terça-feira, 25 de outubro de 2022

Curtas 15 - Comidinhas

O fim de semana nem chegou e eu já sinto que vai ser pouco demais. Quero deglutir os afetos e os momentos cotidianos ao lado de pessoas que encorpam meu presente, tal qual o caldo grosso de uma carne de boi, cada uma de sua forma. Com sua presença, o estar ali, o comentário corriqueiro.

Quero abocanhar o fim de semana. Quero poder mastigar lentamente e articulando, na certeza de que posso ter colheres cheias e o prato nunca esvazia. 

Mas, ao contrário, o prato é cada dia mais delicioso e mais escasso. Mais raro, e descubro condimentos que não havia percebido. Me relaciono com eles, identifico novos, cuspo fora os que não me servem. Escorre baba do meu queixo porque não fui capaz de cuspir tudo. 

Sou uma moribunda ansiando por um prato que também temo, que não quero que acabe, que não é farto o suficiente mas que se me dão mais duas colheradas goela abaixo me engasgo e sufoco. Sou uma eterna insatisfeita. Sou uma futura despedaçada porque meu prato há de acabar. E eu hei de me arrepender pelos temperos que não fui capaz de descobrir. Pelas moscas que deixei pousar. Pelo tempo em que, olhando pro mundo, deixei que a comida esfriasse e me viesse a boca com uma dúvida, se era essa a minha colher. 

Preciso aprender a cozinhar.



E agora a parte leve do texto.

Família é caldo de ovo, é um líquido quente e revigorante descendo a goela. Dá pra sentir a força e o tempo na textura.

Namoro é pizza (ou açaí). Moderno e clássico, inconstante, desejado, surpreende, nem sempre pra melhor, as vezes atrasado, as vezes falta mais. Por outro lado quando me empolgo me encho. Desequilibrada. Sempre um evento.

Amizade é sorvete. Nem sempre tem, mas quando tem é gostosinho. Dá pra achar em toda esquina. Fico desconfiada se vale a pena às vezes.

Desconhecido é tipo comida do bairro da Liberdade. Pode ser gostosinho e pode ser uma merda. Mas é difícil saber, tá tudo em outra língua!

E eu sou um bolinho. Madalena. =^.^=




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