minha cara. Eu só queria um carinho, te dei meu coração. O que é esse coração? Não importa. Valoriza e me dá meus carinhos >c

Tô bastante feliz de o blog estar andando de novo, e arrisco dizer que é a primeira vez que ele se mantém como está indo, com bastante conteúdo original, como de fato um diário aberto. A outra vez em que eu tentei com ele estava caminhando pra o que é hoje, mas eu acho que não postava tanta coisa da minha cabeça, só uma história, mas tinha mais resenha e tal. Enfim, eu tô inspirada esse mês e assunto é o que não falta, espero colocar muito mais coisa aqui.

P.S.:O "mó de quê" no Ceará se refere a "por tal motivo", numa explicação, ou pedido de explicação, a adição no texto foi uma piadinha, ihe

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Curtas 4 - Uma noite de chuva

O coração parece aprofundar as batidas, mas é só a percussão de alguma música popular rufando quase indistinguível num veículo ao longe. Passam motos barulhentas, passam gritos. Faz-se silêncio de vez em quando, exceto pela chuva que cai fraca e rememora algo. Levanta um cheiro de mormaço que nem deveria haver numa hora tão tardia. Um cheiro de marrom, verde e aquela cor desbotada de fundo de fotografia antiga, que conversa com a infância e com as memórias que preguiço pra lembrar, e existem ou não, de forma abençoada por ser essa mesma a casa que me remetia tanto acolhimento a onze anos atrás, e me remete tanta segurança agora, rompida apenas pelos barulhos e pelas notícias que adentram pelos 36 blocos na parede da cozinha ou pela luz embaçada das telhas de vidro. 

Um grito aterrorizante se avoluma vindo de longe, mas são apenas pneus rodando na pista asfaltada cercada de mato e luar virando algumas esquinas. 

Hoje é uma noite de neblina fraca. Mas em geral são apenas noites quentes, frias pra mim, que deixam espaço para os mais inexplicáveis e estranhos ruídos. Nem me refiro aos cachorros latindo na rua, ou aos gatos que viram e mexem nos telhados. Ou aqueles que fazem um musical desafinado no meio da noite, no amor ou na guerra. Me refiro aos seis galos, até onde pude contar, que carcarejam sempre as duas, as vezes mais cedo. Me refiro ao barulho de carro e porta sempre quase no mesmo horário da madrugada, e dos estalidos de vidro e alumínio. Os carros e as motos aparecem vez ou outra, e alguns até podem parar por qualquer razão especial. Ferrolhos escurecidos e camas que rangem permeiam o ar noturno, pequenos passos, uma carreira. O vento agora corre leve, mas tem dias que vem forte e se demora. Balança as folhas das árvores. 

Um barulho agudo se ergue de qualquer lugar. 

Hoje já não estão, mas ontem estavam uns moleques na rua de voz que antecipa a malandragem e estavam discutindo, rindo alto e chutando algo. Na noite silenciosa são perfeitamente audíveis. Algumas noites tem festas, e aí não se escuta nada. 

Mas na mais profunda quietude, sempre se pode ouvir a sinfonia dos pequenos insetos. Um barulho constante, agudo e baixinho na frequência da atenção. São os pequenos grilos embaixo da pia, as formigas em seus formigueiros por trás das paredes, as baratas em nichos, as traças se arrastando por baixo de um móvel especialmente escuro e intocável. O vento, os bichos, os bichinhos, os carros nas pistas, as vozes, os barulhos. Tudo que não me assusta me faz sentir em casa.