Mostrando postagens com marcador Pandemia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pandemia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Curtas 10 - Debaixo dos seus olhos

Tudo acontece debaixo dos seus olhos, 

Na periferia dos sentidos

Revelado pelo sorriso tristonho

Pelo olhar pensativo

Pela intuição enterrada

Porque às vezes só ela quem diz

Quem deixa receber o sentimento e saber

Saber que tudo aconteceu bem debaixo dos seus olhos. 


23/10/21

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Mecanismos da Mente.

Passeando nas minhas reflexões, ocasionalmente, me deparo com pensamentos que considero radicais demais. É um feeling que bate, como se estivesse caminhando por uma paisagem apocalíptica de montanhas rochosas iluminadas por um céu negro azulado e trovejante; e houvesse espiado entre as frestas de um portão lacrado que emanava uma aura vermelha. Um alerta veloz como é próprio das operações dos pensamentos. "Isso não é pra mim". Eu costumo me afastar do portão e continuar caminhando com o pensamento que estava desenvolvendo, mas hoje uma voz interna me disse pra esperar. Ela falou que era uma posição antifilosófica, injusta, negar um pensamento só porque considerava ele radical demais.

Alguns pensamentos podem ser negados. Os que causam medo, os que são confusos ou dolorosos demais. O feeling costuma ser assertivo, nem sempre é bom mexer no vespeiro. Mas, algumas vezes pode ser um alívio, como tenho descoberto nesses meses que passaram. Mexer e falar nos faz descobrir que o vespeiro era uma colmeia de abelhas sem ferrão. E algumas outras vezes a mente para. Não necessariamente por defesa (não acho que seja), nem por exaustão. Talvez seja um problema de BIOS* que faz com que a visão panorâmica se torne leitosa como uma cegueira branca. 

A voz que surgiu hoje foi motivada por uma sequência de acontecimentos pontuais para os quais atentei nos últimos meses. Quando estava no fluxo da fala e não me interrompia pra consultar meus pensamentos e conferir a veracidade ou, ao menos, a maior precisão possível a informação que dava. Isso me incomodou a medida em que se repetia. É antiético, na maior parte do tempo, contar um fato sem o esforço de memória. Era como acessar o cache e não a lembrança. 

Então essa voz foi crescendo em mim. Ela dizia que eu tinha que estar atenta ao que falo, mais que isso, que eu deveria ser honesta e precisa nas minhas narrativas. E esse senso de falar de forma correta me leva a pensar de forma correta. Pra ser honesta eu preciso ver os vários lados de um fato, ao menos os que surgem pra mim. Não posso ignorar um pensamento incômodo porque acho que ele vai desestabilizar minha ideia. Preciso deixar que ele venha, se apresente. Mesmo que eu não possa combatê-lo ainda, preciso tomar conhecimento de sua existência. 

Então retrocedi e abri o cadeado do portão, deixei que o pensamento viesse e sua luz vermelha fundiu-se com o pensamento azul que eu carregava, escorrendo roxo pela minha mente, saltando pela minha boca, se desenvolvendo nas palavras. Guardado, modificado, pronto pra uma nova aparição nas conversas comigo ou com alguém, sempre que necessário; e não mais preso, nem perdido no limbo dos pensamentos ignorados.

*Bicho Ignorante Operando o Sistema


09/09/21

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Curtas 9 - TPM

Meu corpo está frio. Sinto o gelo dos meus pés e sei que se a luz fosse suficiente veria a pele roxa por baixo das unhas. Apesar disso meu rosto está quente pelas lágrimas que escorrem. Não sei bem porque estão aqui. Culpa, saudade, arrependimento, apego, medo...?
 
Olho meu calendário menstrual. Daqui poderia sair um texto, mas vou culpar a TPM. O teto sempre me põe pra pensar.


25/08/2021

domingo, 15 de agosto de 2021

Curtas 8 - Visita

Hoje, ao ver o avanço da imunização, notei que estava sendo visitada. Ela entrou pela pesada porta que as outras tinham deixado aberta (porque eu tenho muita dificuldade de abrir sozinha). Os seus pés de passos leves mal me deixaram notar sua presença. Quando dei por mim, já tinha ido. Mas deixou suas pegadas na poeira. Quase não reconheci seu perfil ao sair pelas sombras. Contemplei o céu noturno enquanto tentava me lembrar de onde a conhecia, me veio seu nome: esperança. 

09/08/21

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Curtas 7 - Resquícios da sua presença

Quando tomei banho precisei lavar o ínfimo resquício do seu toque no meu corpo, a maioria dos carinhos ficou nas costas da minha blusa. 

Junto com a camada de álcool em gel que tirei da palma da mão se foram a maciez dos seus cabelos, a poeira da sua blusa e as células mortas da sua pele. 

Quando dormi precisei dar adeus ao dia que dividi contigo. Minha máscara pendurada espera que o vento leve os vírus que tu involuntariamente lançou ao me dirigir a palavra. 

Quando peguei o fone, no entanto, uma surpresa. Sua cera de ouvido ainda repousa junto com a minha. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Gente da parede.

Uma vez meu avô me chamou na varanda e, olhando fixamente para a parede em frente, me perguntou porque não conseguia desenhar se só ele podia ver. Talvez você não conheça o meu avô, mas quem conhece sabe que muitos anos atrás ele pintava montes de rostos na sua parede de tijolos. Rostos que só ele via, formas. Deixo abaixo o registro do legado dele, porque a neta deu pra ver também:



[pausa pra me organizar para a boa escrita, isto é, ir deitar]

Pois bem, eu respondi ao meu avô algo como o fato de só ele ver não dar a ele a habilidade de reproduzir (se não disse antes, acrescento agora, que ele não possui aquilo mesmo que só ele veja). Dei o exemplo da paisagem, posso ver, (posso estar sozinho, pode ser um evento único) mas isso não me dá habilidade técnica pra reproduzir. Por isso o jeito mais simples é mesmo contornar de tinta essas pequenas formas humanoides e deixar que vivam para os outros também. 
Mas o desenho não é a única forma de se aproximar das formas. A doze anos atrás eu estava me mudando, e entrei pela primeira vez no banheiro da casa nova. 

A madazinha criança sentou no vaso sanitário e, olhando a parede que ficava bem próxima, coberta dum azulejo salpicado de verde lodo de praia, verde vintage e branco, deu de cara com uma caveira. Com medo de ter medo da descoberta tratou de se enturmar logo com ela.  E sempre que ia no banheiro puxava um papo com a caveira que ficava em frente. Ela não ligava pra essas coisas do lado de cá da parede, e eu tampouco compreendia o que se passava do lado de lá. Mal me recordo das conversas pois eram todas leves, acredito que falava do meu dia, fofocava de algum pensamento. Pra caveira tudo estava sempre bem. Um dia me mostrou sua família. Quem diria? A caveira vivia com a companheira e dois filhos, um menino e uma menina. O menino, se bem me lembro, usava boné, e a menina lacinho cor de rosa, embora só se enxergasse verde. Curiosamente todos se pareciam demasiado com o pai, e não conseguiam falar comigo todos juntos, era um por vez. 

Nunca apresentei a minha família pessoalmente para a caveira do banheiro, mas se lerem esse texto vão conhecê-lo indiretamente. Nem me recordo, mas desconfio que me despedi deles quando fui embora daquela casa, eram bons amigos. 

Olhar a parede é como olhar pras nuvens, pela minha experiência uma parede manchada, úmida ou mofada é mais cheia de vida do que aqueles algodõezinhos flutuantes. Eles são muito bonitos sem forma, e vivem mudando, embora isso renda uma narrativa aqui ou ali. A parede demora a mutar. Quem vê pode acessar muitas dimensões, mas a imagem permanece estática. 

Agora encontrei um outro amigo de banheiro. Amigo não, uma conhecida. É uma bruxa. Só aparece a noite quando estou escovando os dentes e tendo ideias. Ela não fica na parede, mas no teto. Hoje estava dando uma boa olhada e acho que talvez pareça mais uma caveira ou um rosto meio deformado do que uma bruxa. Afinal ela não tem chapéu nem vassoura. Mas se me disse que é bruxa eu acredito. Se espreme entre os caibros e fica olhando o movimento. É de poucas palavras. Pensando bem nunca me dirigiu nenhuma. Talvez eu esteja ficando velha e perdendo a habilidade de chegar nel


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Curtas 4 - Uma noite de chuva

O coração parece aprofundar as batidas, mas é só a percussão de alguma música popular rufando quase indistinguível num veículo ao longe. Passam motos barulhentas, passam gritos. Faz-se silêncio de vez em quando, exceto pela chuva que cai fraca e rememora algo. Levanta um cheiro de mormaço que nem deveria haver numa hora tão tardia. Um cheiro de marrom, verde e aquela cor desbotada de fundo de fotografia antiga, que conversa com a infância e com as memórias que preguiço pra lembrar, e existem ou não, de forma abençoada por ser essa mesma a casa que me remetia tanto acolhimento a onze anos atrás, e me remete tanta segurança agora, rompida apenas pelos barulhos e pelas notícias que adentram pelos 36 blocos na parede da cozinha ou pela luz embaçada das telhas de vidro. 

Um grito aterrorizante se avoluma vindo de longe, mas são apenas pneus rodando na pista asfaltada cercada de mato e luar virando algumas esquinas. 

Hoje é uma noite de neblina fraca. Mas em geral são apenas noites quentes, frias pra mim, que deixam espaço para os mais inexplicáveis e estranhos ruídos. Nem me refiro aos cachorros latindo na rua, ou aos gatos que viram e mexem nos telhados. Ou aqueles que fazem um musical desafinado no meio da noite, no amor ou na guerra. Me refiro aos seis galos, até onde pude contar, que carcarejam sempre as duas, as vezes mais cedo. Me refiro ao barulho de carro e porta sempre quase no mesmo horário da madrugada, e dos estalidos de vidro e alumínio. Os carros e as motos aparecem vez ou outra, e alguns até podem parar por qualquer razão especial. Ferrolhos escurecidos e camas que rangem permeiam o ar noturno, pequenos passos, uma carreira. O vento agora corre leve, mas tem dias que vem forte e se demora. Balança as folhas das árvores. 

Um barulho agudo se ergue de qualquer lugar. 

Hoje já não estão, mas ontem estavam uns moleques na rua de voz que antecipa a malandragem e estavam discutindo, rindo alto e chutando algo. Na noite silenciosa são perfeitamente audíveis. Algumas noites tem festas, e aí não se escuta nada. 

Mas na mais profunda quietude, sempre se pode ouvir a sinfonia dos pequenos insetos. Um barulho constante, agudo e baixinho na frequência da atenção. São os pequenos grilos embaixo da pia, as formigas em seus formigueiros por trás das paredes, as baratas em nichos, as traças se arrastando por baixo de um móvel especialmente escuro e intocável. O vento, os bichos, os bichinhos, os carros nas pistas, as vozes, os barulhos. Tudo que não me assusta me faz sentir em casa. 

domingo, 27 de setembro de 2020

Curtas 3 - Campanha Eleitoral

 São 02:40 da manhã, até os cachorros da rua estavam quietinhos, e um vizinho achou uma boa ideia ligar o carro de som com propaganda dum candidato a prefeito ou vereador, sei lá. Deve ter lido uma dessas conspirações que dizem que botar mozart pra bebês faz eles crescerem inteligentes, e ouvir audiolivros durante o sono te faz compreender eles, então, por extensão, botar propaganda eleitoral pra tocar enquanto todos dormem deve equivaler a uma lavagem cerebral? Uma leve indicação como as mensagens subliminares? 

Tá valendo tudo mesmo.


Atualização as 02:51: um vizinho mais distante ligou a música do concorrente. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Curtas 2 - [ainda sem título]

 Nem bem as aulas voltaram, eu recordei o quanto eu não suporto a burocracia e a violência da cidade. 

Acabamos de nos mudar mais pra lá, e eu precisava pegar o trem pra ir a aula. Saí de casa quase ao meio dia, sabendo que poderia me atrasar, e apressei o passo até a estação.

Nem bem chegara na praça quando vi minha tia. Estranho que estivesse ali uma hora dessas. Ela se acotovelava com a multidão pra sair da estação, e me interceptou sob o sol escaldante pra perguntar se conhecia uma tal de Magda. Não conhecia. Sacou uma carteirinha e me mostrou, alguém havia perdido. Por ser uma menina aparentemente nova e estudante achei que teria mais chances de encontrá-la, e segui viagem com mais essa atribuição. Passei pelo mar de gente e me dirigi aos caixas de passe único, pois o meu tinha sido invalidado e não tivera tempo de resolver ainda. Isso significava pegar a fila comum, e enorme, ao invés de ir esperar o trem. 

Olhei desejosa a plataforma apinhada de gente, tentando ouvir por entre os ruídos da cidade o som característico e forte do trem. Devia estar perto de passar. 

Torcendo para que a espera fosse pouca, passei pelos caixas de autoatendimento que pareciam gritar pra mim. Com a visão embotada cheguei até a fila que, de tão grande, mal me deixava ver os caixas, e sentei ao lado de um senhor corpulento e suado com uniforme de vigia. Lembrei de uma conversa que me disseram antes de sair de casa, nem precisei perguntar pra que o homem puxasse assunto confirmando. Os vigias agora saíam as oito e meia da noite, deixando as estações vulneráveis  a partir desse momento. Eu ignorava os motivos pra tal decisão e nem me ocorreu perguntar até quando isso se manteria, tampouco que alguns dos meus horários eram a noite, e que isso seria mais um problema para resolver. 

A tarde chegou enquanto eu batucava o cartão perdido. Quem sabe deixando à mostra alguém não reconhecesse... Resistia a vontade de pegar o celular pois não queria tirá-lo da bolsa num lugar tão cheio e tão público. Um funcionário destacou da fila as pessoas de uma certa localidade que tinha agora uma legislação diferente. O tempo se arrastava.

As três da tarde eu levantei e andei até o início da fila. Queria saber que diabo estava acontecendo pra tanta demora em emitir alguns cartões. Para minha surpresa a fila terminava em uma cortina, e por trás dela uma sala de família sediava um culto vespertino. 

Indignei-me. Mas mantendo todo o respeito questionei o porque da pausa nos atendimentos. O líder que conduzia o culto, escandalizado pela interrupção como a senhorinha atrás dele, me disse que continuariam assim que terminassem a cerimônia. Isso deveria ser por volta das quatro da tarde. 

De mãos atadas saí da estação. Inicialmente torcendo para encontrar na memória uma alternativa aquele horário, mas lembrando que já pouco adiantaria chegar, e ainda mais do risco de vir de volta, redirecionei minha busca para um mercado onde pudesse comprar logo o jantar. 





quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Amor em tempos de isolamento.

Se nas claras manhãs te procuro;
Nas frias noites enfim te encontro;
No vasto mar de meus pensamentos;
Farol de brilho e aconchego;
Se fecho os olhos sob meu manto.

Memória serena e boa;
Querida e ímpar pessoa;
Que podem as ondas do mar,
Se sossego ao te encontrar?
E através de mim teu nome ressoa? 

Os dias que passam ligeiros;
Soterram em vão meus desejos;
Pois na calma gelada relembro;
O calor que sinto em teu corpo;
Quando anseio pelos teu beijos.

Congelada em minha lembrança;
Está na penumbra tua cama;
Dois corpos numa conchinha;
Anseio não estar sozinha;
Ouço os ventos da mudança.

A distância coíbe o corpo;
Hormônios já não ouvem coro.
Sei que também tens urgência;
Sobrepomos distância e ausência;
Devoro o texto que é pouco. 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Atualizações de quarentena.

Mês passado foi terrível. A quarentena começou a azedar por aqui. Estava esperando entrar em julho bem, mas isso terá que ser uma transição lenta.

Estou rastreando meus hábitos em uma agenda e consegui bater um recorde! Passei o mês inteiro sem ler ou estudar um dia sequer. Trinta dias. Eu me lembro claramente da única tentativa de leitura em meio a isso, li uma página pequena. Não contou. 

Eu sempre me achei uma pessoa feliz e sortuda, por coincidência comecei a anotar meu humor do dia. Mês passado não tive mais de três dias felizes, nem meu aniversário escapou. Eu me recuso a crer que tenho uma vida triste, mas percebo que ela está mal de alguma forma. Nada que me afete tanto, se não fosse a agenda talvez nem notasse. E isso é o preocupante, será que nunca notei?

No começo da quarentena não conseguia dormir bem, voltei a ter medo do escuro. Fantasmas do passado vinham me perturbar.
Mas agora a luz do banheiro dorme acesa e eu não durmo por outro motivo. É o motivo pelo qual não estou dormindo agora. A mente não para. 

Já fui no passado visitando memórias de infância. Vi o pôr-do-sol ao som de "Era um garoto" e vi a cidade e a noite pela janela enquanto balançava na rede ao som da voz da minha mãe. No futuro imaginei diferentes formas de rever o meu amor, com as devidas correções de realidade. Lembrei de uma música da Mallu que eu ouvia muito quando o conhecia, evitei pra tentar dormir. Depois pensei: que mal uma música faz? E enquanto recitava os versos fui vendo as cenas e sentindo o clima de anos atrás, o coração acelerou. Também lembrei de alguns cds antigos, músicas e mensagens... Livros que tenho que ler. E no presente pensei nas casas vizinhas e em como estarão, nas pessoas. Tudo isso me impedindo de dormir. Hoje acordo cedo. Acordo em menos de duas horas...

Tentei escrever um post sobre a noite outro dia mas acho que acabei perdendo o foco. Sempre foi algo meio importante pra mim. É natural também que a mente relaxe quando estamos deitados e isso faz aparecer muitas e muitas coisas. 

Andei pensando sobre como a minha rotina é confortável. Forte indício de que o conforto não basta pra trazer felicidade. Tenho medo de voltar a rotina normal. Na minha casa antiga a noite eu ouvia as folhas das árvores, os carros e o mar. 

Não sei se já contei mas hoje eu moro numa casa muito importante pra mim, talvez faça um post sobre ela outra hora.  Aqui escuto principalmente o som da geladeira e os movimentos da família durante a noite. Também ouço muito os cachorros da vizinhança, mas agora estão todos quietinhos, e em algumas horas ouvirei os galos cantando. 

"O tempo vai passando cada vez mais veloz... A gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência"

Nessa música o Lenine fala que a vida é tão rara... Estava eu aqui pensando no quanto ela é frágil. A vida é uma sorte com certeza. Hoje em dia ainda mais, estar vivo é uma sorte. 
O Henry Bugalho publicou um vídeo hoje falando sobre um prefeito que disse "Vamos abrir, morra quem morrer". 
Além de nossas fragilidades ainda tem quem se recuse a dar mais chances pra que todos possam viver. 

É revoltante pensar sobre como o mundo é torto e injusto. Torto no sentido de que cometemos erros e fazemos o mal conscientes disso. A ideia de sofrimento é comum, é aceita. Ninguém liga mais porque já saturou. Apenas tememos/aguardamos pela nossa vez de sofrer. 

"Os gatos nos telhados são aquelas entidades que fugiram do seu lar a muito tempo..."

Um trecho de uma música que eu gosto muito pela delicadeza. Mas me lembrei agora por causa dos gatos nos telhados. Sempre penso que vão quebrar as telhas pelo barulho que fazem. Desconfio fortemente que esses daí não fugiram do seu lar, pelo menos uma deve estar bem em cima do seu lar, ai ai. Porque será que os gatos escolhem os telhados pra passear? 

Então... Eu não quero mesmo voltar a minha rotina normal. Não sei dizer se gosto... Se sou feliz. Mas a cidade grande é o cerne do problema. Quando eu estudava numa cidade pequena tudo era meio mágico, e eu gostava. Me arrependo de ter saído mas penso que fiz o certo.... Então talvez não me arrependa, enfim. Mas a cidade grande te castra. 

Eu tive um sonho bonito outro dia, no começo da quarentena. Sonhei com a faculdade e com a cidade, e me arrependia de não ter visto tudo. É um pensamento frequente meu, sobre não decorar nomes e rostos, não aproveitar amizades e lugares. 

Eu queria poder conhecer a cidade, queria visitar seus lugares. Mas parece que eu estou sendo introduzida nesse "ser consumida pelo cotidiano" (cheio, porque o vazio eu já conheço bem), e eu gosto. 

Mas eu não gosto da cidade, das suas ruas perigosas, das suas pessoas más. Do dia quente e da noite fria. O dia que é perigoso e a noite mais ainda. Não dá pra ficar em paz com o tanto de risco que se corre, com o tanto de história que se escuta.

Assunto pra outro post: eu demorei a aprender que se anda com as pernas.

Mas quem me contou que a cidade castra foi um amigo meu. A psicóloga dele quem disse. Que ele não conseguia se interessar por ninguém porque toda a energia sexual tinha sido castrada pelas sensações de estar numa cidade nova. 

Mas antes do meu amigo eu já sabia:

Não quero voltar a rotina porque não quero voltar a ter medo. A me sentir um alvo toda vez que saio na rua. Além do mais, todas as inseguranças a respeito da vida me pegam. Todos as faltas que tenho comigo, todos os dias em que não quero estar em aula quando é a única coisa que não deveria estar errada. 
(E temos aqui o terceiro assunto que daria outro post.)

Além disso eu estava pensando sobre saudade. E como incomoda na hora da despedida.
"Não foi assim que eu sonhei a nossa vida... (...) Mas a vida não permite ensaios"
Não quero voltar a rotina pra não ter que voltar a sentir saudade, que entra aqui como o quarto assunto que merece um post único. 

E em meio a essa rotina que nem promete nem cumpre, mas se sustenta no básico, nesses dias que voam, que eu acordo e já é de tarde, de noites curtas e... Noites que eu rezo mais pra agradecer do que pra pedir. E que eu peço mais pra poder dar do que receber. Em meio a isso temos o mundo lá fora que está como nunca (mas talvez melhor do que nunca se olhar em uma escala maior...?) E continua rodando com suas pessoas escrotas e suas injustiças. E injustiças e pessoas escrotas. E pessoas escrotas morrendo, e pessoas escrotas morrendo e pessoas injustas morrendo e morrendo.  Não que eu tenha sensibilidade pra me importar com as pessoas morrendo, como eu disse, saturou. Mas me entristece perceber que tudo isso podia ser evitado. Que poderíamos viver melhor.

Mas o quão difícil é se organizar como pessoas, se numa família pequena e isolada tem atritos, cansaços... Imagine em tantos milhões de pessoas. Mas quando será que vamos conseguir melhorar o quadro geral? Será sempre nesse passo arrastado? Quantas geraçōes passarão até vermos uma vida digna com o básico garantido? Em que ninguém mais seja alvo de violência, ou morra de fome, viva precariamente, morra antes do tempo, e possamos entrar em sintonia com a natureza? Eu digo, no sentido prático de não explorar, mas pode ser no espiritual também.

E ainda em meio a isso, eu me estresso. Já faz dois dias que estava estressada no fim do dia. Mas eu quero que seja diferente. 

Hoje eu percebi como é arriscado essa história de interagir, e daí que vem a graça, nunca se sabe o que pode acontecer. Quando você conversa com alguém e troca uma ideia...

terça-feira, 16 de junho de 2020

Curtas 1 - Insetos

Partindo da ideia de desenrolar pensamentos, mas levando em conta que nem sempre eu tenho capacidade ou disposição pra fazer como gostaria, tento por talvez a quarta vez lançar a série de curtas aqui no blog, onde eu falo rapidinho sobre algum pensamento, esvazio aos poucos meu grupo do whats e deixo registrado dignamente aqui. 

Do começo do ano pra cá eu comecei a ver insetos nas bordas da minha visão. Não digo alucinar, mas parece que comecei a notar mais os insetos, ou andar mais em ambientes sujos..?
Fiquei pensando: se fosse supersticiosa poderia anunciar um presságio ruim, ou talvez eu esteja meio podre por dentro e isso se reflete no meu exterior? Li em algum livro espiritualista uma vez que quem tem o espírito podre é cercado de insetos. Mas também ouvi que ano passado, ou esse ano, não lembro bem, seria o ano em que tudo que fizemos voltaria pra nós. Se eu tô tão bem então não tem como estar tão mal. 
De qualquer forma estou atenta as baratas. Curiosamente pela primeira vez, ainda esse ano, subiram em mim uma barata e uma aranha. Quem sabe eu só esteja docinha?

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Virtualidade.

Fiz um exercício de autocontrole: abri o instagram, deixei a página carregar o primeiro post e fechei em seguida. Depois abri o tiktok, esperei carregar e fechei também. Queria provar pra mim mesma que estava consciente o suficiente para não ceder as tentações. Rolar o feed é uma experiência viciante e frustrante. Às vezes parazerosa, mas pra isso as coisas do lado de cá da tela tem que estar boas primeiro. Melhores do que o normal. 
Quando estou bem consigo olhar a felicidade alheia com bons olhos e palavras generosas. Olho as postagens políticas com mais disposição, e ignoro as publicidades com tranquilidade. Olho e interajo, compartilho e percebo, questiono, pesquiso. Quando se está bem é um feed totalmente novo. Mas quando se está de normal pra baixo vira um negócio muito chato, só receber, receber... Sem nunca devolver, sem parar e sem sentir muita coisa boa. 

De vez em quando penso sobre essa outra dimensão que é a tecnologia, o celular, o pc... Já se imaginou parado olhando pra um pedacinho de metal? Meu avô vive falando disso, e tem horas que paro e imagino, eu mesma na terceira pessoa, me observo: eu deitada na rede com a coluna meio torta, a perna já dormente, o olho vidrado ((e sem óculos)), lábio rachando, sono atrasado e as mãozinhas sustentando um negocinho preto bem pequenininho. Mas por causa da mente esse corpo só agora tomou consciência, só agora foi ocupado. Antes estava ligado por um fiozinho que mantinha o piloto automático enquanto a consciência viajava por um sem-fim de informações e lugares.
E é engraçado pensar nisso, em como ficamos imersos em outro mundo. Com fones de ouvido então... Cada vez mais. 

Imagino se quando criarem os Never Gear da vida vão haver (com certeza) redes sociais, blocos de notas, calendário menstrual. Imagine todos esses aplicativos do celular convertidos em realidade virtual. O que poderiam oferecer? Redes sociais seriam como esses joguinhos, você põe o avatar e vai pra uma sala de bate-papo, só que na real daria pra editar a sala, pra comprar cenários famosos, e um menu virtual pra selecionar a pessoa com quem conversar. Ia fazer sucesso mas demorariam a se acostumar: mesmo usando um avatar a sensação de segurança de estar anônimo por trás do teclado é mais confortável. Quem sabe fizessem uma silhueta de anônimo pra isso?
E pro bloco de notas? Seria como estar frente a uma parede gigante pra riscar, ou quem sabe uma mesinha com vários bloquinhos disponíveis, um design clássico. Mas o melhor de tudo seria ter a liberdade de criar nesse mundo virtual, mais ainda do que hoje. Lembro de uma revista da Luluzinha Teen que falava sobre isso. Tenho certeza de que quando o The Sims for adaptado pra realidade virtual eu não saio dele nunca mais!

domingo, 24 de maio de 2020

Privilégios e desabafos.


"Você é capaz de refletir sobre os próprios privilégios?" Era isso que havia na legenda dessa foto na primeira vez em que a vi num post qualquer. 

Eu estava escovando meus dentes e pensando sobre privilégio. Num país onde 5,5 milhões de crianças não tinham o nome do pai registrado em 2011, ter pai e mãe já é um privilégio. A lista aumenta se for ver minha criação repleta de liberdade, o ambiente diferenciado em que vivo devido a personalidade das pessoas que me cercam, o afeto. Além disso a questão de não passar necessidade, ter acesso a saúde, lazer, educação, tecnologia, e no que isso resulta?
O que tenho feito com toda essa oportunidade que me foi dada, e que aparentemente não precisei me esforçar pra ter?

Me pego pensando nisso quando lembro que estamos em quarentena. As pessoas dizem para que não nos cobremos muito pois todo mundo anda mal. Porém eu não ando mal. Sempre gostei de ficar em casa, e percebo como é injusto que algumas pessoas não tenham condições de estar bem em casa, ou sequer de estar em casa; e como outras pessoas estão isoladas mas emocionalmente abaladas. Isso ainda não me atingiu e eu agradeço que não, entretanto, apesar de mais esse privilégio, o de estar tranquila e bem, eu permaneço letárgica me limitando a pequenas atitudes dentro do imenso período que é o dia e praticamente ofendendo tudo isso que me cerca. 
Sempre foi assim, me vi cercada de oportunidades e deixei que elas se fossem. Deixei de aproveitar. 

Me deixa pensando quando lembro de amigos que passam uma barra. Não têm acesso a água encanada, não tem dinheiro pro ônibus, passaram uma vida de sofrimento, têm problemas em casa... Entretanto quantos deles são incríveis, pessoas de personalidade radiante, empáticas, críticas, inteligentes e ativas. Que fazem mil e uma coisas apesar dos pesares...
E eu sem pesar nenhum vegetando no mundo...
Não estou dizendo que queria que as coisas fossem difíceis, quanto mais fácil melhor! Mas é que parece muito injusto que eu possa passar tanto tempo da vida como passo. Injusto com quem não pode e estaria aproveitando melhor que eu, e injusto comigo mesma por não me dar a vida que eu deveria estar vivendo. 



No começo de maio tudo mudou. Eu comecei a fazer caminhada, faculdade, curso e outras coisinhas. A vida não estava ideal mas a sensação de ter dias enormes era maravilhosa. Chegava em casa com quatro camadas de suor diferentes. Foram uns quinze dias intensos até entrar na quarentena. A partir daí as coisas voltaram ao que era. Perdi o sopro de músculo que minhas panturrilhas estavam criando. Mas ganhei em gordura na barriga. Vomitei, tive dor de cabeça, veio a indisposição. Agora sinto desconfortos na coluna. Não estudo, não vou a aula. Um rascunho de rotina se perde entre linhas e anotações. Rastreio meus hábitos mas preencher a tabela não é um dos hábitos. 
Meu humor muda as vezes, ver as tarefas se acumulando me deixa um pouco irritada, ansiosa, desanimada.
As vezes quando faço um trabalho, um texto, me vem o sopro de energia. Mas é sempre uma batalha interna entre a letargia e a animação. Entre três horas da manhã me prometendo acordar cedo no dia seguinte e uma hora da tarde me prometendo dormir cedo para não repetir o ciclo. 
Uma vida de promessas quebradas.
Acúmulo, preguiça, letargia.

Um dia no meu último ano do ensino médio, quando eu estava frequentando pouco as aulas e bobocando na vida meu professor veio saber o que estava havendo. Mais de um na verdade. Estava ameaçada de reprovar por falta, e um deles disse que se fosse por ele eu não passaria. Se não fossem as faltas seria a recuperação em física, já que em química o professor me dava ponto. 
Então me perguntaram e eu dizia "nada... É só falta de interesse" e via a decepção estampada no rosto deles. Sempre transitei entre essa linha de aluna boa, destaque em alguns pontos e desânimo em outros. Não à toa reprovei por faltas no último ano do fundamental. 

Pode ser que refletir sobre seja o primeiro passo, mas caramba, devia ser algo demorado assim, o processo de mudar? 
Eu obtive melhoras em muitas áreas da vida com o passar do tempo, no autocontrole, na paciência, perseverança. Mas apesar disso ainda falta tanto pra eu me por nos lugares onde quero estar. Pois até então parece tudo uma questão de sorte. Muito mais sorte, do que mérito.
Não culpo a quarentena por ter cortado meu clima de maio, eu ja estava rareando mesmo. 
E em casa volto ao dilema. Parece que estou isolada em uma bolha de perfeição, poderia viver o resto da vida assim. E é absurdamente triste pensar em quem me garante estar assim. 
Como posso levantar uma bandeira feminista se permito que minha mãe carregue sozinha a maioria das tarefas de casa? Às vezes as que ela não pode fazer por alergia, e em detrimento do seu tempo de lazer e estudo? 
Como estar tranquila em minha redoma se meu pai precisa trabalhar todos os dias, acabando com a própria saúde, se sacrificando e correndo o risco de se contaminar? (parêntese para enaltecer a calma e a competência dos meus pais em lidar com isso tudo e mais um pouco) E imaginar as pessoas que trabalham em um supermercado pra que eu possa comer meu bolinho? E imaginar as pessoas nas grandes cidades tendo que andar em ruas vazias e perigosas? E imaginar quem oferece perigo e porque, se é por falta de apoio, de amor, de condição de vida. 
E como viver feliz sabendo o quanto tenho sido inútil para mim e para os outros diante do nosso belo quadro social? 

Agora o que eu penso a bastante tempo, é que eu deveria usar esses privilégios pra ajudar outras pessoas a melhorarem de vida. Fazer um trabalho de formiguinha em prol da igualdade. Aliás, nem questão de privilégio, mas de vida mesmo, que eu deveria fazer algo por alguém. Mas se sequer consigo ser uma professora decente para os meus irmãos, ou uma filha decente para os meus pais. Ou uma cidadã decente que estude a política e a história do seu país. Ou mesmo uma pessoa decente que cumpra as promessas que faz a si mesmo. 

Pra quem não sabe eu curso licenciatura em teatro. Só de ter o apoio de minha famíia em uma faculdade de artes ((a terceira tentativa de faculdade)), já contamos mais um ponto pra lista. Eu gostaria de me apropriar do conteúdo, das possibilidades, da formas de fazer e ser uma futura artista e professora que pudesse ajudar meus alunos e as pessoas que vissem minha arte. Mas parece que eu olho o caminho e sento na pedra em frente a ele esperando algo me empurrar. 

Nunca gostei de ouvir que a gente aprende através da dor. Porque eu não gosto de dor e não me parece certo colocar isso como algo essencial. Mas parece inegável que é uma das formas de se aprender. 
Minha mãe me contava uma metáfora sobre isso: 
Duas pessoas estão no alto de um morro discutindo que se caíssem dali iriam morrer. Uma das pessoas resolve testar e se joga, morrendo lá embaixo. A segunda pode aprender vendo o fato, ou pode se jogar pra testar se morre mesmo.

Entretanto nem todas as pessoas que aprenderam através da dor puderam escolher isso, ao menos não nessa vida. 

Já meu pai me disse uma vez que não gostava da ideia de que quem conhece a verdade vive triste. É uma boa ideia a dele: na verdade só vive triste quem conhece a verdade e não faz nada pra mudar. Mas pessoas que dedicam a vida a fazer o mundo melhor por mais que estejam cercadas de sofrimento são felizes. Pois elas estão fazendo a parte delas pra melhorar. 

Eu não me culpo pelos problemas de desigualdade que nossa sociedade apresenta, e que vêm se agravando/escancarando durante a pandemia. Mas me culpo por não fazer a minha parte sobre isso. Quando na verdade eu tenho ferramentas para melhorar a vida das pessoas mesmo que um pouquinho. Mesmo que bem perto de mim. 
Falta interesse.
Ainda meu pai diz que se você quer mesmo algo que pode fazer você faz. E se não faz é porque não quer de verdade.

Aqui me despeço com a esperança de acordar relativamente cedo amanhã. Se cuide, fique em casa tanto quanto possível, e agradeça.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Violão, pesquisas e metal.

Ganhei um violão a mais de oito anos, e na maior parte desse tempo ele passou guardado em um cantinho. Durante esse período de isolamento arrisquei voltar a tentar algo.

Alguém me disse recentemente "se você quer tocar violão, basta praticar cinco minutos por dia. só cinco minutos" e fui tentando, acabei fazendo trinta, sessenta minutos por dia. Hoje estava especialmente empolgada de conseguir pegar com mais facilidade a Piscar o olho, da Tiê. Cada pestana acertada, ainda poucas, e acorde bem executado me fazem um pouco mais feliz. Considerando o número de acordes tocados em uma música pode-se dizer que estou felicíssima?

Mas esse post é sobre eu indo explorar o canal do cifra club, como quem não quer nada, e de banda em banda, comentário em comentário ter pousado minha atenção em duas bandas maravilhosas: Shaman e Avantasia. Uma brasileira e a outra alemã, ambas se cruzam em estilo. A primeira power metal progressivo e  a segunda heavy metal. Dados tirados da mais pífia pesquisa do google porque eu mesma não entendo nada de metal, na verdade agora a pouco estava conjecturando que diabo de estilo era esse que entrava em meus ouvidos.

Outro dia, fim do ano passado, fui assistir um cover de Metallica. Caí como num filme de efeito ruim no meio de um bar cheio de cabeludos, gente dançando frenética na frente de um palco, música alta pra caramba e eu tentando assimilar tudo aquilo. Ainda me lembro da sensação de ir ao banheiro apertadinho daquele lugar e ver o mundo girando. É bem atordoante. 

Não que eu tenha desgostado da música, mas gostar, eu também não tinha. E me limitei a adicionar Nothing Else Matters na minha playlist. 

De experiências passadas já sabia que era café com leite nessa história de "rock pesado", e raramente me atraía todo esse clamor de guitarras e gritos. Entretanto, pega de surpresa me deparei com essa obra de arte que linko abaixo:


Como já dito, me perguntei: O que é isso? É ópera? 
E seguiu-se o encantamento pela sobreposição dos ritmos, a cadência da voz que canta, a sensação quase visceral de ouvir a voz junto com os instrumentos, mas principalmente a atmosfera clássica/épica impressa pela música. Empolga, mas também relaxa. 

Não é comum se deparar com obras que te fazem se arrepender de ter clicado tanto no botão do like outras vezes. Ou te põe tão interessada em conhecer mais. 

A comparação com o estilo em voga na minha playlist atual é inevitável. Como a maioria eu tenho frequentado o tiktok, confesso que um pouco antes da quarentena, e inevitavelmente adicionei várias músicas que a galera usa nos vídeos. Evidente que uma música, famosa ou não, nesse ou naquele estilo, carrega seu sentido próprio. Mas minha primeira impressão foi a de que isso que eu estava ouvindo se diferenciava bastante de uma música "fabricada" que andamos ouvindo. É o eletrônico, a letra feita, o sentimento rasinho, rasinho. Ou a galera que se passa, passa estilo, e fica nisso mesmo. 

Letra de O Rap Tá Pop de Fabio Brazza | MusixmatchO que, fugindo do assunto, me lembra esse ícone nacional que eu amo e estava ouvindo recentemente: 

Então. Essa foi a minha primeira impressão, aí pensei de novo. Poxa, eu nem vi as traduções, o som é legal mas, e aí? 

E pensei um pouco incomodada, de estar reproduzindo, sobre essa cultura de que certos estilos são melhores que outros. Bem representado na rivalidade adolescente entre o funk e o rock. Mais bem representado aqui por mim mesma na adolescência, treze aninhos, em que me passava de rockeira, até hoje como vemos sem nenhuma autoridade pra falar de que estilo gosta, e amava ouvir um funk na zoeira com os amigos. É a brotheragem na música.

Tobias Sammet's Avantasia - Letra de Farewell | MusixmatchDaí eu penso que é natural ao descobrir um estilo novo que te impacta, pensar que ele seja superior aos outros, mas, tal como uma música boa, vai encontrar um lugar na sua vida sem precisar desmerecer os outros...
E continuando o assunto, descobri também a Avantasia. 

Das que ouvi não são tão suaves como Shaman, mas também interessantes. Segue link: https://www.youtube.com/watch?v=d84cZivhT84

Agora arranjei um tema pra pesquisar de vez em quando. Metal, seus subgêneros e a cena brasileira. Quem sabe volte com mais ideias no futuro? Quem sabe me torne uma dessas cabeludas que curte um som no bar? Ou uma mina estilosa usando blusa de banda, que eu sempre quis mas nunca tive dinheiro nem gosto pra isso? Só o tempo dirá, meus caros. 

Hoje fico por aqui, blogosfera, vou tentar ouvir Angra e ver se gosto também. 
Aliás, no meio dessa pesquisa também me deparei com Sidney Magal, mas isso é história pra outro post. 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Playlist, imaginação, inacreditável e vôos.

Como assistir um filme e ficar imerso, usar o blog também proporciona aquela ideia que, em algum canto, eu já comentei de se sentir uma adolescente no mínimo 15 anos mais jovem, isso não quer dizer que você rejuvenesce mas que por um momento a sua realidade é outra. Mais leve, e as preocupações são mais comuns. Claro que é uma impressão passageira, ela rapidamente abre lugar para o assunto que você vai escrever e te obriga a virar suas belas órbitas para sua vida.

Esse é um post livre, apesar de eu ter mil e uma anotações de assuntos pra tentar desenrolar. Todos os posts começam meio livres na real, hehe, outros começam antes de eu sequer pensar em escrever, eles se desenrolam sozinhos na minha cabeça. Agora por exemplo, estou querendo digitar duas coisas ao mesmo tempo e isso é um pouco impossível, então vamos por partes, sem respirar, pra não perder o fôlego criativo.

Primeiro, eu tô ouvindo minha playlist, a coronalist, e resolvi marcar as músicas que estiverem tocando enquanto escrevo, vai que elas influenciam algo na escrita? [phonesex - yung lixo]

Então, falando sobre os posts que se desenrolam sozinhos, é como uma conversa [sambinha - o grilo] imaginária. Você está aqui de boa tomando banho e de repente começa a criar uma situação na sua cabeça, ou um post, ou uma conversa, e tal hora ele saiu andando sozinho, e ai de você se não conseguir transferir tudo pra um post real depois.

Bem, hoje aconteceu uma situação engraçada. Eu fui tomar banho e estava pensando como seria entrar para o bbb, que no momento está sendo bem comentado. Então estava pensando em como seriam as minhas conversas com os outros participantes, creio que nada fluidas, e quando vi estava de frente para o espelho do quarto conversando com meu reflexo. [eye of the tiger - survivor] Eu já tinha saído do banho, pedido para minha mãe sair do quarto enquanto eu me trocava, e ainda estava com a cabeça na conversa inacabada no sofá imaginário com os participantes imaginários. Eu me olhava conversando e era um prazer mover a boca e fazer gestos embora não pudesse emitir som.

A vida tem dessas, a minha vida tem bastante, como já disse anteriormente sou uma apreciadora das janelas dos ônibus, alguns anos atrás era mais ainda. E quando você coloca um fone e olha a pista, os postes e a vegetação é quase inevitável não se perder. Belchior disse que viver é melhor que sonhar. É uma conclusão inevitável quando se sonha tanto acordada. Por outro lado, sonhar é muito bom também, e não traz os riscos e o processo lento de realização. [hips don't lie - shakira]

Falando nisso, minha playlist é resultado da realização de uma dessas ideiazinhas que queremos mas nunca fazemos. Como costurar um urso ou pintar uma blusa. Era juntar num lugar só todas as recomendações de música que eu recebesse ou quisesse. E nessa quarentena eu comecei a abrir a pasta de prints e adicionar tudo na coronalist. Na realidade eu já estou enjoando dela, mais rápido que das demais, porque o processo de construção dela não foi tão natural. Mas tenho descoberto músicas novas que me agradam, e isso é bom. [here with me - the killers]

Outro dia, alguns anos atrás, vi no facebook um post sobre pessoas que imaginam demais, e que isso pode começar a ser catalogado como doença. Não que eu tenha chegado em um ponto desses mas é incrível esse poder que nossa mente tem. Claro que não para aí, tem as pessoas que conseguem andar em brasas e curvar barras de aço com a garganta usando sua concentração. Eu não duvido.

Bom, eu acredito em muita coisa inacreditável se você for ver. Uma noite de 2016 ou 17 fui perguntar aos meus pais onde estava meu irmão, pois já não o via a bastante tempo. Eles estavam sentados no quintal, nessa época um quintal médio com algumas plantas, e eles embaixo do cajueiro conversando calmamente. Era uma noite agradável, ainda lembro do cheiro da casa que era impregnada de caju, e de como eu subia naquele cajueiro na virada do ano pra olhar o céu. De como dava pra ver ainda a lua com o sol já nascido lá fora dos muros. Isso é outra história. [the times they are a-changin' - fort nowhere] Então eu perguntei pelo meu irmão e eles me disseram, com toda a casualidade de quem toma vento no seu quintal numa noite quente nordestina, que ele tinha ido voar. Porque ele aprendeu a voar e tinha saído. Eu olhei pra cima um pouco incrédula mas feliz. Ora, veja você, leitor, que voar sempre foi meu sonho. E nesse período minhas imaginações estavam a todo vapor, era inevitável que eu me agarrasse aquela ponta de esperança. Foi um momento realmente belo pois eu não sentia inveja, apenas um sentimento bom por meu irmão ter alcançado algo que eu sempre quis. E ainda estava caindo a ficha pra mim.

Não lembro se logo depois ou muito depois meus pais me disseram que era mentira. Eu aceitei bem, aliás, eles riam de como eu poderia ter acreditado, mas eu acho que não faz mal pensar que coisas maravilhosas assim possam acontecer, deixa tudo mais interessante. [cradles - sub urban]

O que eu mais gostava de fazer nessa época era me balançar na rede ouvindo música. Porque eu podia cantar, colocava um karaokê vez ou outra, e ao mesmo tempo imaginar que voava de inúmeras formas diferentes, pra lugares, aventuras. Aprendi a balançar sem encostar os pés no chão, só com o peso do corpo, e flutuava pelo céu do mundo inteiro.

Flutuava com a rede amarrada na sala, na área, entre dois coqueiros, na varanda da minha avó. Esse último era o melhor lugar pra balançar, mas enjoava fácil, saturava. Talvez por não ser meus lugares de costume. Vou contar sobre as coisas que eu pensava, sobre os lugares que eu visitava.

Na sala [o errado que deu certo - cbjr] eu ouvia justamente charlie brown, engenheiros do hawaii, titãs, legião urbana, red hot e mais uma penca de coisas. Eu gostava de balançar só pelo prazer do vento e da altura. Pensava certas vezes, brincando com meus irmãos, que estávamos em um navio pirata ou em uma nave espacial. Eles cuidavam do combate e eu pilotava enquanto dava as situações.

Quando sozinha pensava em sair voando, via os punhos se soltando com minha força de vontade [around the world - rhcp] e imaginava como poderia sair flutuando pela porta, com os punhos da rede dobrados como um arabesco, e ia vendo a cidade, inicialmente próxima e cada vez mais longe, mais frio. Porém a solidão não me sufocava, o frio na barriga pelo medo do desconhecido não era suficientemente forte pra nublar a minha felicidade em contemplar as casinhas e as pessoas, e o raro movimento da cidade de um lugar privilegiado. Então eu resolvia o que fazer, voava para o japão, pousava no centro de Tóquio cheio de neons, e subia de novo. Não passava muito tempo em lugar nenhum como no céu. Passava na casa das minhas amigas pra que subissem comigo, chamava meus irmãos. Deixava que experimentassem cruzar as cidades.

Sempre tive medo da vastidão [antes do fim - belchior], não olho o mar nem os pólos no google maps, não ficava fora de casa nem me afastava muito quando tentei jogar minecraft, parei de jogar esconde-esconde pelo medo de ser descoberta. [in too deep - genesis] O espaço não me assusta mas o oceano sim. Porém nas minhas aventuras nunca tinha medo do mar, ele sequer aparecia enquanto eu cruzava o planeta-água.

Lembro de uma tarde em que sentei pra balançar nos coqueiros e me perdi de forma tão profunda nessa viagem que quando dei por mim estava chorando ao som de in my remains, não lembro quais pensamentos me acometiam pra causar emoção tão forte.

Nas tardes de sol na área pensava nos parques de diversão, nas barcas e rodas gigantes, pensava na vida e também em como seria se um dia todas as pessoas que eu conheci na vida (bom, certas pessoas, não todas) ficassem presas comigo em uma sala, ou em uma floresta, e tivessem que lutar para escapar. E eu, de repente, percebia que a única coisa em comum entre todas essas pessoas era eu mesmo e começava a guiar a nossa aventura.

Inclusive, não apenas as redes estavam restritas minhas aventuras por florestas e mundos mágicos, jogos onde eu me tornava uma guerreira elfa ou bruxa. Esses apareciam principalmente durante meus banhos. Criava narrativas incríveis. Talvez por isso fiquei tão encantada quando assisti sword art online. [déjà-vu frenesi - letrux].

Na varanda da minha avó eu balançava ao som da lembrança da música que abre o filme O serviço de entregas da Kiki, o primeiro trecho é "meu coração quer voar, sinto o vento me acariciar", e a cena é absurdamente linda. Os filmes do hayao me fazem pensar que não sou só eu que penso essas coisas, o catbus é um exemplo que me surpreende do quanto ele conseguiu condensar uma emoção tão onírica num único personagem. Uma porrada de traços que já haviam me ocorrido: andar no fio dos postes, a velocidade, a luz amarela aconchegante, a quebra de leis simples, [r u mine? - arctic monkeys], a malícia no olhar do gato e o aconchego... Tudo junto, tudo ali, explicitado. Além disso, o noitibus de harry potter segue lógica parecida. Talvez sejam traços que quase todo mundo sente, tem a ver com infância e com magia, e por isso é tão incrível de pensar e de ver.

E assim eu consolidei meu amor por vôos, balanços, imaginações.
Hoje em dia meus pensamentos de voô mudaram um pouco, as implicações da lógica começam a pesar, outro dia passei quase uma hora olhando pro nada e pensando nessa situação que seria voar de forma realista. A realidade é maravilhosa, mas [oração ao tempo - caetano veloso] pra isso não me serve. Quando puder pulo de pára-quedas, salto de asa delta, vôo de balão ou salto de bungee jumping, mas nada vai se comparar ao que seria de fato, voar por si. Outra diferença essencial das minhas imaginações de hoje, já não quero uma rede. Quero soltar meu corpo no ar, invisível. Atravessar a janela, a porta, ganhar altura. Sentir o sol queimar minha pele e o vento me arrepiar. Seguir um ônibus até uma cidade próxima, voar com o celular na mão pra não me perder. Talvez uma mochila nas costas. Talvez sentar no teto dos transportes públicos e olhar o trânsito enquanto como um biscoito. Ver as serras. [onde anda você - toquinho e vinícius de moraes] Me localizar num mundo de casinhas, e pousar levemente no início da noite na janela do menino que eu gosto.

Sensações I

Existe uma série de sensações que podem ser experimentadas durante a vida. Uma das sensações que eu gosto é a de dormir durante a tarde e acordar pela noite, ou no fim da tarde, com a casa toda arrumadinha, e as pessoas da casa vivendo a vida delas. É como desligar um pouco do mundo e voltar pra ele, sentindo, nessa volta, muito mais aconchego e acolhimento. Ao mesmo tempo sentir uma leve corrente de ar que indica a noite se aproximando após os últimos raios de sol partirem, e junto com essa corrente, um afastamento. Tudo parece novo e estranho, e gostoso. O sono pode deixar marquinhas na gente como um amassado do lençol e enquanto você vai caminhando pela casa vai se adaptando a essa nova realidade que você lembra que gosta de estar.

As sensações de ficar acordado durante a noite, por outro lado, não são tão prazerosas quanto poderiam. Bem, depende do lugar, depende da noite. Outra noite tentei mas não conseguia dormir. Não é a primeira vez que me acontece: dormir mas acordar no sonho no mesmo lugar onde você estava, sem nem reparar a passagem. E o sonho se desenrola preso, conturbado. O corpo não funciona como deveria, está travado, pesado. O medo de que algo vai acontecer (às vezes acontece) é constante. Essa é uma das sensações que podem vir da noite mal-dormida. A sensação seguida do acontecimento que é o sonho "lúcido" que na real você não identifica como sonho.  Pode demorar várias camadas de descobertas até conseguir acordar. Paralisia, realidade alterada. Quanto mais próximo da realidade o sonho, mais assustadoras as questões que ele desperta.
Alguns meses atrás contei aos meus amigos que vez ou outra me ocorre o pensamento de que na verdade eu já morri, e estou no inferno. Que num estalar de dedos o mundo a minha volta vai se derreter em assombrações e pesadelos sem fim. Não que eu leve essa ideia a sério, mas eu me pergunto que tipo de peças meu sonho poderia pregar na minha mente usando uma narrativa assim.
Dentro do sonho, apesar dos indícios de irrealidade, você está a mercê das forças que te cercam. Forças que me parecem instáveis demais pra controlar.

Poderia discorrer bem mais sobre meus sonhos, diferente do que possa parecer eles são em sua maioria bons e interessantes. Alguns eu nunca esqueci, guardo a mais de dez anos. Mas eles são assuntos pra outro post. Prosseguimos.

Algumas noites trazem sensações muito deliciosas, de aconchego, de descoberta e aventura. Virei algumas noites lendo livros, nem todas prazerosas, algumas por necessidade, mas lembro-me da deliciosa experiência que é escolher algo para ler antes de dormir e terminar a última página, aquela em que diz o material do papel e o local de impressão, com o céu que clareia e ameaça despontar com tentáculos dourados de luz solar. A sensação é de leve aflição, mas também felicidade. O sono perdeu lugar mas a noite não foi perdida.

Outras noites são tristes. Eu dificilmente vou dormir triste, e se vou, geralmente são esses assuntos do coração e da mente que exigem a nossa atenção e bebem das gotinhas salgadas que derramamos enquanto o sono observa de longe. Nessas noites ele demora a vir, agonia. Fico encostada na parede remoendo e criticando, crio diálogos inteiros, mil e uma situações. Mas nada disso resolve. As noites tristes, pelo menos até hoje, foram resultado da falta de coragem (de valentia mas também de ânimo) para resolver as coisas que não podem mais ser adiadas.

Algumas noites são quentinhas e fofas embaixo de um lençol, podem ser longas com um parceiro pra uma boa conversa, um filme, um grupo de amigas. Mas podem ser curtas e leves, onde você fecha os olhos e desliza para os recantos do pensamento que se torce e se embola. Se você desperta antes de dormir percebe os nozinhos que a mente estava amarrando pra te pôr enfeitiçado. O sono é uma coisa incrível, pode ser leve e profundo e curto e bom, ou tudo ao contrário. Pode te descansar, deve, em regra; e pode te fazer acordar abatido, destruído, socado na cara. Te põe quase imóvel durante umas oito horas ou mais e é misterioso. Todos os seres humanos dormem todos os dias e até hoje quem poderá dizer que compreende bem seu sono?

Mas esse deveria ser um post sobre sensações, e não sobre a noite e o sono. É que durante a noite, com o relaxamento do corpo e da vida cotidiana, com o mundo mergulhado nas trevas apesar das luzes dos postes, e apesar da luz das estrelas, parece que a gente sente mais tudo que tem pra sentir.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Músicas são cápsulas.

O principal problema de escrever sobre pensamentos é que nem sempre você está na vibe, ou seja, disposta a pensar sobre eles. Às vezes dói, frustra e te deixa chateado... Outras só é um saco. Às vezes você quer deixar pra escrever quando estiver mais sensível, ou informada ou afinada. Mas se os pensamentos não são escritos, alguns deles, somem como uma boa ideia desperdiçada, ou te fazem dar voltas e voltas batendo na sua cabecinha e uns nos outros, em conflito, dizendo que se um está certo o outro não pode estar.

Então, pra começar, eu pensei em falar de um pensamento simples: músicas são cápsulas.
Não conheço muito de medicina, demorei muito pra saber o que era um supositório e acabo mesmo de esquecer. Mas é de comum conhecimento que os remédios vem dentro de cápsulas, eles trazem substâncias que a gente não entende muito bem do que são feitas mas nos fazem bem... Ou mal.

As músicas são cápsulas de emoções. Se existe teletransporte ele está encapsulado dentro de uma canção, com certeza. Certas vezes ela por si não basta, é preciso um volume certo, um arranjo, um ruído de pessoas passando, o abafado de uma porta trancada. É de experiência própria que falo do poder de uma música. Por algum tempo me sentia mal ao ouvir "Céu azul" pela leve aflição que me dava ao lembrar de antigas amizades. "Pillowtalk" combinado com "Malandramente", "Mama África", "Me lambe", "Vagabundo também ama" e "Olha só, moreno", e, principalmente "How deep is your love", são a fórmula pra me colocar de volta no banco de trás do carro da minha avó indo ver meu namorado pelas primeiras vezes. Vejo ele deitado ao meu lado olhando a janela e falando "e me aparece essa coisinha", com voz fofa, e lembro dos fios de poste e mato verde enquanto eu caía de sono voltando pra casa...

Por outro lado, "Heavy" é a música que me faz acordar em algum andar de um prédio frio numa cidade estranha ouvindo os carros na ladeira embaixo e o barulho de construção. Ponha "Blame", Everything Black", "We don't talk anymore", qualquer uma do Matuê e mais um punhado de músicas e terá meu ensino médio olhando para a janela do ônibus e decorando a paisagem durante três anos.

Foi nesse ônibus do ensino médio que eu descobri que as músicas não trazem apenas sensação emocional, das quais já falarei mais, mas também, em mim, física. Começou com o arrepio, não sei qual música. Mas um dia, ouvindo, salvo engano, "Tamo aí na atividade" senti, pela primeira vez, uma dormência e um calor que envolvia toda a parte de trás do meu crânio. Não é como um calafrio ao receber um beijo no pescoço, é como um entorpecimento. Nada além de música me trouxe essa sensação até hoje.

Me recordo que um professor certa vez me disse que quando ele interpretava um personagem no palco e, finalmente, o personagem vinha até ele além da interpretação, ele sentia um gancho na coluna. Imagino que seja uma sensação parecida de torpor, mas que dá prazer. Estaria eu sendo possuída pelas músicas?

As músicas ajudam a recordar momentos, e são uma forma simples de condensar as impressões dele. Alguns casais dizem "essa é nossa música", e isso significa que aquela música esteve em um momento importante da vida deles. A vida com trilha sonora vira mágica. Mas as músicas também podem suscitar emoções. Uma hora você está bem e na outra uma parte sua está vivendo um adolescente depressivo que anda de capuz e sofre bullying na escola. Bom, às vezes você é esse adolescente, ou dependendo do seu nível de entrega você, de repente, sei lá, sente como se realmente fosse. Mas, pensando de forma mais simples, uma música te faz ter vontade de participar de um assalto a banco (no caso o clipe de "False Alarm"), outra te faz querer se apaixonar por alguém como "Only Exception". Segundo alguns amigos que assistiram a live da Marília Mendonça, "até quem não é corno tá sofrendo". Cada um recebe a emoção de um jeito, como "Price Tag", que eu acho a cara de um diazinho de chuva lavando louça, e minha mãe acha a cara de uma baladinha, mas é inegável que ela afeta. Qualquer coisa na forma como esses alquimistas, os músicos, agrupam as notas, e resolvem encaixar uma letra junto, mexe com a gente baseado em lentes próprias que a gente tem de sentir o mundo e as impressões.

Já ouviu Enya e Era além dos memes? Meu pai escuta e por muito tempo eu me sentia mal ouvindo, porque a música parece querer te transportar pra um lugar muito fundo que eu definitivamente não queria ir! Também já ouvi pessoas falando que quando estão tristes escutam músicas mais tristes ainda pra curtir uma boa bad, não sei dizer se já fiz isso no sério.

E tem as mensagens. Aquelas que o Chester jogava nas músicas do Linkin Park e a galera diz que salvou da depressão. As mensagens do Stromae ou do Fábio Brazza (que é ritmo, mas também é poesia) que te fazem pensar na vida. Ou as músicas do Charlie Brown que são um combo de tudo junto. As mensagens narram, mas muitas vezes emocionam, revoltam, satisfazem a revolta. E isso tudo é bom, é um jeito de botar o corpo pra mexer, a mente pra sentir, pra pensar... Pra viver.

Tem até aquelas músicas, como as de electro swing ou Scorpions (dependendo da sua idade), que te fazem viver uma época que você nunca viveu (minha mãe ama essa frase), ou viveu na "idade errada". E se escutar muito um certo tipo, você começa a querer saber mais, história do lugar, sentido da letra, se for em outra língua, entender...

Não sei vocês, mas eu tenho músicas que evito ouvir pra não desvincular da memória que ela construiu, e que as vezes se enfraquecem, mas continuam ali, uma nota mental. Minhas playlists se renovam a mais ou menos cada dois anos, são ciclos que ficam marcados por um gosto meu e do mundo, registro histórico de fato.

Algumas músicas são tão boas pra aquele momento da sua vida que são um achado. Outras te fazem repetir uma, duas, três vezes, até enjoar. Claramente eu ouvindo "Phonesex" essa semana. Músicas podem ser como drogas as vezes, viciam. Ficam na sua cabeça presas. Te fazem agir de forma incomum...

Enfim, acho que empiricamente fica comprovado por A mais B que música é cápsula, correio, transporte, velocidade, mexida, arte. Talvez seja isso a arte, porque se aplica também ao cinema, a literatura, a dança... Comunica, critica, emociona e te marca, é isso.

Acúmulo.

Já a algum tempo tenho cultivado o hábito de fazer pequenas anotações para me organizar. Isso começou, provavelmente de anotações no rodapé de cadernos que até hoje estão guardados esperando serem lembradas e resolvidas, ou em folhas de papel ofício espalhadas pela casa. As anotações, além de um lembrete, são uma forma de manter a procrastinação, pois anotando eu tenho a sensação de que aquela urgência foi arquivada e catalogada para ser resolvida.

De rodapés de cadernos escolares passei para agendas, anotações em chats do facebook, em postagens rascunhadas do blog, em notas na pele... E hoje as divido entre as notas do keep, uma agenda física, meu calendário e, principalmente, meu grupo no whatsapp. Carinhosamente nomeado de Me, myself and I.

Pode parecer exagero mas nunca estive tão organizada. No whatsapp eu coloco as anotações com certa urgência, já não rabisco nos rodapés. Na agenda estão os compromissos da faculdade, pensamentos, algumas coisas urgentes para resolver. No calendário os eventos, provas, de fácil visualização. As notas do keep são onde as anotações e dúvidas são devidamente arquivadas para consulta posterior. Livros, filmes e músicas para absorver estão lá, bem como dúvidas de gramática inglesa, e anotações ou links que eu precisava salvar...

Sou uma acumuladora, isso já é notado. Por muito tempo acumulei favoritos no navegador até que os organizei anos atrás e hoje em dia estão mais ou menos bem distribuídos em pastas. Tenho uma pasta de favoritos chamada "pesquisas", onde coloco as pesquisas que fiz no google mas estava sem tempo/saco para olhar o resultado.

Algumas anotações são tão antigas e se arrastam a tanto tempo que eu já sei de có e salteado.
Por muito tempo também guardei emails na caixa de entrada, até que meu email lotou. Isso deve ter sido em 2009. Acho que já fiz duas "faxinas" no email, e hoje em dia também estão mais ou menos e decentemente organizados. Com duas caixas de entrada limpas.

Algumas coisas são mais difíceis de organizar. Quando terei tempo de lidar com as inúmeras anotações do chat no facebook? Ou ver todos os screenshots que tirei de recomendações ou referências? Evidente que esse trabalho tem que ser feito, ou perderei mais informações do que já o fiz, e isso seria um desrespeito comigo mesma e as coisas que considero importantes e necessárias.

Mas o que me motivou a escrever esse texto foi meu grupo no whatsapp. Porque sempre que vou limpar ele me deparo com uma imensidão de pensamentos jogados e mal digitados que se tornam ininteligíveis as vezes. E eu preciso desocupar o grupo, pois esses pensamentos tem que ser desenrolados, lapidados. E foi por isso que eu dei novo fôlego ao blog, e foi por isso que vim digitar esta noite.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Poema de puxão de orelha.

Na situação atual só consigo me lembrar do seguinte poema de Bertolt Brecht:

Intertexto

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.