"Isn't it funny how day by day nothing changes, but when you look back everything is different?" C.S.
sábado, 27 de janeiro de 2024
Daqui a dez anos eu espero estar mais confortável.
terça-feira, 31 de outubro de 2023
Curtas 18 - Hoje eu vou dormir com seu suor.
Você não toma banho antes de dormir quando está cansado e deixou certamente um pouquinho do suor e da sujeira do seu short espalhados no meu lençol, embora eu tenha evitado te cobrir.
Então hoje eu vou dormir com seu suor no meu lençol e também na minha camisola rosa.
Se você não viesse me ver, seria só a camisola que combina com a touca e mais uma noite.
Mas você veio e isso não dói nem marca.
Mas veio e por essa noite, a camisola é a que esteve espremida entre os nossos abraços.
Quando fechei os olhos mais cedo, de cansaço, sem saber como lidar com desligar a sua presença da minha vida, eu lembrei de ontem e de como eu tentei decorar a sensação da sua presença física pra lembrar hoje.
Eu me imaginei deitada na minha rede, lembrando da gente junto de um jeito quase abstrato. Como acontecia em diversas noites.
E estando lá eu quis gravar a objetividade do seu braço adormecido sobre o meu estômago.
E a objetividade do meu pé procurando o seu com um lençol no meio.
E a objetividade de sentir um calor e uma presença quaisquer por diversos e minúsculos fenômenos que a física deve ter documentado em leis anos atrás.
E durante todo o tempo em que estivemos juntos, notei a subjetividade da sua presença e a força que ela exerce sobre a minha realidade. Acho que sobre essa parte ciência nenhuma tem domínio.
Como sua presença muda a cor do meu chão. Como a vida desliza e não trunca, diferente de quando me vejo só, aqui, sem você.
As pessoas, quando estou contigo, são figurantes. E quando estou só são possibilidades e apreensões.
Quando estou contigo as coisas fluem de um momento a outro, momentos contigo, pequenas felicidades, pequenos prazeres e aventuras.
Quando estou só meu dia parece uma sucessão de atividades que precisarei repetir em algum tempo. Dia após dia.
Contigo passar o dia deitada faz sentido. Dormir ao seu lado e acordar te chamando faz sentido. Ver qualquer coisa ao seu lado e jogar uma conversa, e trocar um carinho, parecem simplesmente o motivo para o qual eu existo.
E sozinha eu não encontro motivos.
Quando estou só, nada do que eu tento parece fazer sentido e me levar a lugar algum. Ou assim me parece quando estou contigo. A minha felicidade tem lugar pra se manifestar, que é na sua presença.
Então tentei dormir essa tarde pra fechar o ciclo de te ver. Pra quando acordar ser outra que não te viu. E quando fechei o olho eu lembrei de como tento ficar confortável ao seu lado. Eu lembrei do seu braço no meu estômago, e caindo de sono eu vi seu rosto próximo do meu.
E depois dormi.
quinta-feira, 11 de maio de 2023
A literatura gótica ressoa em mim porque escreve além das linhas.
Quando me aflijo com a vida e seu inescrutável feixe de caminhos, me vem a mente um dos elementos mais bonitos de A Cor Púrpura, que é a sensação de sermos todos uma comunidade. Um pequeno vilarejo com pessoas e suas vidas ordinárias que, mesmo depois de tudo, podem se perdoar e viver em harmonia.
"But I won't cry for yesterday, there's an ordinary world somehow I have to find"
Tenho visto meio cinza, presa dentro da minha própria cabeça. Queria saber como romper a película pra entrar em contato com o mundo. Sinto que estou inquieta, embora menos que antes, observando situações que posso relevar, remoendo questões cujas conclusões possíveis já foram alcançadas, esperando a vida acontecer e ser atingida pelo baque de um despertador ou o comentário de alguém para que algo em mim se manifeste.
Em resumo, estou a mercê do afeto do mundo, e a balança pende pra esse lado de um modo perigoso, pois não tenho procurado afetá-lo. Estou a mercê de uma consciência rasa e incômoda, talvez covarde, talvez desocupada. Se fosse mística diria que alguma energia minha desalinhou.
O único caminho possível para afundar em mim, ou para tocar o mundo, parece ser a ação que atravessa o desconforto como uma agulha que fura uma película gelatinosa.
O jogo da harmonia é delicado e muito difícil, seu véu nunca parece cobrir todos os aspectos da minha vida, e talvez seja bom para que eu tenha espaço para respirar fora disso. Mas quero puxar mais, desenrolar mais, estar embaixo desse calor com um coração cujas batidas não me incomodam e com uma sensação profunda de preenchimento.
E quando algo de fora me impacta com força o suficiente para romper a película, mesmo que com um dano tão mínimo que mal se nota, sou puxada pela cabeça para respirar o primeiro fôlego profundo, instintivo e desesperado desse mundo que me cerca.
A atenção que eu dou não tem sido suficiente, em alguns momentos, para colorir o que vejo. Percebo a atenção indo e voltando para o que existe aqui e para o que existe na tela ou na página, ou na minha cabeça. Percebo que a atenção desloca tudo com ela, tudo que eu sou. Mas, junto com minha coluna torcida, a consciência rasa ainda me cobra, me ameaça. O que ela quer de mim?
Procuro aceitá-la. Ofereço frases de acalento, ofereço a verdade mais pura e genérica que contemple tudo que ela possa temer. Ofereço o que posso, mas o que preciso, sei, é deixar que ela grite seus temores cíclicos e vãos enquanto cuido da minha vida, e permito que essa parte de mim deixe de ser hábito, e não ouça suas ameaças mas sim sua quietude. Quero que se aquiete essa consciência. Faço com que enfraqueça mais a cada dia e me deixe ser o que quero, e não me permitirei, citando Tudo em Todo Lugar, que nada me distraia dos momentos que desejei e não quero que acabem.
"Eu acho que Deus deve ficar fora de si se você passa pela cor púrpura em um campo qualquer e nem repara."
A culpa, o desconforto, o medo... Não posso deixar que nada disso rasteje pelo chão e agarre meu tornozelo. Não posso deixar que me impeçam de viver o que preciso, e o que posso, antes que tudo se acabe e a memória que se dissipe seja... Nada.
Foi Belchior quem disse: nada é secreto, nada é misterioso.
O jogo de luz e sombra, o jogo da harmonia, do equilíbrio, de deixar ser secreto e depois trazer à luz. De se encantar com a vida como um vampiro recém-criado, e de se acalmar evidenciando a naturalidade de tudo nas mãos de alguém ou nas próprias quando o terror da própria existência se opõe sobre nós e preenche todos os espaços. E essas delícias e horrores quem descreveu foi Lestat.
A comunidade, o Jardim Selvagem, tudo que é possível de ser feito sem que se precise pensar tanto ou carregar tanto melindre. Questionar menos ao cosmos e mais a si mesmo, confiar que o que quer que aconteça, será suficiente, será mais que o bastante, que o que está por vir é sempre melhor do que o que já foi. Que a pessoa que me torno será sempre a cura da pessoa que estava sendo a pouco.
E se tudo mudar ao meu redor... Eu mudo quem sou? Eu deixo de ser eu? Quero deixar de ser? Quais aspectos de mim eu quero que ainda sejam?
"And as I try to make my way to the ordinary world I will learn to survive"